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A polêmica do destombamento em Juiz de Fora

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Arquibancada do Sport, projeto de Arthur Arcuri, está comprometida e não pode receber torcedores
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Arquibancada do Sport, projeto de Arthur Arcuri, está comprometida e não pode receber torcedores

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A palavra destombar existe no dicionário, mas, na prática de Juiz de Fora, ainda não. O termo significa a ação de retirar um bem do livro de tombo, fazendo com que o Estado abra mão da conservação de um patrimônio sob sua guarda. Na cidade, a arquibancada e a antiga sede social do Sport Club Juiz de Fora podem inaugurar a palavra no vocabulário arquitetônico local. Aprovada por quase 80% dos sócios do clube, a construção de um shopping center, onde hoje existe o complexo, depende do destombamento dos dois bens, reconhecidos como elementos importantes pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac), em agosto de 2011.

Segundo o documento do decreto de tombamento, "a antiga sede social e a arquibancada do Sport Club Juiz de Fora auxiliam a identificar o ‘perfil, a história e o orgulho de determinada coletividade, especialmente aquela ligada aos esportes, porquanto manifestam a memória e a identidade de um conjunto de pessoas’". De acordo com Marcos Olender, professor da UFJF, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-JF) e membro do Comppac, na mesma época em que foi pedido tal tombamento, também foram apresentadas propostas semelhantes para os outros dois grandes clubes da cidade, o Tupi e o Tupinambás. O Comppac reconheceu, apenas, a relevância arquitetônica e histórica do Sport.

Projetado por Arthur Arcuri em 1945, a arquibancada representou, na época, uma das construções mais arrojadas de Juiz de Fora. "O Arthur teve que recorrer a um dos maiores calculistas do país, responsável pela arquibancada da Gávea, no Rio de Janeiro, para concluir o projeto", conta Olender, certo de que a construção é um dos marcos da arquitetura na cidade. "Vejo com muita preocupação esse destombamento. No ano em que reconhecemos a relevância local, nacional e internacional do trabalho do Arthur, uma de suas obras é objeto de uma discussão desse porte", lamenta o professor, responsável pelas atividades de comemoração do centenário de Arthur Arcuri. Apontada como uma das mais significativas expressões do estilo art déco na cidade, a antiga sede também revela o luxo de outros tempos.

Instituído pelo presidente Getúlio Vargas em decreto de 1941, o destombamento foi utilizado pela primeira vez durante o regime do Estado Novo, quando o governante decidiu-se pela construção de uma larga avenida em linha reta na então capital, o Rio de Janeiro, para a realização dos desfiles cívicos. Vargas destombou um jardim, que perdeu parte de sua área, e duas igrejas do século XVIII, que foram destruídas apesar de representarem o estilo barroco. "A lei prevê esse instrumento, mas ressalta dois fatores: só pode ser pedido o destombamento se isso for atender ao interesse público ou por erro na causa determinante do tombamento", explica Olender.

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‘Shopping irá revitalizar a área’

Segundo o diretor financeiro e de esportes do clube, Walmir Evangelista do Santos, o Sport entrou em declínio após a construção do Mergulhão. Hoje, a área é reconhecida pelos perigos que oferece, como frequentes assaltos, e por ser utilizada por craqueiros. A porta da antiga sede social, localizada em frente à linha férrea, encontra-se completamente depredada e é alvo de constantes pichações. "O shopping irá revitalizar essa área do entorno. Além disso, vamos gerar quatro mil empregos, sem isenção fiscal, e continuaremos no mesmo endereço, porém na cobertura", comenta Santos. Olender contrapõe: "Particularmente não vejo o destombamento como sendo de interesse público e não enxergo erro no processo. O interesse público é algo que atende a comunidade de maneira emergencial, é uma intervenção que se configura como única alternativa. Existem outras formas de conferir segurança àquela área".

De acordo com Santos, a receita do Sport hoje não é suficiente para conservar e sequer restaurar os bens tombados. "Temos uma estrutura de muitos anos e não conseguimos manter esses espaços que não são mais utilizados. A arquibancada e a sede são patrimônios ociosos", afirma, dizendo não ter mais autorização da Defesa Civil e nem do Corpo de Bombeiros para levar torcedores ao projeto de Arcuri ou fazer grandes eventos, como antigamente, no salão de escadaria suntuosa pintado nas cores verde e branco, características do clube. "O complexo do clube não pode ser liberado. Para que isso aconteça, é necessário reformar tudo, o que é impossível", completa.

Revelando-se indeciso quando o processo foi iniciado, Santos diz preocupar-se com a memória do que já foi considerado um dos polos esportivos de Juiz de Fora. "Minha família possui uma trajetória aqui de três gerações. Meu pai e eu fomos atletas profissionais, hoje é o meu filho. Mas não adianta querer preservar sem ter condições", enfatiza. "O bonde era muito importante há 40 anos. Hoje não há mais forma de ele circular na Avenida Rio Branco. Precisamos evoluir", exemplifica. Para o sócio José Francisco Chinelato, torna-se inviável manter um clube com a responsabilidade de adaptá-lo, conservá-lo e restaurá-lo diante do declínio no número de frequentadores que se vê nos dias de hoje. "Apesar do valor histórico, é preciso reverter o impasse atual", defende.

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"A questão não é simplista. É possível respeitar um desejo comunitário, atendendo os anseios dos associados", argumenta Olender, destacando que se algo foi preservado é porque a comunidade reconhece como importante. "Há um desconhecimento dos mecanismos que existem para a conservação no país. Em Juiz de Fora, existe uma lei, nunca aplicada, que prevê a transferência do direito de construir. O tombamento cria limitações mas dá contrapartidas. Há possibilidades de ocupação desses espaços que um bom projeto arquitetônico pode solucionar", acrescenta, pontuando que o uso é um dos melhores instrumentos para a preservação.

Filha de Arthur Arcuri, Alice Arcuri reivindica outras soluções que atendam o clube sem que, para isso, destruam o projeto de seu pai. "Sei o quanto é difícil gerir um clube, mas colocar tudo abaixo é um grande desperdício", diz, para logo apontar um contrassenso que vai além da solicitação de reversão do processo de tombamento – ainda não apresentado ao Comppac – no ano em que o autor do bem completaria um século de vida: "Em 2014, serão realizados eventos esportivos de grandeza no país". Chefe de departamento do curso de Turismo da UFJF, Alice vai além do olhar afetivo e se posta como profissional: "É muito importante prezar por esses equipamentos".

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