
Enquanto fala, Enilce parece, a todo momento, querer dizer em francês. Há um leve sotaque, uma pronúncia que se estabelece entre a língua que lhe foi dada com o parto e a língua para a qual escolheu, também, existir. Enilce Albergaria Rocha vive na corda bamba entre duas culturas. Isso desde que seu pai, um militar que quando jovem escrevia para um jornal em Ouro Preto, começou a transmitir aos oito filhos a admiração por uma terra além-mar. “Tive um pai que, quando eu era criança, me falava poemas de Victor Hugo. Era um apaixonado pela literatura, cantava o hino nacional da França, tinha paixão pelas línguas e pela culturas francesas e latinas”, conta.
Após mudar-se com a família da São João del-Rei natal e estudar francês na Escola Normal – “eram as aulas de que eu mais gostava” -, ela decidiu-se, na adolescência, fazer um mergulho do qual não mais emergiria. “Fiz uma negociação com a Aliança Francesa: como não tinha o dinheiro para pagar, trabalhava como secretária à tarde e à noite estudava”, diz. “Eu e minha amiga Walquíria (Cardoso do Valle, hoje presidente da Aliança) nos encontrávamos, na casa dela ou na minha, para ler, gravar e depois ouvir. Assim aprendíamos e nos corrigíamos”, completa.
No vestibular, Enilce escolheu letras, faculdade na qual leciona hoje, dando aulas de francês. “Era uma época, na década de 1970, em que havia uma ebulição, uma efervescência intelectual na cidade. Conversávamos muito, na cantina da faculdade ou no Teorema, sobre política, literatura e outros assuntos”, recorda a mulher de cabelos encaracolados vermelhos como as hastes de seus óculos. Quando se formou, fazia teatro com o grupo Cena, companhia universitária, fruto de um movimento contracultural, que montou, onde hoje é a Câmara Municipal, a peça “Hoje é dia de rock”. No saguão, ergueram uma meia arena, e o espetáculo se encerrava com os atores descendo as escadarias do casarão.
Ela fazia uma cigana, e o companheiro de cena era o artista plástico Fernando Pitta. “A peça terminava com ele perguntando: ‘Para onde nós vamos?’. E eu respondia: ‘Vamos começar pelo mar'”, rememora. “Isso para mim foi muito premonitório, porque dois anos depois eu realmente fui embora e atravessei o mar”, conta. O que era para ser apenas um período de mestrado durou 17 anos, grande parte deles dedicada ao teatro, amador e profissional. “Comecei fazendo montagens poéticas, na qual dizia textos em francês. Foi muito interessante. Tive uma vida alternativa. Vivia com pouco dinheiro. Fiquei três anos sem vir. À medida que fui vivendo lá, fui encontrando meu lugar no espaço”, emociona-se.
“Partir é uma travessia. Quando parte, se instala em um entre lugar, entre duas culturas, entre duas línguas, num processo longo de pertencimento e de transformação da sensibilidade”, avalia, com sua voz calma. “É um processo longo em que vamos amando pessoas, lugares, itinerários, criando referências e laços. É uma história que não termina nunca. Na verdade, vivo sempre na falta”, diz. Essa falta, conta-me, não tem tradução. É sentimento. O francês explica: “‘Le manque’, uma palavra muito forte, não é a saudade. A saudade é uma nostalgia, já o ‘le manque’ não te impede de estar bem em outro lugar, mas define, sempre, uma distanciação de você e de seu espaço”, tenta explicar.
“A França é o meu lugar, como aqui também. Quando ficava muito tempo sem vir, começava a sonhar com o Brasil e sentia, até, o cheiro da terra. Meu vínculo com o Brasil é muito mais orgânico, enquanto com a França é outra história, é cultural”, pontua ela, que chegou, de vez, nos anos iniciais da década de 1990, quando o Teatro Caroube, do qual fazia parte, faliu após excursionar, durante um ano e meio, pelo Brasil. “Tínhamos o mesmo salário, e o grupo era subvencionado pelo Ministério da Cultura. Aí, minha mãe, que sempre queria que eu voltasse, me inscreveu no concurso para a universidade”, conta.
Ao fazer a travessia, retornando, Enilce trocou os palcos pelas salas de aula. E o “le manque” nunca foi tão intenso. “Logo que voltei, fui fazer o doutorado na USP e estudar identidade cultural, que era o meu problema. Ser atravessada por outra cultura, voltar para cá, criou em mim um buraco, com o qual convivo e que todos que pertencem a duas ou mais culturas conhecem. É uma vontade constante de mergulhar e estar lá nesse universo simbólico, que um oceano separa”, diz ela, que se tornou uma respeitada tradutora da obra do escritor francês Edouard Glissant e do ensaísta francês da Martinica Frantz Fanon, best-sellers da editora da UFJF.
O acerto de contas com a própria trajetória está, agora, em “Traversée – Entre margens”, disco lançado, primeiro, em sua Tolousse do coração. No próximo dia 21 de novembro, ela lança no Brasil. Extraídas de uma peça de teatro escrita para que ela atuasse (o que nunca ocorreu), de autoria da amiga francesa Jackie Schön, as canções saíram das gavetas e lhe surgiram na boca quando iniciou aulas de canto com o professor brasileiro Pedro Couri, e ganharam forma ao encontrar Estevão Teixeira, que faz os arranjos, além de outros parceiros, como Guto Gomes e Newton Vale. “É uma reconciliação com esses meus dois lados, com essas duas culturas de pertencimento, com esses dois mundos que me habitam profundamente.” É a ponte na qual Enilce construiu a própria vida.
