
Dad conversou com alunos da Academia de Comércio na tarde de ontem Dad conversou com alunos da Academia de Comércio na tarde de ontem
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“Algum de vocês nada?”, pergunta Dad Squarisi. Rapidamente alguns dedinhos se levantam ao seu redor. “Quanto mais nadam, mais rápido e melhor fazem”, reflete a jornalista, linguista e escritora. “Alguém joga futebol?”, novamente indaga. Mais uma vez, os pequenos estudantes que a rodeiam, com os olhos brilhando, encantados por conhecer a mulher por trás de “Deuses e heróis” (Franco Editora), levantam os dedos. “Não adianta ter todas as regras do futebol se nunca chutou uma bola em campo, é preciso praticar”, afirma a autora, para logo concluir: “A língua é a mesma coisa. É habilidade, como jogar futebol, nadar, digitar. (José) Saramago dizia que a gente não fala português, falamos línguas em português”.
Os dois livros infantojuvenis de Dad – o outro é “Pedalando pelas fábulas”, da mesma editora – revelam, por trás das páginas, a linguista, autora de colunas com dicas de português e editora de opinião do jornal “Correio Braziliense”. Cada palavra no lugar exato de uma história meticulosamente projetada. Libanesa, a mulher de traços fortes e marcantes radicou-se em Brasília, onde se formou em letras e logo estreitou seus laços com o jornalismo.
Convidada da Feira do Livro da Academia de Comércio, a escritora se encontrou com pequenos leitores e falou sobre esse domínio de uma língua que, segundo ela, são muitas. “Transito com desenvoltura, porque é muita prática. Escrever é habilidade, ler, também. Escrevo muito, cerca de dez horas por dia, desde cedo”, conta. “”Somos poliglotas em nossa língua. Se vou fazer um editorial no jornal, uso uma língua. Se vou escrever o suplemento infantil, é outra. Para a crônica policial, é outra. Para o horóscopo, outra. Essa língua sintética do twitter é outra também. Todas elas se completam, uma enriquece a outra. Acho um luxo conseguir dar o recado curtinho, claro, agradável, de forma que a pessoa entenda. Isso vem ao encontro dos tempos modernos. Hoje as pessoas não têm tempo.”
O progresso da síntese
Narciso era mais bonito que Brad Pitt e Leonardo di Caprio juntos. Hércules nasceu diferente, forte desde o bebê. Atlas punha o Hulk no chinelo. Em “Deus e heróis”, personagens mitológicos se tornam palpáveis para as crianças através de uma linguagem leve e extremamente lúdica, como no capítulo sobre a deusa Eco. “Quando você estiver num lugar grande e vazio, dê um grito. Você vai ouvir a repetição da última sílaba da sua fala. É o eco da Eco que ecoa”, escreve. “Quando meu filho era pequeno e chorava, eu começava a contar histórias para ele. História de Hércules, Aquiles, Vênus, Minotauro, e ele se acalmava. Pedia outra vez e até se esquecia da birra”, recorda Dad Squarisi.
“Quando o ‘Correio Braziliense’ me pediu para fazer uma coluna infantil que ampliasse o vocabulário das crianças, pensei nos mitos, que contribuíram muito para o enriquecimento do vocabulário português, tanto com palavras, quanto com expressões. A Eco trouxe o verbo ecoar. O cupido, a flecha; Aquiles, o calcanhar; Midas, o toque de Midas; Fobos, todas as palavras que indicam medo”, completa, sempre sorridente e afável com os atentos olhares infantis a sua volta. Referência na área, com diversos livros publicados sobre o uso da língua, Dad aponta para um empobrecimento vocabular que não acomete apenas o Brasil e é resultado dos muitos dilemas educacionais.
“Hoje as pessoas leem menos, e ampliamos nosso vocabulário com a leitura. Ver televisão amplia o vocabulário? A televisão tem um vocabulário padrão para atingir todos os níveis. É a leitura que consegue ir além, por isso precisa ser prazerosa, porque se não for assim dificilmente conquistamos o leitor”, comenta ela, que também se aventurou pelas fábulas em sua coluna. “Não tinha tanta preocupação com o vocabulário, mas com os valores. As fábulas nos ensinam muito, além disso, as crianças adoram ver bicho falar.”
Acostumada aos espaços definidos, próprios do jornalismo impresso, Dad, que tem um twitter seguido por mais de 10 mil internautas, vê com bons olhos os curtos textos do presente. “Encaro isso como um progresso. O Picasso, por exemplo, começou adorando pintar guitarras. Ele a pintava inteira e foi abstraindo, abstraindo, até chegar a uma corda, que ele diz que é a guitarra, e nós aceitamos que seja. Escrever sinteticamente é uma trajetória, é uma das tantas línguas que nós escrevemos”, diz, sob os olhares de apoio e aprovação das crianças. “Adorei”, “Foi o melhor livro de literatura que lemos esse ano”, “Faz a gente conhecer melhor a mitologia”, “A gente gosta disso”, foram algumas das frases de encantamento que fazem Dad acreditar na formação pelas vias da leveza. “Estudar é divertido. O desafio da escola é tornar o aprendizado uma diversão, porque a televisão, o cinema, a internet são divertidos. A escola não pode perder para esse universo externo.”
