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Suportes da memória

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O trabalho não era simples. Selecionar, entre 18 mil fotografias, aquelas que fossem significativas o bastante para representar, por sua potência visual e histórica, o arquivo fotográfico que o colecionador Mariano Procópio adquiriu durante boa parte de sua vida. A tarefa foi concluída pelo artista plástico Afonso Rodrigues e deu origem, em 2001, ao livro-catálogo A fotografia no Museu Mariano Procópio (164 páginas), que será relançado hoje, marcando o encerramento do projeto Foto 12. A nova edição da obra, contemplada na época pela Lei Murilo Mendes, será apresentada ao público na recém-batizada galeria Narcisse Szymanowski, do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), em tributo ao fotógrafo já falecido, homenageado pelo Foto 12 e também pelo catálogo.

Logo no início da pesquisa, fui apresentado a Narcisse, responsável pelo acervo, que, prontamente, se colocou à disposição para colaborar com a pesquisa. Mas ele era um pesquisador. Sabia tudo sobre o acervo. Tinha um relação particular e íntima com ele. Por fim, foi impossível não dedicar a obra a Narcisse, conta o organizador do catálogo. No decorrer da amostragem, conforme conta Rodrigues, foi transparecendo em Narcisse a pessoa que havia tecido, a partir do convívio diário com a coleção, múltiplos perfis da relação estabelecida entre arquivo e pesquisador. Às vezes ele nos apresentava as imagens imbuído de uma postura afetiva, como se estivesse falando de um ente querido; outras vezes era portador de uma atitude de profunda intimidade, deixando fluir a força identitária que a fotografia foi capaz de gerar nele; porém, sempre vinha à tona em suas atitudes o tom de reverência e admiração por esta arte, em decorrência daquilo que ela tem de mais profundo: a possibilidade de instalar novos horizontes na vida de quem as observa e que, com ela, estabelece um diálogo, escreve Rodrigues no texto que introduz a obra.

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A principal motivação da proposta – que também contou com o auxílio do fotógrafo Sérgio Neumann -, segundo o artista plástico, foi a necessidade de dar visibilidade ao material do acervo, que, em função da fragilidade de exposição a longo prazo, estava restrito à reserva técnica. Na nova edição, não foram acrescentadas outras imagens. Hoje, felizmente, o acervo do Mapro quase dobrou, contabilizando 33 mil fotografias. Seria necessária uma nova pesquisa para dar conta desse novo material, explica.

Múltiplos valores

A intimidade com a família real e a moda do colecionismo permitiram que Mariano e Alfredo Ferreira Lage construíssem um acervo fotográfico invejável do Brasil Imperial, segundo Rodrigues. O próprio Dom Pedro II era um grande admirador da fotografia. Foi dele a primeira câmera fotográfica que chegou ao país, elucida Rodrigues. Imagens históricas da cidade, que revivem os processos de desenvolvimento de Juiz de Fora – assim como do cenário internacional – também são exploradas no catálogo, dividido em blocos temáticos.

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Podemos olhar para as imagens fotográficas como fragmentos mínimos de tempo e espaço e sobre elas projetarmos sistema de valores, possibilidades de leituras e outros desdobramentos, levanta o organizador. A coletânea colabora com diversos aspectos intrínsecos aos enfoques fotográficos, servindo como registro técnico, documento social, relato histórico, mostruário de hábitos comportamentais, amostragem de diferentes modos de se vestir, reformas no tecido urbano, aquisição de estilos arquitetônicos, entre tantos outros. O que daí for gerado buscará desenvolver e discutir essa forma imagética como um suporte de memória, conclui.

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Arte emprestada

Maior mostra fotográfica da região, o projeto Foto 12 consolida, em sua segunda edição, o espaço dedicado às diversas técnicas fotográficas e diálogos entre pontos de vista. A iniciativa, que se encerra no dia em que completa um mês, contou com 12 exposições fotográficas, 1.215 imagens, em ambientes fechados e abertos, produzidas por mais de 160 fotógrafos do país, além de oficinas, palestras, debates, exibições de filmes e intervenções urbanas, com a programação inteiramente gratuita. Cerca de seis mil pessoas circularam pelos corredores do CCBM e pelo parque do Museu Mariano Procópio- cuja mostra prossegue até o dia 23 deste mês – durante os últimos 30 dias.

Na obra a A câmara clara, Roland Barthes questionou a quem pertence a fotografia. Ao fotógrafo? Ao fotografado? Ao observador? E, diante destas questões, concluiu, à sua forma, que a fotografia na verdade é um empréstimo. Partimos desta conclusão do filósofo francês para afirmarmos que a sobrevida deste catálogo, daquilo que nele consta e dos desdobramentos gerados pelos observadores, deve-se ao valor da imagem fotográfica como material em ’empréstimo’, concedida a cada um de nós para ser usada nas diferentes reverberações que poderão causar naqueles que nela fizerem seus mergulhos, sejam estes mergulhos de qualquer ordem, reforça Rodrigues.

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A FOTOGRAFIA NO MUSEU MARIANO PROCÓPIO

Relançamento nesta quarta, às 20h.

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CCBM (Avenida Getúlio Vargas 200).

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