Marcelo Copello se interessou por vinho quando tinha 20 e poucos anos. Naquela época, há três décadas, a bebida era vista como sinal de status, “para gente que usa gravata borboleta e suspensório”, diziam os amigos dele. Lendo livros sobre o assunto, ele conta que teve uma epifania: “Vi que era muito mais do que eu imaginava. Costumo dizer que eu abri uma portinha pequena através do vinho e descobri um universo atrás da porta”. Compartilhando o que ia aprendendo com os amigos, foi impulsionado a dar cursos de vinho. Começou em sua casa mesmo e, no boca a boca, foi crescendo, até virar colunista e lançar seus próprios livros.
“Eu costumo dizer que o vinho é só o líquido na garrafa; a emoção está em quem degusta”, diz. Para fazer com que outras pessoas tivessem o mesmo interesse que ele, Marcelo começou a traçar paralelo entre a bebida e outros assuntos, como música, cinema e personalidades. “Porque é possível fazer analogia de vinho com tudo: se eu gosto de cinema, eu posso, no vinho, enxergar os atores que são as uvas, os diretores que são os enólogos, a montagem que é o blend, e elas (as analogias) ficam riquíssimas, e as pessoas passam a entender melhor.” Um desses cursos, o “Vinho e algo mais”, será ministrado em Juiz de Fora nesta sexta-feira (12), a partir das 19h, no Unique. Voltado para o consumidor final, além de degustar os vinhos, os interessados vão assistir a filmes e usufruir das comidas do buffet. Interessados podem se informar pelo link diskcervejajf.com/vinhoealgomais.
Tribuna – O número de consumidores de vinho no Brasil dobrou entre 2010 e 2021. Estima-se que 36% da população brasileira consome a bebida. O que você acha que impulsionou esse aumento?
Marcelo – Tem um processo de popularização do vinho que veio acontecendo lentamente nesses 30 anos que eu trabalho com vinho, mas na pandemia deu uma acelerada. Desde que eu comecei na área, o brasileiro sempre quer saber mais de vinho e beber mais. O consumo aumentou na pandemia porque é uma bebida de relaxar, de ter um convívio. A gente deixou de ir ao boteco e pedir uma bebida dessas para abrir um vinho em casa, para cozinhar, com produtos melhores. O vinho é ocasião de consumo. Enquanto a Europa é um continente que tem o vinho como parte do seu dia a dia, já que eles bebem todos os dias, seja no almoço ou no jantar, no Brasil o vinho é ocasião de consumo: é aberto em ocasião especial. O consumo aqui no Brasil varia muito de acordo com a macroeconomia. Se a economia vai bem, o consumo sobe. E varia também com frente fria: fez frio, o consumo sobe. O Brasil associa o vinho ao inverno, ao contrário dos europeus. Mas existe vinho para todas as ocasiões.
Mas o que atrapalha esse consumo no Brasil?
O brasileiro não bebe mais por duas barreiras. A primeira é o preço. O vinho no Brasil é muito caro, tem muitos impostos. E a segunda é a barreira cultural. Eu costumo dizer que o vinho para o brasileiro é como o disco voador que aterrissou na praia de Copacabana. As pessoas veem de longe com fascínio e medo: ficam olhando, porque querem saber o que tem dentro; mas não chegam perto porque têm medo de levar um raio laser, alguma coisa assim. Tem esse medo da falta de cultura, que, na verdade, não tem que ter: basta pegar e beber.
Nesse tempo, observou-se também um aumento no consumo de vinho entre a população mais jovem, diferente do que era na sua época. O que você acha que aconteceu e qual é o tipo de consumo deles?
A geração Z é muito interessante. É a geração que vai consumir vinho em volume, mas não tão preocupados com a qualidade. Eles estão focados em vinho gostoso, que não importa a origem, tem que ser gostoso na boca e agradar, tem que ser barato, pra conseguir pagar, e tem que ser ecologicamente correto: sustentável, orgânico, natural etc. Basta isso. Na minha geração, era status, era mesmo gravata borboleta. Se custa caro, é mais gostoso, tem que ter origem europeia, tudo isso, pouco ligando se está agradando ou não a natureza. É quase o oposto de hoje. As gerações vão mudando de acordo com as visões de mundo. O vinho é um dos produtos mais ligados à natureza: o nível de empresas sustentáveis é muito alto, ele é um dos mais amigáveis que tem. Sobre ele, dá pra falar de química, geografia, história, cinema, o que quiser.
E a produção de vinhos no Brasil, que também teve aumento no consumo. Como ela está agora?
No Brasil, a gente tem uma produção relevante, apesar de não ser mundial, porque a gente exporta muito pouco. Mas internamente é relevante, não falta qualidade ao vinho brasileiro, dá pra competir tranquilamente com Chile e Argentina, por exemplo. A gente já tem muito vinho para o brasileiro tomar à vontade, mas tem muito o que melhorar e expandir. Sempre tem: o vinho está em evolução constante. Os vinhos estão sempre mudando e se adaptando, já que o clima mudou, o mercado mudou, o gosto do consumidor mudou. O vinho é uma complexa interação de muitos parâmetros. O vinho não tem receita. Cada safra é diferente. Tem a frase da baronesa Philippine de Rothschild, em que fala: “Fazer vinho é muito fácil, difícil são só os primeiros 400 anos”.
E para começar a beber vinho, o que precisa?
O primeiro é beber vinho. O que eu recomendo é a litragem. Tem a quilometragem e a litragem. E se ela puder ser orientada por alguém, é melhor ainda.

