
Tulio durante visita à exposição Cavaleiros do Zodíaco, em Akihabara, bairro de Tóquio conhecido entre os amantes de animes e jogos eletrônicos (Arquivo pessoal)
Quem foi criança nos anos 1990 e curtia jogos de RPG provavelmente era (e ainda é) fã da famosa série Final Fantasy. Imagine agora, depois de adulto, ter a oportunidade de trabalhar no desenvolvimento destes video games, dentro de uma das maiores empresas do segmento, e, ainda por cima, no Japão. Este sonho foi realizado pelo designer Tulio Minaki, de 29 anos, formado em Artes e Design pela UFJF e mestre em Gestão de Conteúdo Digital pela japonesa Digital Hollywood University. Natural de Matias Barbosa, o jovem acabou de ser contratado pela Square Enix, importante empresa do setor, responsável também pelo desenvolvimento de jogos como Chrono Trigger e Dragon Quest. De Tóquio, onde vive, ele deu entrevista à Tribuna e à Rádio CBN e contou como foi toda a mudança para o país e a escalada até a realização do seu sonho.
“Eu estava terminando o mestrado e em busca de um emprego, quando soube que a Square Enix estava contratando. Minha orientadora me ajudou a escrever o currículo e a entrar em contato com a empresa. Três semanas e duas entrevistas depois, fui contratado”, conta, empolgado. Seu primeiro contato com a empresa se deu aos 15 anos, quando ele jogou o Final Fantasy VII para Play Station. “Foi ali que me apaixonei pela empresa e pela série. Desde então, sempre disse para todo mundo que um dia eu iria trabalhar na Square. E hoje, 14 anos depois, estar aqui significa a realização do meu maior sonho. É muito emocionante e divertido poder trabalhar com algo de que sempre gostei. Mas acho que, além de tudo, tenho um pouquinho de sorte ainda”, ri.
O designer, que adora trabalhar com hiper-realismo e computação gráfica, fala também a respeito do delírio pelos jogos e desenhos. “Isso me despertou um fascínio pela ideia de poder contar histórias surpreendentes e mostrar mundos e personagens completamente diferentes do que vivemos. E tem a vantagem da interatividade. Com o avanço da tecnologia, os games estão ficando cada vez mais bonitos, e as possibilidades de interação estão se expandindo. Isso traz menos restrições e mais liberdade na hora de criar mundos e personagens, para nós artistas.”
A vida do outro lado do mundo
O interesse pelo Japão surgiu ainda na infância de Tulio e foi impulsionado por alguns familiares que sempre viveram no país. “Desde pequeno, eu via minhas tias que moravam lá contarem histórias sobre o país. Além disso, os jogos japoneses bombavam no Brasil quando eu era criança, o que me levou a ter um interesse ainda maior pela cultura. Assistia a ‘Cavaleiros do Zodíaco’, ‘Dragon Ball’ e adorava jogar os RPGs da época. O terceiro fator foi porque gosto muito de aprender línguas diferentes”, explica. Segundo ele, viver no país é complicado no início, porque são hábitos e cultura completamente diferentes. “Eles respeitam muito a privacidade, e isso torna a tarefa de fazer amizade bem mais difícil.”
Entre as vantagens, está a segurança e a tranquilidade de viver em um local com baixo índice de criminalidade, com excelente funcionamento de transporte, por exemplo. “Já com relação ao trabalho, eles são mais rígidos. A carga horária é a mesma dos brasileiros, mas eles costumam ficar na empresa fazendo hora extra em caso de muito trabalho. E sempre tem muito mais para fazer. Os últimos trens aqui, entre 23h e meia-noite, voltam lotados.”
Na hora que a saudade aperta, Tulio comenta que sente falta de pequenos detalhes do Brasil, como um simples aperto de mão. “Comida e língua são muito diferentes, mas a gente se acostuma. Os japoneses são ótimos, educadíssimos, sorridentes, respeitam as regras, e isso torna a vida em sociedade uma maravilha. Mas às vezes um abraço, um aperto de mão ou um simples conselho que você pede a um amigo são inexistentes. Não é da cultura deles, e isso acaba me deixando com muita saudade da família e dos amigos do Brasil”, conta.

