"Escrachado, sem ser fuleiro. Despudorado, mas sem perder a categoria." Essas são as definições de Luís Salém para o humor que norteia o espetáculo "Gozados", encenado neste sábado, no Cine-Theatro Central. O retorno do ator aos palcos da cidade levou alguns mandatos presidenciais. "Na última vez que estive em Juiz de Fora, fizemos piadas com o presidente Itamar Franco", lembra Salém, em seu tom descontraído, em entrevista pelo telefone à Tribuna.
A comédia – definida pelo elenco como um irônico "stand-up music" – segue a linha do projeto "Subversões", interpretado pelo ator ao lado de sua trupe excêntrica, Stella Miranda, Aloísio de Abreu e Gringo Cardia, que durante mais de 20 anos divertiu as plateias brasileiras com paródias "politicamente incorretas". "O ‘Gozados’ é um filhote do ‘Subversões’", conta Salém, que também assina o texto do novo espetáculo. A parceria de sucesso prossegue nos bastidores, já que as novas subversões também são assinadas por Abreu e dirigidas por Stella.
A atriz Renata Celidônio substitui Stella Miranda em cena na nova temporada do espetáculo, que estreou em agosto do último ano no Rio de Janeiro, fez temporada em São Paulo e, desde então, roda o país. "A entrada da Renata, que é excelente atriz e cantora, dá nova energia, outro gás ao trabalho", avalia Salém, que contracenou com a atriz na novela "Aquele beijo", da Globo. Tendo emagrecido 70kg, Renata brinca com o fato de ser uma "ex-gordinha" e incorpora novo número ao espetáculo, o "Atrás da torta", paródia de "Atrás da porta", de Chico Buarque.
Segundo Salém, em cena, personagem e ator se misturam. "Não dá para saber até que ponto sou eu ou não sou eu. Tocamos em vários assuntos, de forma crítica ou debochada, como comportamento, moda, sexo, política", explica.
Em "Gozados", diversos clássicos do cancioneiro nacional e internacional são subvertidos. Neste contexto, Chico é mais uma vez lembrado, com "Coerente", ode ao politicamente correto. "Ao fazer humor, não queremos ofender ninguém, mas também não podemos deixar de falar de certos assuntos, fazer piadas com o cotidiano. Com isso, acabamos sendo ‘politicamente incorretos’."
No ator-performer, corpo e voz são indissociáveis. Sobretudo, em uma comédia "stand-up music". "A definição desse gênero também é uma grande brincadeira", prossegue Luís Salém. "Tentamos promover uma mistura entre as linguagens falada e cantada. As músicas são texto e também contam a história." Canções que todo mundo conhece, de um jeito que ninguém nunca ouviu.
Para abrir a peça, "Alegria, alegria", de Caetano Veloso, virou uma "overture tropicalista" e anuncia o que está por vir. "De novo é novo", do original "De noite na cama", também de Veloso, faz uma análise debochada da eterna busca pela juventude. "A majestade o sabiá", sucesso da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó, serve de trilha para retratar os últimos escândalos políticos que assombram o país. Lulu Santos também é parodiado em "Tempos modernos" para falar da emergente bissexualidade. Até o "Fantasma da Opera" ganha nova e cômica versão, em uma homenagem ao teatro musical.
Alguns clássicos do repertório de "Subversões" também serão revisitados, com "Vai pastar" ("Vai passar", de Chico Buarque), e "Pentelho" ("Cabelo", de Arnaldo Antunes).
O cenário conta com gravura do carioca João Sánchez, um dos 30 artistas selecionados e convidados para a London Occupation, residência artística em Londres durante as Olimpíadas de 2012, atualmente editor e impressor do Estudio Baren, no Rio de Janeiro. A direção de arte é de Gringo Cardia, e a direção musical, de André Poyart.
"Somos ‘gozados’ porque gozamos de nós mesmos e também porque queremos dar prazer ao outro, fazer com que a plateia sinta prazer, satisfação e, claro, se divirta. Esse é o maior gozo, o prazer supremo", finaliza Salém.
GOZADOS
Sábado (13), às 21h, no Cine-Theatro Central (3215-1400)
