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Outras ideias com Ernando José da Silva

professor de geografia e faz tudo ernando conquista pelo entusiasmo fernando priamo

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Professor de geografia e faz-tudo, Ernando conquista pelo entusiasmo (Fernando Priamo)
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Professor de geografia e faz-tudo, Ernando conquista pelo entusiasmo (Fernando Priamo)

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No tempo dele, tudo era feito com a luz da lamparina. A escola era pela manhã. Os deveres e o trabalho, à tarde. A noite era cedo. O café, socava para virar pó. O arroz e o feijão, plantava para colher e comer. O lápis era gasto, pequeno. A borracha era a tampinha da penicilina que ficava guardada no estábulo. Ou o acabamento redondo, que fica na sola do chinelo de plástico. A paisagem era a roça de Maripá de Minas e nada mais. Passados quase 20 anos do adeus àquela terra onde nasceu e foi criado, onde a energia elétrica chegou junto da juventude, onde enterrou a mãe e o pai, onde se responsabilizou por duas irmãs especiais, onde conheceu escassez da mesa e a fartura do abraço, Ernando José da Silva, 43 anos , venceu.

A gênese

No dia do aniversário de 1 ano, Ernando foi morar com a avó, próximo à casa onde moravam os pais e os irmãos, entre eles o gêmeo Sérgio. Aos 7 já pegava na enxada. “Meu pai não dava moleza, não. Na roça eu capinava, roçava. Plantávamos de tudo”, lembra-se ele, que aos 14 viu a avó se despedir e foi morar com as tias. Passou um ano por lá até que, finalmente, dividiu a mesma casa que a mãe. Menos de dez anos depois, porém, a mãe resolveu acreditar no que mostrava a televisão e procurou um médico para ver um nódulo na mama. “O médico falou: ‘Não fica preocupada não, dona Memorina. Deve ser um bicho que mordeu'”, conta. O bicho do câncer, que em pouco mais de um ano levou a mulher de 47 anos.

A caminhada

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No desalento da ausência, Ernando encontrou forças para mudar. Aos 24, desembarcou por definitivo em Juiz de Fora. “Vim matriculado numa escola de informática. Chegava na sexta-feira à noite, dormia na casa de uma tia, de manhã estudava mais um pouquinho e depois de meio-dia voltava para Maripá. Durante a semana continuava trabalhando na roça”, recorda. “Durante a semana continuava trabalhando na roça”, recorda. Até que tornou-se caseiro no Bairro Jardim da Serra. “Morei oito anos nessa casa. Podia ver minhas irmãs todas as semanas, recebia dois salários e conseguia estudar. Terminei o segundo grau. Fiz eletrônica e conheci livros em alemão sobre adestramento. Pelo menos inglês queria fazer. Procurei no jornal e fui até um prédio no Centro. Quem me atendeu falou que inglês era só particular, mas tinha turma de alemão. Ele falou: ‘Se quiser aprender o básico, pode começar, não vou te cobrar nada, não’. Passei, então, a ser amigo dele e da família.”

A palavra

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No reencontro com a sala de aula que havia abandonado junto do irmão gêmeo – “Queria continuar, tinha vontade, mas achava que estaria menosprezando ele” -, Ernando se reconheceu. “Fui criado numa família de analfabetos. “O professor de alemão lhe inspirou e o impulsionou a chegar à faculdade. “Comecei a pagar cursinho, mas minha irmã falou que queria fazer enfermagem. O que ela ganhava não dava. Muito menos para se deslocar. Então falei para arrumar a passagem e saí do cursinho para ela fazer o dela”, lembra o irmão da enfermeira que hoje preside um lar de idosos em sua cidade natal, além de cuidar de um filho, das duas irmãs e de um tio especial. “Contei para essa família, e eles me arranjaram uma vaga no curso popular da universidade. Fiz vestibular no primeiro ano, errei geografia, justamente, e não passei. No ano seguinte passei para fazer geografia no CES.”

O eterno retorno

No desacerto próprio da vida, viu o patrão, dono da casa, morrer e ele ficar sem emprego. Tornou-se auxiliar de serviços gerais, jardineiro, piscineiro e caseiro por temporadas, tudo para pagar o curso. “No dia da minha formatura, toda a minha família estava chorando. Para eles, foi um troféu”, recorda. “Usei uma calça jeans só durante a faculdade”, lembra. Deu aulas na periferia de Juiz de Fora, em colégio particular de Matias Barbosa e hoje leciona na Penitenciária José Edson Cavalieri, em Linhares. “Numa brincadeira em 2013, falei com os alunos: ‘Se vocês fizerem Enem, me inscrevo também’. Fiz, passei na faculdade e hoje faço bacharelado interdisciplinar em ciências humanas na UFJF”, pontua. Tornou-se, novamente, estudante. E não parou. “Nesse meio tempo, também fiz pós-graduação em análise ambiental. Queria fazer inglês e perguntei ao dono de um cursinho em São Mateus: ‘Se eu fizer faxina nas suas salas, você me dá aula?’. ‘Na hora!’, respondeu. Eu, então, ia para a pós na sexta à noite; no sábado até meio-dia, fazia limpeza e, às 15h, já estava sentado aprendendo inglês.” No sorriso, o homem que hoje divide uma casa no Bairro São Bernardo com o irmão escreve a lição de uma resignação que transforma. “Somos reflexos do passado e o que vivemos hoje é o combustível para continuar.”

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