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‘Nosso cinema não falhará’

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"A cabine de projeção era um pouco a descoberta do mundo. Às vezes, um menino deixava de ver o filme, e, pela porta gradeada, extasiado, via o berreiro de uma máquina. O rolo de cima soltando a película, e, quando o operador juntava os carvões, o fortíssimo clarão azulado, como um relâmpago, era toda a beleza de um ser vivo. O filme, nas laçadas das curvas, pulsando como veias, e no interior da máquina, toda uma anatomia", descreve Jurandyr Noronha em seu "O momento mágico", livro de memórias publicado em 2008. Sempre preocupado em manter viva a história do cinema nacional, Noronha se rendia, assim, à própria trajetória, também refém dos rolos, mas também dos DVDs. Aos 96 anos, o documentarista nascido em Juiz de Fora e radicado no Rio de Janeiro é um dos homenageados da 8ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, que acontece na cidade histórica de hoje até segunda-feira.

Apesar de ter se despedido da cidade natal com apenas 4 anos de idade, Noronha não se esqueceu das raízes. "Em viagens de férias, mais tarde, em casa de minha tia Julieta e de meu tio Reynaldo Madeira de Lei, recordo-me da cidade sendo acordada pelo apito das fábricas chamando para o trabalho. Era a Manchester Mineira", comenta, em entrevista por e-mail à Tribuna. Autor de mais de uma dezena de documentários, entre longas, médias e curtas-metragens, Noronha se notabilizou pelo trabalho de pesquisa, pela paixão com os primórdios. E, nesse flerte com o passado, surgem as lembranças da Carriço Film, pertencente ao também juiz-forano João Carriço, que, após inaugurar o Cine Teatro Popular (um cinema com capacidade para 500 pessoas no Centro da cidade), nos finais da década de 1920, fundou uma produtora com a finalidade de criar vanguardistas jornais cinematográficos. Segundo Noronha, uma de suas influências é "a câmera velhíssima preservada no Museu Mariano Procópio".

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Da região, também saiu outro grande parceiro. Noronha trabalhou com Humberto Mauro no Instituto Nacional de Cinema Educativo, do qual o cataguasense foi um dos criadores e diretores, tendo realizado por lá os filmes "Carro-de-bois" e "A velha a fiar", considerados, hoje, obras-primas da carreira de Mauro. Além de cinegrafista do Departamento de Imprensa e Propaganda de Getúlio Vargas, Noronha também atuou ao lado de Adhemar Gonzaga, cineasta e produtor carioca falecido em 1978. Foi a publicação criada por Gonzaga na década de 1930 que despertou o documentarista e pesquisador a olhar de perto para o cinema. "O desejo surgiu ao ler muito sobre o assunto, em revistas como ‘Cinearte’ e ‘O Fan’, e publicações com autores ligados ao ‘Charlin Club’", aponta Noronha.

 

Conhecer para produzir

Em "70 anos de Brasil", documentário que encerra uma trilogia em longa-metragem sobre o panorama nacional nas mais diversas áreas, Jurandyr Noronha vai desde a política até os esportes, passando pela arte e pelas personalidades (como Candido Portinari pintando em seu ateliê e Ismael Silva cantando despretensiosamente em uma mercearia), para mostrar um Brasil multifacetado, que a tela grande foi capaz de registrar. Seja ao lado de Adhemar Gonzaga, no famoso e prestigiado estúdio Cinédia, seja assinando colunas em veículos como "Cinearte" (que de paixão virou ofício) e "Cena Muda", nas quais falava de cinema educativo, ou cinema amador, seja até mesmo na Embrafilme e outras produtoras independentes pelas quais passou, Noronha sempre se dedicou a mostrar o vigor da película brasileira.

Em sua trajetória de militância, escreveu os livros – considerados por especialistas como fundamentais para a historiografia da telona nacional – "No tempo da manivela", "Pioneiros do cinema brasileiro" e "A longa luta do cinema brasileiro", além de muitos outros. A vasta documentação que reuniu durante seu percurso, com produções que remontam ao ciclo dos "Falantes e cantantes" e revelam toda a evolução da indústria cinematográfica no país, foi comprada pela empresa Light em 1991 e doada ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro seis anos depois. Documentários históricos, filmes de ficção em 16 e 35mm, cenas do cotidiano carioca (a Cinelândia em 1920, a Avenida Rio Branco, a Praia do Flamengo, Copacabana e o Carnaval de 1940, e outros flagrantes), fotografias de filmes, estúdios, equipamentos, salas de exibição e personalidades do cinema nacional e estrangeiro se misturam a indumentárias, tudo ao alcance do público. Pertencente ao Museu do Cinema, iniciativa inédita no país feita por Noronha nos anos 1970, o material foi dividido, e os grandes equipamentos hoje estão na cinemateca do Museu de Arte do Rio.

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"A história do cinema nacional está preservada pelos trabalhos importantes da Cinemateca Brasileira, do Museu da Imagem e do Som, Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, Cinédia, EMC (que produziu ’70 anos de Brasil’, ‘Cômicos + cômicos’, assim como inúmeros outros documentários que eu dirigi), e dos muitos cineclubes e estudiosos", avalia Noronha, para logo completar: "Lamentavelmente poucos têm feito estágios no estrangeiro, em centros mais avançados". Segundo ele, é muito importante conhecer o passado para produzir no presente e no futuro e, para os que acham que caminhamos para produtos enlatados, ele é pontual e bastante otimista: "Não creio que ‘o formato hollywoodiano’ termine por ter tanta influência: as literaturas francesa e inglesa não levaram ao esquecimento figuras como Machado de Assis e Jorge Amado".

Atento aos muitos tempos que conheceu ao longo de seu quase um século de vida, Jurandyr Noronha acompanha o cinema contemporâneo e toda a movimentação em torno dele. "A principal mudança que percebo, sem dúvida, foi o acirramento do espírito de luta dos quadros profissionais mais jovens. Tudo passa pela defesa do que já foi conquistado", analisa, certo da qualidade de nossas produções. "O nosso cinema contemporâneo não falhará, como os precursores e pioneiros nunca falharam", conclui.

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De olho na história

 

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Em sua oitava edição, o CineOP, mostra dedicada à história do cinema, apresenta como tema "1964-1969: o cinema brasileiro entre o Golpe e o AI-5", que antecipa os 50 anos do movimento que deu início à ditadura militar no país. Entre longas, curtas, palestras e oficinas, o evento, sob a perspectiva do tema "Tempo de compartilhamento", aborda a preservação. Além de Jurandyr Noronha – que será representado pela filha na noite de abertura e terá seu filme "Uma alegria selvagem", de 1966, exibido amanhã, às 20h30 -, a mostra também homenageia o cineasta Walter Lima Jr.

Dois juiz-foranos participam do CineOP. Tomyo Costa Ito apresenta "Missa", na Mostra Horizontes, no dia 16, domingo, às 17h30, no Cine-Teatro. Já o premiado documentarista Marcos Pimentel exibe o curta "Sanã", na segunda, às 18h30, na Mostra Curta na Praça. Programação completa em www.cineop.com.br.

 

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