Em a "A invenção do finito", escreve Murilo Mendes: "Pude viajar. (…) Procurava nas cidades de arte reconstituir-me em outras encarnações." Em seguida, o poeta, que completaria 112 anos amanhã, aponta, como a fazer versos: "Testemunhei o encontro contínuo de palavras que se cumprimentam e que se desconhecem." Bastante didática, reunindo murais com trechos dos escritos do escritor e reproduções de obras famosas que ele contemplou em suas tantas viagens, a exposição "Murilo Mendes – O passeante moderno dos museus", em cartaz até o dia 19 deste mês, no Mamm, mostra um intelectual bastante completo, formado entre os textos, mas também entre as formas plásticas.
Baseada em dois livros de Murilo, "Cartas geográficas" e "Janelas verdes" – ambos contidos no volume "Murilo Mendes: poesia completa e prosa", de 1994 -, a mostra apresenta passagens do poeta por espaços de prestígio para a arte mundial, como o Museu de Herákleion, na Grécia; a National Gallery, em Londres; o Louvre, em Paris; e o Moma, de Nova York. Sobre o Metropolitan, advertiu o escritor: "A fórmula palácio-depósito de objetos de arte aproxima-se da exaustão. Enquanto não a mudam, entro, sentindo-me quase pré-histórico, num museu." Segundo Paulo Alvarez, responsável pela expografia e autor das imagens que ilustram as cidades portuguesas as quais o poeta retrata em "Janelas verdes", há um aspecto visionário de Murilo em seus comentários sobre o universo da arte. "Ele discute questões, já nos anos 1960, que hoje estão na pauta da nova museologia", aponta.
Presente tanto nos projetos gráficos de seus livros – como as serigrafias de Maria Helena Vieira da Silva que ilustram "Janelas verdes" – quanto na própria formação intelectual do escritor, as artes plásticas foram perseguidas por Murilo Mendes durante toda a vida. De "Guernica", de Pablo Picasso, a tela "O casamento dos Arnolfini", assinada por Jan Van Eyck, o universo de figuras que povoaram o imaginário do poeta também lhe serviram como instrumento para a crítica de arte, produzida em nuances sutis entre o que é literário e o que é história.
Dividida em duas seções, a exposição também se atém a Portugal, terra onde Murilo conheceu a esposa Saudade e morreu, em 1975. Com fotografias de Paulo Alvarez, as cidades de Aveiro, Guimarães, Leiria, Óbidos e Porto ganham outros contornos nas palavras do escritor, que vê poesia a cada esquina desses lugares. "Quase salta ao nível da rua o peixe branco azul ou vermelho. As não-inquietantes aveirenses riem recíprocas, quem sabe saberão a sal", devaneia o juiz-forano, que em 1920 transferiu-se por definitivo para o Rio de Janeiro, dando o primeiro passo para ganhar o mundo.
Integrando a programação da 11ª Semana de Museus, do Ibram, que ocorre de amanhã até dia 19, a exposição confirma a inteireza do intelectual juiz-forano, cheio de referências e conhecedor de muitas áreas. Ao sair de "Murilo Mendes – O passeante moderno dos museus", fica a sensação de que ainda há muito a se descobrir num poeta que se queria acessível.
