
A história, daquelas que talvez só aconteçam no Brasil, possivelmente seria um prato cheio para o chargista Bello. A exposição em homenagem ao artista teve que ser adiada quando os alunos da UFJF invadiram a Reitoria em protesto contra várias questões de ordem política e econômica, exatamente na data em que o Espaço Reitoria promoveria a abertura da exposição: 27 de outubro. Com o espaço novamente desocupado, novas e antigas gerações poderão descobrir ou relembrar a trajetória do artista juiz-forano na exposição “Saudades do Bello – 25 anos de charge”, que enfim terá sua abertura nesta quinta-feira, às 20h30, no mesmo Espaço Reitoria. O chargista morreu de infarto em 2011, aos 55 anos.
No total, estão expostos cerca de 300 trabalhos de Bello, que cursou engenharia sonhando em ser arquiteto e, em 1983, iniciou a carreira de chargista no extinto “Diário Mercantil”, se transferindo para a Tribuna em 1986, onde permaneceu por 25 anos. Nesse período, Bello usou de sua arte para retratar com bom humor, ironia e sagacidade alguns dos momentos mais importantes da história do país. O mesmo se deu com a sua Juiz de Fora natal, em que o cotidiano de problemas incontáveis era sempre alvo de seu olhar crítico, porém satírico.
A mostra, organizada de forma cronológica, atravessa momentos importantes do país, como a eleição indireta de Tancredo Neves para a presidência, o Governo de José Sarney, as crises econômicas, os Anos Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real, assim como os anos de Lula no poder. Com tanta história para contar, a idealizadora da exposição, a pró-reitora de cultura da UFJF Valéria Faria, encontrou dificuldade para separar o material. “Precisei chamar o Mário Tarcitano (atual chargista da Tribuna, que substituiu Bello) para nos ajudar. Disse que era um convite irrecusável (risos), pois como chargista poderia me ajudar na seleção desse material, afinal, ele também trabalha com essa temática de crítica social. A Izaura Rocha (jornalista) também ajudou muito, assim como a filha do Bello, Nicolle, que foi organizadíssima. Ela havia colocado tudo em caixas e tentou intuitivamente associar as charges por temas. Quando vimos aquele monte de charges ficamos apavorados (risos).”
O volume de obras que foram separadas era considerável, não tornou o trabalho fácil. Valéria, no entanto, destacou o prazer de poder revisitar a carreira do artista. “A gente ria muito durante a seleção do trabalho, porque o Bello é muito perspicaz na observação da realidade, da nossa sociedade, do cotidiano do Brasil e do mundo. Foi muito divertido”, afirma. “Além disso, as charges de três décadas atrás retratavam um país com os mesmos problemas sociais de hoje, as mesmas crises, os mesmos personagens da política fazendo as mesmas coisas. São os mesmos problemas no transporte público, a dengue, os alagamentos… É engraçado ver como a gente ri de nós mesmos, da nossa história. É um trabalho que poderia ilustrar a Tribuna hoje.”
É por conta dessa atemporalidade do trabalho de Bello que a organização da exposição planeja convidar as escolas para levarem seus alunos até o Espaço Reitoria. “É uma oportunidade para os mais novos, os que se interessam pelo universo das artes gráficas, porque ele era referência não só pela arte, mas também pela inteligência, a perspicácia. É o trabalho intelectual somado à beleza visual. Acho que isso fica muito evidente no trabalho, e será um grande aprendizado tanto para quem se interessa pelas artes gráficas quanto para os alunos em geral.”
“Saudades do Bello – 25 anos de charge”
Abertura hoje, às 20h30. De segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e sábado das 9h ao meio-dia no Espaço Reitoria (Campus da UFJF).
Até 13 de fevereiro.

