
Weber trabalhar na Rua Paulo de Frontin, num salão do Demlurb, onde também é conhecido por Scooby, personagem cuja voz ele gosta de imitar (FOTO: LEONARDO COSTA)
Tudo o que não é descartável
Assim como o que é reciclável, tudo o que é descartável também tem destino. E caminho. Weber Bahia Coutinho, de 48 anos, convive com o que as pessoas não querem mais. “Já trabalhei na capina, em caminhão durante um mês, catei papelzinho na beira do Rio Paraibuna, fisgando a sujeira, fiz de tudo um pouco. Por ser hipertenso, andar correndo atrás de caminhão não deu para mim. Na capina era bom, porque todo dia eu animava a turma. A gente sempre tem uma palavra para oferecer, né?!”, indaga, retoricamente. “Agora trabalho na manutenção, lavando os contêineres e o salão (na Rua Paulo de Frontin, no Centro), cuidando para que o pessoal saia com os carrinhos do lixo. Faço tudo com carinho e amor. Feliz da vida. Graças a Deus estou empregado, né?!”.
Em algum momento teve nojo?, pergunto. “Nunca. Graças a Deus. A gente vai acostumando, desde cedo. Antes, quando eu ficava desempregado, limpava poço, capinava lote. Vou falar para você que é fácil? Não é. Mas no dia a dia a gente vai aprendendo a lidar com as coisas, aprende, até, a controlar a respiração. É preciso estar preparado. Nada me faz mal”, responde, sorrindo, para logo mudar a feição e lembrar da invisibilidade que compartilha com o que lhe é objeto de trabalho. “Às vezes as pessoas olham com pouco caso. Às vezes você vai pedir uma água em certo lugar e dão um copo, mas quando a gente vai devolver a pessoa já não quer mais, fala que pode levar o copo. Entendo como descaso. Mas não ligo. Estou sempre rindo.”
Dó
Escondido atrás da pilastra que fronteia o prédio onde o Demlurb deposita os contêineres que reúnem o lixo da região central na qual não transitam carros, Weber toca algo semelhante a um saxofone. Vestido com um uniforme verde, contrasta com as muitas caixas laranjas do lugar. “Coloquei para mim que através dessa garrafa vou conseguir minha casa própria”, ri o homem instrumentista.
Ré
“Quando era criança, gostava de fazer imitações. Scooby Doo e outros desenhos animados. Meu amigo tinha mesa de som, e eu me escondia atrás das caixas e imitava as vozes de personagens, som de bateria, guitarra. Como gosto de saxofone, comecei a soprar num cone, o ‘saxocone’, mas ficou muito puxado para minha garganta. Falei: ‘Vou dar um jeito de amplificar’. E peguei a garrafa PET, mas a molenga não fica tão boa quanto a retornável com uma consistência melhor”, diz Weber, mostrando o objeto, confeccionado há um ano e cujo fundo ele retirou. “Um dia cheguei ao Espaço Mascarenhas, e tinha um cara tocando saxofone. Cheguei atrás da parede e comecei a tocar na garrafa (Toca ‘Samba de verão’, de Marcos e Paulo Sérgio Valle). Virei o centro das atenções, aí acabei indo embora”, conta ele, o mesmo que se enamora, dia após dia, pelos instrumentos fabricados em metal, que reluzem nas vitrines.
Mi
Evangélico, presbítero da Igreja Pentecostal Vale da Benção que sonha em se tornar pastor, Weber não conhece as notas musicais e sequer tem partituras. Mas tem repertório. “Gosto mais de tocar louvor, mas também música internacional, como Michael Jackson, Stevie Wonder, Lionel Richie, Diana Ross e o tema do ‘Titanic’. Teve um dia que umas estudantes da Escola Normal passaram, e uma menina jogou umas pratinhas para mim. Outro dia apareceu uma dona e me deu R$ 100, ela era de Coronel Pacheco”, emociona-se o homem que é convidado para apresentações na igreja. “A agenda está cheia”, ri.
Fá
Nascido e criado em Matias Barbosa, desde 2002 – ano em que foi aprovado e convocado no concurso para auxiliar de serviços gerais da Demlurb – Weber faz, diariamente, o percurso de sua casa até o trabalho de moto, pela Estrada União e Indústria. Às vezes, para no caminho, próximo ao Bairro Retiro, saca sua garrafa da mochila e toca uma música. “Sempre mexi com calçado. Era sapateiro, mas também fazia meu som. Tudo vira som, do cano à garrafinha pequena. Não sei como faço, sei que é dom. Nunca fiz curso, não sei nem para que lado está a música”, brinca ele, pai de João Gabriel, 5 anos, e marido de Daniele. “Estudei até a quinta série, depois parei. Perdi minha mãe muito cedo, com 6 anos de idade. Ela morreu de câncer, nos dois seios. Na época, não tinha muito recursos. Meu pai ficou cuidando da família, somos três irmãos e decidimos trabalhar para ajudá-lo”, lembra ele, que, aos 32, viu o pai, um sapateiro, também despedir-se. Destemido, Weber trabalha desde os 15. Destemido, Weber toca sua vida sem fazê-la descartável.

