Brutas e lapidadas: pedras preciosas e belas
Cabeça de crocodiliano é uma das atrações logo na entrada
Ala dedicada aos bandeirantes expõe objetos como espadas, espingardas e reproduções de quadros famosos
Num passado nem tão distante, todo o Brasil se debruçava sobre rochas para encontrar ouro e outros minerais preciosos. Daquele momento em diante, a exploração definiria os rumos de um país. Em “Os geraes de Minas”, exposição em cartaz no Espaço Cultural Correios, até 3 de janeiro de 2015, a história se une ao presente para abordar um recurso do qual a vida humana se faz extremamente dependente. “O ser humano ainda é muito telúrico, depende muito da terra, e quase sem sentir. Tanto do ponto de vista da alimentação, já que tudo vem do campo, quanto do ponto de vista da própria casa. Uma casa é quase toda feita por minerais e rochas”, comenta o curador Diógenes Campos.
“Ainda no tempo da colônia, as explorações começaram com os bandeirantes, passando pelos reinados de Dom João V, Dom José I, Dona Maria I, pelo iluminismo na Europa, chegando aos dias atuais com a vinda de Dom João VI trazendo a primeira pesquisa geológica em Minas Gerais”, enumera Campos. “Passa também pelo próprio José Bonifácio de Andrada e Silva, que era um mineralogista, seguindo até a escola de Minas e a descoberta de Nióbio e a exploração do ferro. Um coração de ouro num peito de ferro, já dizia o lema”, completa, referindo-se à frase do especialista Francês Claude Henri Gorceix.
Minas, nesse contexto, é o cerne de uma complexa trama. “A ideia é mostrar que Minas Gerais é um produto da mineração. E isso está subordinado a uma história da Terra, que começa há mais de quatro milhões de anos”, explica Campos. Naturalista, geólogo e paleontólogo, ele é diretor o Museu de Ciências da Terra, do Rio de Janeiro, do qual grande parte dos minerais expostos faz parte. Campos também é membro-correspondente do Museu Nacional de História Natural de Paris, imortal da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências da América Latina.
À flor da terra
Logo na entrada de “Os geraes de Minas”, exposição que iniciou sua trajetória no Museu Correios, de Brasília – o que justifica a aglutinação das peças em Juiz de Fora, já que o espaço da capital nacional gozava de dois amplos andares – chama atenção uma reprodução da cabeça de um crocodiliano e grandes pedras, como um cristal exuberante em sua brutalidade. O fêmur de um bicho-preguiça, agigantado, também se destaca na possibilidade de ser tocado. Fósseis, como os de dois ovos de dinossauros e de um casco de tartaruga, foram encontrados durante o processo da mineração. Prova de que a atividade contribuiu com outras áreas da ciência no país.
Trata-se de uma mostra extremamente didática, voltada a jovens e curiosos: encantadora por expor pedras preciosas em seu estado bruto e já lapidadas, ainda que cansativa pela reconstrução textual e imagética de todo o ciclo de exploração, apresentada em plotagens estáticas nas paredes da sala.
Representando o período dos bandeirantes, a mostra reproduz duas obras do Museu Mariano Procópio, as telas “Fernão Dias Paes Leme”, de Henrique Bernardelli, e “Manoel de Borba Gato”, de Rodolfo Amoedo. Dali em diante, guiados pelo articulado e preparado monitor Alessandro Aguiar, os visitantes tomam contato com os primórdios que justificam o hoje. A estrutura política e social do Brasil de agora surge dos tempos em que “era tudo retirado à flor da terra”, como diz Diógenes Campos. “A exceção é São Paulo, que depois viveu um grande investimento no café, o que fez com que se libertasse cedo da mão de obra escrava, criando capital suficiente para levantar uma indústria nacional. Os outros estados, Minas Gerais, Bahia e hoje o Pará, são resultados da atividade de mineração. E o Rio de Janeiro agia como a porta de entrada e saída de tudo isso, como um porto realmente.”
Segundo o curador, a ideia era que Portugal lucrasse com o acesso ao Brasil. “Pero Vaz de Caminha fala em salvar a alma, em uma terra em que ‘plantando tudo dá’. Os espanhóis retiravam ouro e prata do Peru e do México, enquanto do Brasil não saía nada. E isso era cobrado aos portugueses. Durante um século, tiraram quase mil toneladas de ouro do país, enviadas à Portugal. O que ficou? Pinturas de pó de ouro nas igrejas, muito pouca coisa. Assim entendemos o que fez uma Inconfidência Mineira, que reclamava disso tudo”, analisa o especialista. E essas pedras, belas e incríveis – como a negra alfrisita e o cinza bruto ouro, que só depois se transforma em dourado -, não à toa tornaram-se peças de museu.
Os dias dessa mineração estão contados?, perguntam-se os espectadores ao término da mostra, e pergunto eu a Campos. Eis a resposta: “Eles são finitos, e fica cada vez mais difícil descobrir onde há grandes concentrações, mas o homem já está pensando olhando para os céus, para os asteróides e outros planetas. Para a Terra, a dependência dos minerais ainda é enorme. Por exemplo, quando uma criança nasce nos Estados Unidos, ela já tem sete vezes mais à disposição dela bens minerais do que outra criança nascida em outra parte do mundo. Não pensamos nisso, mas quando começamos a pensar levamos um susto. É uma dependência total”.
“OS GERAES DE MINAS”
Visitação de segunda a sexta, das 10h às 18h, sábados, das 10h às 14h, até 3 de janeiro de 2015
Espaço Cultural Correios
(Rua Marechal Deodoro 470)

