Bastava que o chão abandonasse sua condição habitual e fosse visto. Ele sempre esteve ali, resguardado pelas paredes da antiga fábrica. Até que certo quadro do impressionista francês Gustave Caillebotte levou os olhares – já acostumados a novas direções – para baixo. Esse é o piso do CCBM, comparou a diretora Renata Rodrigues ao receber por e-mail a obra Os aplanadores de assoalho. Foi então que as madeiras do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas começaram a soprar histórias nos ouvidos dos 15 atores, juntos desde abril no módulo avançado do curso de teatro da instituição. Para encerrar a trajetória de oficinas e debates, o grupo estreou, na última quarta, peça que toma por empréstimo o título da tela de Caillebotte.
A Tribuna esteve presente no último ensaio do espetáculo, na terça. Logo após os ajustes de luz, a conversa com o elenco teve início e se estendeu por mais de uma hora. Ansiosos, os jovens artistas tentavam adivinhar a reação do público. Ele vai experimentar com a gente, arrisca Felipe Moratori, que desenvolveu a dramaturgia ao longo do processo. Segundo a atriz Kiara Luz, a montagem, construída desde setembro, deseja inquietar a sensibilidade das pessoas. É um trabalho bastante questionador, justifica.
A diretora Renata Rodrigues, ao lado da turma desde o início da incursão teatral, comenta que a função do curso era desvendar possibilidades de criação. Por isso, decidiu inverter a ordem e começar pelas partituras de movimento. Em mãos, ela tinha apenas a imagem do pintor impressionista. A partir dela, mergulhamos em nosso experimento por meio de jogos corporais. Enquanto isso, Moratori desenvolvia o argumento, levando em conta as noções de triplo e espaço vazio, trazidas pelos três aplanadores do quadro. Assim foi descoberta a arquitetura do CCBM, transferida para a posição da cenografia. O lugar se tornou a nossa casa. Chegamos ao sótão, ao porão e aos corredores, três cômodos imaginários que abrigam relações familiares, memórias e devaneios, afirma o dramaturgo.
Para o ator Tom Brynner, a proposta de construir a marcação antes do texto pareceu bastante assustadora, afinal, como idealizar algo sem qualquer referência palpável? Sabíamos que seria dessa forma, brinca, mencionando a tendência da diretora de quebrar a estrutura começo, meio e fim. Renata conta que resolveu encarar qualquer risco. Sem a intenção de levantar a bandeira do teatro contemporâneo, ela pretendia que os alunos se descobrissem e se posicionassem como artistas. Não importa a técnica, importa a intenção, resume, confessando que chegou a cogitar um texto clássico: O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues. Mudou de ideia por um motivo simples. Não podia desperdiçar a presença do Felipe e a chance de criar em conjunto.
Quando a dramaturgia, enfim, ficou pronta, chegou a hora de novos descobrimentos. Divididos em pequenos grupos, os atores – todos aplanadores – adaptaram-se àquela criação poética e flexível, na qual as rubricas eram eles mesmos, e se fixaram em um dos três cômodos imaginários (estabelecidos em diferentes espaços do centro cultural). Segundo a atriz Luciana Maia, nesse momento, as variadas linhas artísticas do elenco ergueram obstáculos. Trazíamos bagagens muito distintas. Mas foi importante aprender com isso.
Desde o início, a diretora pretendeu que as múltiplas ideias e discussões afluíssem ao mesmo ponto. De acordo com ela, todos os professores do curso, práticos e teóricos, compartilhavam objetivos. Foi um cuidado, afinal, tratava-se de um módulo avançado. A montagem é o resultado do trabalho realizado desde o primeiro dia. Como os atores vivenciaram os três espaços de encenação, foram deixando suas marcas em cada partitura. Renata lembra que uma das marcações é repleta de movimentos criados por uma atriz que acabou deixando a proposta. Todos estão presentes o tempo todo de alguma forma, explica, acrescentando que procurou não interferir nos caminhos escolhidos.
Outra ferramenta importante foi a fotografia. Comandada pela atriz Renata Meffe, a lente revelou os cantos esquecidos do CCBM e incitou o afeto do grupo. Não consigo mais encostar no assoalho desse local como antes, diz Kiara Luz, colecionando no corpo farpas e cortes feitos por pregos. Como observa Meffe, sua intervenção, que começou como um registro para o blog da peça, ajudou os colegas a enxergar a casa. O ator Bruno Góis concorda, destacando as diferenças entre os três cômodos imaginários: enquanto o sótão apresenta clima leve e onírico, o porão se mostra tenso e sombrio. Já os corredores infinitos, lugares de travessia, são secos e objetivos. Fomos entendendo isso aos poucos, conclui Bruno, admitindo que o medo invadiu o território do elenco na véspera da estreia. Tudo bem. O chão estava lá para ampará-los.
OS APLANADORES DE ASSOALHO
Hoje e dias 16, 17 e 18, às 21h
CCBM
(Av. Getúlio Vargas 200). 3690-7051
Entrada franca. Retirada de convites com meia hora de antecedência no local.
