
O filme “Agora é tempo de adormecer as máquinas” estreia em Juiz de Fora nesta quinta-feira. Sob direção de Pedro Carcereri e protagonismo do dançarino juiz-forano Rômulo Vlad, o curta-metragem de 15 minutos combina cinema, coreografia e reflexão crítica sobre o contemporâneo. A exibição é gratuita e acontece às 18h30, às 18h30, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM).
Após a estreia, serão realizadas uma apresentação do elenco de dançarinos, integrantes do grupo urbano de dança Remiwl e uma festa no Maquinaria, às 20h, com a participação do DJ Ever Beatz, responsável pela trilha sonora do filme.
Produzido pela Old Man Artes, a narrativa explora uma arqueologia distópica, traço característico do trabalho de Carcereri. O coreógrafo e bailarino Rômulo Vlad une o corpo e a dança como um instrumento de questionamento, refletindo sobre o desgaste das engrenagens sociais e afetivas em um ritual coreográfico que transita entre despedida e transformação.
O surgimento de uma videodança
Pedro Carcereri relata que o filme surgiu da sua parceria com Rômulo Vlad, que já trabalhou com artistas renomados como IZA e Selena Gomez. “Nosso primeiro trabalho juntos foi em 2020, no clipe da banda Onze:20, ‘O problema é que cê sabe’, que eu dirigi. Eu já tinha muita vontade de trabalhar com ele, um artista fantástico, então o chamei e, a partir daí, fizemos também nossa primeira videodança: ‘A que passo você está de perder o controle’. Foi um trabalho simples, pequeno, mas que rodou bastante em festivais, recebeu menção honrosa, teve uma trajetória bonita”, afirma o diretor.
Pedro conta que queria muito trabalhar com o tema da morte, pois, para ele, a finitude é uma questão que atravessa seu trabalho. O diretor aborda que o título é uma metáfora, uma ironia ao excesso de máquinas que nos acompanham o tempo todo, desde as câmeras de vigilância aos drones e celulares, presentes no dia a dia.
“Sempre me interessou pensar como é possível encenar a morte dentro de uma videodança. Foi daí que surgiu o título: ‘Agora é tempo de adormecer as máquinas’. Essa ideia do adormecer aparece como metáfora de encerramento: aceitar que o fim chega, seja como morte, seja como passagem – para quem acredita que há algo além. O ‘adormecer as máquinas’ também fala desse nosso sistema produtivo, positivista, maquinário, que me interessa criticar”, diz.
O cineasta conta que o filme é planejado desde o ano de 2021 e que a possibilidade de tirá-lo do papel ocorreu este ano devido à Lei Paulo Gustavo. Ele revela que suas ideias geralmente nascem muito definidas em sua cabeça, um processo que, segundo ele, ocorre pela sua atuação em diferentes linguagens: a fotografia, a literatura, o cinema e as artes visuais.
Desafios no caminho
“Eu não sou coreógrafo, nem dançarino, então gosto de trabalhar em equipes multidisciplinares. Com o Rômulo, pensamos juntos a coreografia, as estruturas cênicas, a câmera. Tudo foi sendo construído em camadas. A execução, por sua vez, exigiu muito detalhamento. Gravamos entre os dias 3 e 6 de janeiro, e depois passamos por um processo intenso de pós-produção: seis meses de edição, finalização de cor, de som. É como lapidar uma pedra bruta até virar uma joia. Tínhamos cerca de 500 GB de material bruto e o desafio foi reduzir isso a 15 minutos de filme”, revela.
Segundo o diretor, o cinema exige dominar vários elementos ao mesmo tempo, como a luz, o som, a atuação e o movimento de câmera. “No set, com 30 pessoas, tudo é rápido, intenso, e as decisões estão nas mãos do diretor. Eu adoro esse ambiente, talvez seja onde me sinto mais à vontade. Mas é sempre desafiador, porque todo mundo depende de você”, reflete.
Pedro relata a necessidade de se ter flexibilidade nas gravações. Para ele, o set é um espaço de imprevistos, pois por gravarem na rua, ficam sujeitos à chuva, a interrupções e à falta de controle. Entretanto, enfatiza que esse cenário dá ritmo ao trabalho e que são em momentos como esse que ele precisa tomar decisões rápidas e encontrar soluções estéticas ou técnicas.
Apesar das adversidades, ele destaca a sorte e a confiança estabelecida por poder trabalhar com uma equipe que o acompanha há mais de dez anos. “É uma equipe que já se entende, sabe ‘onde o outro põe o pé’. Isso facilita muito. Claro que, a cada projeto, ela cresce ou diminui, mas sempre há uma base sólida. Nós trabalhamos de forma muito orquestrada. Eu gosto de pensar que meu papel é como o de um maestro, conduzindo para que tudo aconteça de maneira harmônica.”
Expectativas e desdobramentos
Pedro afirma que quanto à distribuição, a equipe segue o “caminho tradicional dos curtas no Brasil”. Por ser um curta-metragem, a obra não entra no circuito de cinema, mas ele afirma que irá rodar por cerca de um ano e meio em festivais. “Já fomos selecionados para a VIII Mostra Sesc de Cinema, e vamos inscrevê-lo em outros festivais. Depois disso, buscamos licenciamento em canais e, por fim, disponibilizamos on-line”.
Sobre a estreia, que contará com as presenças de Rômulo Vlad e do grupo de dança Remiwl, o diretor ressalta a necessidade de devolver para a comunidade o que foi construído, de gerar impacto social e mostrar o trabalho a quem também participou dele de alguma forma.
“Quanto às expectativas, eu encaro estreias de forma tranquila. O público é essencial – o filme só existe quando chega até ele. Minha expectativa é que as pessoas assistam, reflitam, gostem ou critiquem, mas que tenham uma reação. Esse é meu 13º filme. Já passei por muitos festivais, já vivi momentos de nervosismo, mas hoje vejo isso como parte do trabalho. Claro que há sempre o medo da crítica, mas ela também faz parte, porque provoca pensamento.”
Natural do Rio de Janeiro, Pedro nutre um grande carinho por Juiz de Fora. Morador da cidade há 25 anos, se formou no Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e afirma se sentir “mais mineiro do que carioca”. Ele afirma que não tem vontade de se mudar da cidade e que, apesar de muitos profissionais optarem por São Paulo ou Rio de Janeiro em busca de oportunidades, prefere construir algo aqui.
“Me sinto honrado em poder desenvolver um projeto desse nível aqui em Juiz de Fora. Vejo que, nos últimos anos, o cinema da cidade vem se organizando, com diretores produzindo projetos importantes. Cito a Bruna Schelb, por exemplo, que é minha contemporânea e com quem já produzi bastante coisa. Também acompanho o movimento de Cataguases, que tem uma tradição cinematográfica forte. Acho fundamental dar visibilidade ao cinema mineiro e fortalecer essa rede”, finaliza.
“Agora é tempo de adormecer as máquinas”, é dirigida por Pedro Carcereri, estrelando Rômulo Vlad. Além disso, fazem parte da equipe: Caroline Gerhein, Pedrin Fonseca, Alira, Luana Maria, Taua Klonowski, Stéphanie Fernandes, Maria F. D. do Carmo, Caio Dezidério, Luan de Azevedo, Nitay Krishna, Hércules Rakauskas, Nino de Barros, Francisco Silva, Jana Flor, Ruan Lustosa, André Viana Campos, Victor Rezende, DJ Ever Beatz, André, Medeiros, Jéssica Felippino e Ana Júlia Bellini.
*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
Serviço
É tempo de adormecer as máquinas
Data: 11 de setembro
Horário: 18h30 (estreia do filme) e 20h (festa no Maquinaria)
Local: Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (Av. Getúlio Vargas, 200 – Centro) e Maquinaria (R. São Mateus, 552 – São Mateus)
Entrada franca (sujeito a lotação)
