Reza a lenda que quem conta um conto aumenta um ponto. Inspirado nesse antigo e certeiro ditado popular, o grupo Emcantar, de Uberlândia, convida para uma rodada de histórias, que não se limita à arte da contação. Nessa aventura, intitulada "Escutatória", tem de tudo: literatura, teatro, dança e música. "Nossa ideia é botar a história na roda para ela ser ampliada, agregando várias linguagens. Dessa junção, criamos um espetáculo rico e cheio de informações, que aguçam os sentidos.
É um apelo à emoção e à audição", garante Maíra de Ávila, artista e coordenadora de comunicação da trupe, que se apresenta, pela primeira vez, no Cine-Theatro Central nesta quarta, às 20h, e quinta, às 15h, com entrada gratuita. Os ingressos serão distribuídos diretamente na bilheteria do teatro com uma hora de antecedência. Ontem, a companhia ministrou oficina direcionada aos professores da rede pública de ensino da cidade. "Compartilhamos nossa nossa vivência cultural."
Cirandeiro não nasceu no palco. O misterioso personagem, responsável pela condução do musical, pulou das páginas do conto "Vagalume Pensalume", de Marco Aurélio Querubim, diretor artístico do Emcantar, para o tablado. Lá, ele vai recolhendo os causos que ouve e guardando em sua janela, que ganha várias cores. As histórias acumuladas vão sendo acondicionadas como verdadeiras bugigangas, enfeites, brinquedos e instrumentos de garrafa pet. Nada que é falado passa inerte ao ilustre personagem. Ao lado dele, quem também comanda a brincadeira são Vagalume e Pensalume. Os dois espoletas não conseguem deixar de mexer nas quinquilharias alheias. Embalados por canções autorais, os 12 artistas, também conhecidos como "encantantes", transmitem o espectador às falas e costumes da tradição popular mineira.
Jogo com as palavras
"Escutatória", nome dado ao quarto álbum do grupo, lançado na turnê que passa pela cidade, significa brincar com as palavras "escuta" e "história", fazendo também uma referência ao ato de ouvir. Apresentado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, o espetáculo tem "Escultura de histórias" como subtítulo. Se as crianças se divertem com a magia das cores, das melodias e dos ritmos, os adultos são remetidos ao tempo de infância. "Escutatória é o que há de novo, sensível, original, prenhe de esperança que só a arte pode transmitir e que cada brasileiro precisa ver. Escutatória não se descreve, não se reconta, não se reproduz. É preciso presenciar, é preciso viver essa experiência visionária", recomenda o escritor Pedro Bandeira.
O que será visto é resultado de 16 anos de estrada. Segundo Maíra, o desempenho dos integrantes não foi adquirido numa cadeira de faculdade, mas através da intuição de cada membro. Fato está diretamente relacionado ao trabalho contínuo desenvolvido pela trupe em Uberlândia. Por lá, 400 crianças participam de projetos ligados a área de literatura, artes cênicas e música. No final, a garotada apresenta o que aprendeu por meio de produtos, como livros e espetáculos. Já existe um projeto de a meninada ser recrutada pelo Emcantar. "Descobrimos as potências de cada pessoa, investimos nela, e cada um foi se descobrindo como artista que queria cantar e tocar. As habilidades foram se desenvolvendo e, com isso, tornaram-se profissionais. Educadores multiplicam a experiência artística na comunidade. Tudo isso por meio de um processo de gestão de competências internas", conta Maíra, apontando que, por onde passa, o Emcantar procura.
O nome do grupo poderia ser Encantar, mas eles queriam, mais uma vez, brincar com os vocábulos. Por isso, a companhia chegou ao sugestivo Emcantar. "O ’em’ indica o processo de estar cantando e, ao mesmo tempo, ao trocadilho com o verbo cantar. Queríamos passar a ideia do encantamento. De você olhar o mundo e a vida de uma forma positiva", observa. Em quase duas décadas, a trupe mineira já chegou a um público de aproximadamente 100 mil pessoas, em mais de 600 encenações. Além de "Escutatória" (2012), lançou "Emcantar" (1999), "Mutirão" (2003) e "Parangolé" (2009).
No ano passado, no mês de junho, cenas do último álbum ganhou até especial na TV aberta, em exibição para 230 municípios da região de Minas Gerais. Também contabiliza sete livros, documentários relacionados à cultura popular, participação na criação de 20 desenhos animados e transmitidos na Rede Cultura. Uakti, Dércio Marques, Luiz Salgado, Augusto Jatobá e o grupo Trem das Gerais são apenas alguns dos nomes que contaram com a participação da companhia. ‘Espero ver o teatro lotado. É um incentivo para voltarmos."
ESCUTATÓRIA
Hoje, às 20h, e amanhã, às 15h
Cine-Theatro Central
(Praça João Pessoa)
