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Cultura efervescente

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A década de 1980 rompeu a poeirenta história brasileira, freando a repressão iniciada com o golpe militar. Em 1979, havia sido aprovada a Lei da Anistia que, apesar das restrições, beneficiou muita gente. Desbravando as rachaduras de liberdade, o povo procurava entender a nova realidade, enquanto artistas testavam limites. Apesar disso, o ano de 1981 foi marcado por um ato terrorista liderado por grupos de direita: a explosão de duas bombas nas proximidades do Riocentro, no Rio, durante um show em comemoração ao Dia do Trabalho. Esse clima baratinado permitia acontecimentos culturais diversos, entre eles, a consagração do Teatro do Oprimido de Augusto Boal, o destaque de grupos como o carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone e a proliferação de bandas de rock. O general João Baptista Figueiredo estava no poder e enfrentava o aumento da dívida externa e altos índices inflacionários.

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Em Juiz de Fora, nascia o jornal Tribuna de Minas, disposto a lançar olhar mais atento à cena artística local. Nas páginas já amareladas, a produção cultural de 1981 chegou ao futuro. As comparações são inevitáveis. Segundo o sociólogo e jornalista Ismair Zaghetto, o início dos anos 80 foi um momento transitivo e agitado por aqui. À frente da Funalfa, implantada em 1978, Zaghetto se dividia em um duplo compromisso. Não havia no Brasil uma fundação de cultura para nos dar subsídios. Começamos do zero. Além de me preocupar com o sucesso do projeto, não podia deixar de lado a gestão, lembra ele, comentando que muitas localidades passaram a seguir o exemplo juiz-forano. Hoje, de acordo com o sociólogo, o lançamento de mais de 40 livros por ano pela Lei Murilo Mendes – que teve sua primeira edição em 1995 – comprova que aquele foi um bom início. Colocamos para fora muitas coisas sufocadas e chegamos ao presente com muito trabalho para o porte da cidade.

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A volta para a rua

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O ator e diretor Gueminho Bernardes observa que, como a Funalfa dava seus primeiros passos, o fazer artístico ainda possuía tons heróicos. Não tínhamos muitos interlocutores, mas nem reclamávamos tanto, compara, fazendo alusão aos dias atuais. Segundo Bernardes, há 30 anos, os artistas experimentavam certa sensação de liberdade e reocupavam as ruas com vitalidade. No dia 5 de setembro, a Tribuna noticiou uma apresentação na Halfeld (ainda não apelidada de Calçadão) do grupo carioca Tá na Rua, comandado por Amir Haddad. O evento fazia parte da 2ª Mostra de Teatro do Centro de Ação Cultural (CAC), que também trouxe Denise Stoklos e Giramundo. Naquele período, as pessoas participavam por questões ideológicas. Hoje, não teríamos condições de fazer algo desse porte por conta dos cachês, analisa Bernardes, acrescentando que o desejo de expressão foi contaminado pelo mercado.

Quem também dava seu grito no espaço público era o pessoal do folheto ‘Abre alas’. Ao lado de nomes como Fernando Fiorese e José Santos, o escritor Iacyr Anderson Freitas, na época com 17 anos, estendia um varal de poesias em frente ao Central e distribuía os impressos editados no DCE. Aquele era um ponto de encontro, uma mistura de poesia urbana e prática política. Nós líamos os textos acompanhados de dança, teatro e música. Para Iacyr, apesar da abertura política, ainda havia a ressaca do AI-5 (instituído em 1968) e muito receio entre os artistas. As coisas em Brasília estavam mudando, mas os nomes locais de repressão continuavam. Não à toa, segundo Ismair Zaghetto, os anos 1980 são celebrados como um tempo em que tudo aconteceu. O país estava confuso. Na área literária, a Funalfa organizava a coletânea Cem poetas inéditos.

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Teatro todo dia

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A liberdade podia ser vista em fatos como o início dos ensaios da peça O rei da vela, pelo Grupo Divulgação, registrado na Tribuna. A trupe comandada por José Luiz Ribeiro completava 15 anos e levava aos palcos A mandrágora, de Nicolau Maquiavel, O embarque de Noé, de Maria Clara Machado, e Dona Baratinha, de Ribeiro. De acordo com ele, o público lotava as sessões, que aconteciam todos os dias da semana. Conforme ressalta a reportagem do jornal, mais de três mil pessoas viram A mandrágora, também conferida pelo roteirista Doc Comparato. Era um período efervescente, resume o diretor. Curiosamente, em uma das primeiras matérias do jornalista Walter Sebastião, o artista plástico Arlindo Daibert afirmou o contrário. A cidade hoje perdeu a efervescência dos últimos dez anos, constatou Daibert.

Segundo o pró-reitor de Cultura da UFJF José Alberto Pinho Neves, realmente o ano de 1981 foi de entressafra para as artes plásticas. Quem já havia aparecido, como Carlos Bracher e Dnar Rocha, estava fazendo carreira. Outros aventureiros surgiram, mas não decolaram, comenta Pinho Neves, contrapondo a profusão das décadas de 1960 e 1970, que conheceram a Galeria Celina Bracher. Outras espaços, como completa o pró-reitor, permaneciam resistindo, entre eles, as galerias Capela e a Renato de Almeida, do Pró-Música. Essa última promovia cerca de três mostras por mês.

Sonho interrompido

Na visão da diretora do Centro Cultural Pró-Música Maria Isabel de Sousa Santos, há 30 anos a cidade ainda plantava suas sementes. A instituição completava um década e começava a colher alguns frutos, como a formação de público. O auditório do espaço havia sido criado em 1974 e acolhia apresentações de sua orquestra e de seu coral. Nesse tempo, o Central ainda era cinema, mas tinha a plateia quase sempre vazia. A reforma, orçada em aproximadamente R$ 2 milhões, só viria em janeiro de 1996.

Outro teatro começava a ser construído, o Paschoal Carlos Magno, sob coordenação da Funalfa. Entretanto, um problema geológico deslocou os recursos financeiros para obras de contenção e pagamento de indenizações, já que as estruturas de muitas casas da Halfeld e da Tiradentes foram abaladas pelas escavações. Finalizamos o que foi possível. Lamento que o projeto não tenham sido finalizado até hoje, diz Ismair Zaghetto.

Fim da utopia coletiva

Segundo as páginas do jornal, uma das casas mais frequentadas da época era o Vitrô Musical Bar, que resistia à música mecânica e valorizava artistas locais. Ainda nesse campo, o terreno também se mostrava fértil para os tamborins. Zaghetto conta que a Funalfa produziu uma coletânea de sambas-enredos antológicos criados por aqui. O carnaval sempre foi uma manifestação forte na cidade.

Para Iacyr Anderson Freitas, atuante ontem e hoje, a principal diferença entre as duas realidades é a posição ocupada pela utopia. Na década de 1980, as pessoas queriam participar do processo de descompressão e trabalhavam juntas para encontrar caminhos. Atualmente, só há credos individuais. Não vejo mais as metas coletivas na ruas, encerra.

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