
O fotofilme “Os sonhos já encontraram outro tempo”, criado pelo diretor e fundador da produtora juiz-forana Old Man Arts, Pedro Carcereri, foi selecionado para um dos festivais de fotografia mais prestigiados do mundo: o Festival de Arles, que acontece na França. Realizado desde 1970, o evento é considerado o mais antigo e importante do gênero, reunindo artistas de diversos países para celebrar a imagem como potência criativa. A edição deste ano teve início na última segunda-feira (7). A exibição da obra acontece neste sábado (12).
Produzido em 2020, o fotofilme já passou por importantes mostras no Brasil, como o Festival Janelas Abertas, em 2020, o XII Festival Hercule Florence e o Festival Audiovisual de Cultura de Minas Gerais (FAC) em 2021, o 11º Festival de Fotografia de Tiradentes em 2022 e o Beyra- Festival do Fotolivro de Juiz de Fora em 2023. Agora, ganha, pela primeira vez, uma exibição internacional. A projeção faz parte da curadoria assinada pela professora e pesquisadora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, Claudia Tavares. A seleção reafirma o alcance poético da obra e marca um novo capítulo da trajetória da produtora.
Em 2021, durante o Festival Hercule Florence, em Campinas, Pedro conheceu Claudia, que se encantou pelo fotofilme. Na ocasião, ela afirmou que a obra dialogava diretamente com sua linha de pesquisa e, desde então, passou a utilizá-la como material didático em aulas sobre fotografia e vídeo. “Ver meu trabalho sendo usado como referência em sala de aula é muito significativo. É um dos motivos que me faz continuar criando”, compartilha Pedro. A aproximação resultou em outros convites, como participações em curadorias assinadas por Claudia na mostra de Tiradentes e, agora, na exibição no Festival de Arles.
Sobre a obra
“Entendi que as memórias são desejos que tecem as saudades.” É com essa ideia que Pedro constrói “Os sonhos já encontraram outro tempo”. O fotofilme de pouco mais de um minuto transforma imagens analógicas de sua família em um produto artístico. São fotos feitas por parentes em um tempo em que o gesto de fotografar tinha menos a ver com composição e mais com o desejo de guardar momentos.
As falhas de luz, os enquadramentos tortos e os gestos espontâneos são preservados e é justamente isso que interessa ao diretor. Acompanhadas por uma narração em forma de carta, essas imagens do cotidiano ganham novas camadas de sentido ao se encontrarem com o som, o texto e a memória.
Com mais de 15 anos de pesquisa entre fotografia e audiovisual, Pedro se dedica a investigar o ponto de encontro entre diferentes linguagens. Para ele, transformar essas fotos é, também, reposicioná-las: dar à elas um espaço novo, que não é apenas o da lembrança, mas o da criação. “Essas imagens não foram feitas com intenção artística, mas quando entram em diálogo com o som e o vídeo, passam a contar outras histórias”, diz.
Ao revisitar a trajetória das mulheres de sua família, mães, avós, tias, por exemplo, o diretor costura fragmentos afetivos e íntimos em uma obra breve, mas profunda. O tempo, nesse trabalho, não é linha reta, é tecido de saudades e sonhos que continuam a reverberar.
Pedro destaca que seu processo criativo, além da pesquisa, nasce também do contato constante com obras que alimentam o olhar. Para ele, consumir materiais de qualidade é essencial para manter a criação em movimento. Entre as referências que cita estão a fotógrafa brasileira Bárbara Wagner e o cineasta russo Andrei Tarkovsky. “É esse tipo de obra que me inspira. Não necessariamente no mesmo estilo que crio, mas ter boas referências é essencial… elas ampliam meu repertório, desafiam meu olhar e me ajudam a pensar novas formas de contar histórias”, finaliza.
O fotofilme “Os sonhos já encontraram outro tempo” está disponível no canal do Vimeo da Old Man Artes.
*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
