
Obra de Hilal Sami Hilal no centro cultural da UFSJ
Julho não é só sinônimo de temperaturas baixas. Há décadas, a chegada da estação mais fria do ano favorece a realização dos tradicionais festivais de inverno das regiões mineiras e fluminenses: São João del Rei (14 a 28), Ouro Preto e Mariana (8 a 22), Piacatuba(25 a 29), Ibitipoca (27 e 28), Petrópolis (6 a 15) e Vale do Café (17 a 29). É hora de curtir as atrações que vão da cultura popular à erudita.
Artes visuais nas Vertentes
Pela primeira vez, o Inverno Cultural da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ) vai sediar a I Mostra de Arte e Cultura. Encabeçando a mesa de debates, estão o curador-pesquisador do Metropolitan Museum de Nova York, Neville Rowley, e o crítico de arte Jorge Coli. Com o tema "O olhar", os especialistas farão um bate-papo sobre todas as manifestações artísticas.
A exposição do capixaba Hilal Sami Hilal é um dos grandes destaques da 25ª edição do festival são-joanense no campo das artes visuais. Conhecido pelo cruzamento de influências entre o Oriente e o Ocidente, o artista assina a mostra "Sherazade". Formada por uma única instalação de caráter contemplativo, ela é definida como uma rede de livros interligados, ocupando os 150 metros quadrados do Centro Cultural da UFSJ. De acordo com o curador da exposição, Ricardo Coelho, a obra transmite a materialização poética de um livro sem fim, uma metáfora da própria vida. "Lembro-me do encantamento que senti ao ver esse trabalho pessoalmente em 2007. É esse encantamento capaz de transformar nossas vidas e que se dá, muitas vezes numa fração de segundos, que eu gostaria que os visitantes vivenciassem, em especial, as crianças."
Em consonância com o festival, que tem como tema "Kairós, um tempo possível", Hilal busca construir uma metáfora da delicada representação da vida e sua relação com o tempo. "É um trabalho que resume de maneira muito especial o sentido expresso pela divindade grega Kairós, como aquele instante significativo que pode modificar nossa vida para sempre." Hilal também vai ministrar duas palestras.
Em meio às arquiteturas barroca, neoclássica e contemporânea da cidade dos sinos, vão ocorrer oficinas, seminários, apresentações teatrais e de dança, workshops e minicursos. Mantendo a tradição, a programação das artes cênicas conta com grandes nomes do cenário nacional. Serão 14 apresentações teatrais que vão se dividir entre o palco do Teatro Municipal, largos de igrejas e praças. "Eclipse", do Grupo Galpão, está entre as encenações mais esperadas. A peça conta a história de cinco pessoas que discutem sobre a existência humana enquanto aguardam o final de um eclipse solar. À medida que a espera se torna longa, a convivência forçada desencadeia uma série de situações absurdas. Outra montagem de destaque é "Amores surdos", do Grupo Espanca!, também de Belo Horizonte. O espetáculo aborda a capacidade do homem de permanecer dormindo, mesmo quando acordado. Os personagens não se ouvem, não se enxergam e não se percebem em rituais do cotidiano que conduzem à alienação e à incomunicabilidade. Tudo ocorre como o esperado, até que são obrigados a reconhecer e conviver com as consequências dos seus atos.
As opções musicais, que chegam a quase 30 shows, começam no samba e terminam no instrumental. Leci Brandão abre o festival, prometendo levantar o público com canções que marcaram sua carreira e outras do seu mais recente CD, "Eu e o samba". Outro representante do mesmo estilo, Jorge Aragão, também chega à cidade histórica com seu inseparável cavaquinho. No repertório, músicas consagradas e composições do seu disco atual, "Coisa de Jorge". Em turnê com "Música de brinquedo", o Pato Fu conta com a participação da companhia teatral Giramundo, para entoar sucessos como "Eu", "Simplicidade", "Perdendo dentes" e "Made in Japan". O grupo Uakti faz uma ponte entre o erudito e o popular de maneira original. Programação completa em www.invernocultural.com.br
Cultura latino-americana em Ouro Preto
Até 22 de julho, Ouro Preto e Mariana também são cenários de muita diversão, mas sem se furtar ao aprendizado. Apresentações teatrais e musicais, exposições, debates, oficinas e outras atrações ocupam ruas, ladeiras, praças e prédios históricos. A programação abrange representantes das culturas nacional e internacional: Velha Guarda da Portela, Farofa Carioca, Leone, Jorge Aragão, Grupo Casa de Teatro (Cuba/República Dominicana), Teatro Varasanta (Colômbia), Marcel Powell e Ithamara Koorax, considerada por muitos como uma das maiores cantoras de jazz do mundo. Ao todo, são 46 opções de artes cênicas e 49 de música, 13 dias de sessões de filmes, oito exposições na área de artes plásticas e mais sete propostas para o público infanto-juvenil.
Com o tema "Latino-américa – Libertas, libertad, liberdade?", o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana também tem como meta discutir os caminhos percorridos nos últimos cinco séculos pelo povo latino-americano, sobretudo no campo das artes. Simultaneamente, é realizado o I Encontro Latino-americano de Teatro e Dança de Ouro Preto. Para aqueles que apreciam uma boa comida, nada como prestigiar o Circuito Culinária e Arte. Já os que preferem sair da agitação do centro histórico para curtir as paisagens naturais da região, o Circuito Trilheiros é uma boa pedida. Programação completa em www.festivaldeinverno.ufop.br.
Piacatuba prestigia moda de viola
A moda de viola é o ritmo que vai embalar Piacatuba, distrito de Leopoldina, entre os dias 25 e 29 de julho. Em sua 10º edição, o Festiviola tem como destaque o show de Almir Sater. Com mais de 30 anos na estrada, ele se destaca no cenário musical por ter resgatado a viola de dez cordas e por ter dado um toque sofisticado ao ritmo caipira, misturando blues e rock. Além dele, seu amigo de jornada, Renato Teixeira, é uma das principais atrações. O cantor, compositor e instrumentista – responsável por discografia que inclui gravações com nomes importantes como Pena Branca e Xavantinho e Sérgio Reis – leva para o palco canções de seu último CD, "Amizade sincera", e músicas consagradas como "Romaria" e "Tocando em frente". Dos quatro dias de festival, dois serão dedicados à mostra competitiva, disputada nas etapas regional e nacional, com objetivo de descobrir novos talentos. O regulamento e a ficha de inscrição estão em www.festiviola.com.br. Simultaneamente, serão realizadas oficinas na área de música, fotografia e gastronomia mineira. Para despertar a gula, "Frango de cabo a rabo", "Lombo no pequi" e "Camarão grelhado ao vinagre de abacaxi" são alguns dos pratos que podem ser degustados ao longo do festival.
Jazz em Ibitipoca
Destino certo dos mochileiros, a serra de Ibitipoca vai ser invadida pelo ritmo sincopado do jazz, nos dias 27 e 28 deste mês. A abertura do 13º Ibitipoca Jazz Festival fica por conta de Fabiano de Castro Grupo e Hérmanes Abreu Grupo, com participação especial do Dudu Lima Trio. No dia seguinte, Dudu Lima Trio volta com participação de Áurea Regina. Para fechar a noite, Marvio Ciribelli Grupo, que recebe Sérgio Chiavazzoli, toca samba, bossa, baião e choro com a liberdade de jazzista. Programação completa em www.ibitipocajazzfest.com.br
Tributo ao rei do Baião no Vale do Café
A região das fazendas cafeeiras, no sul fluminense, vai ser confundido com o sertão nordestino entre os dias 17 e 29 de julho. Em sua 10ª edição, o Festival Vale do Café recebe Elba Ramalho para fazer um tributo ao rei do baião Luiz Gonzaga. Em quatro dias consecutivos, a artista vai se dividir entre o show na praça de Vassouras e participações como solista nos concertos da Orquestra Sinfônica de Barra Mansa."Gonzagão é o nordestino do século, o grande responsável pela difusão dos nossos ritmos ao Brasil e ao mundo. Ele tinha uma capacidade inesgotável de captar o coletivo da nossa terra, do nosso cotidiano, e transformar em canções. Ele apresentou ao Brasil um Nordeste que o país não conhecia", diz a cantora, em entrevista à Tribuna.
Clássicos como "Asa branca", "Vida de viajante", "Xote das meninas", "Pagode russo", "Onde tu tá neném", "Danado de bom", "Luar do sertão" e "Sabiá" fazem parte do repertório. Na década de 80, a artista fez participações antológicas em discos do rei do baião, como "Farinhada", "Sanfoninha", "Choradeira" e "Qui nem jiló".
Nos fins de semana, a programação se estende para as fazendas, e Cesar Camargo Mariano tem presença confirmada. Em sua apresentação "In concert", é possível ouvi-lo em um raro encontro intimista. No roteiro, estão músicas como "Incompatibilidade de gênios" (João Bosco e Aldir Blanc), "I can’t help it" (Stevie Wonder e S. Greene), "Tenebroso" (Ernesto Nazareth), "O tempo e o vento" (Johny Alf), "Wave" (Tom Jobim) e "Cristal" (Cesar Camargo Mariano). Para aquecer o público, o artista tem por hábito o improviso e, em seguida, lança mão de "Carinhoso", do Pixinguinha. "Para mim, se tornou muito importante tocar neste formato. É o momento em que posso fazer minhas reflexões sobre as músicas que gosto de ouvir e tocar", conta o pianista.
Os espetáculos percorrerão igrejas, casarões, praças e fazendas de 15 municípios, como Vassouras, Valença, Rio das Flores, Paty do Alferes, Miguel Pereira, Barra do Piraí, Volta Redonda, Barra Mansa, Três Rios e Rezende. Antes de cada apresentação, a sommelière Deise Novakoski fará uma palestra sobre café – história, os tipos, formas de produção e degustação. A programação conta também com 18 cursos gratuitos na área de música. As aulas serão ministradas entre os dias 23 e 27 de julho, por professores da Orquestra Sinfônica Brasileira e da Orquestra Sinfônica de Barra Mansa, sob a direção do violinista Turíbio Santos, reconhecido internacionalmente. As inscrições serão feitas até a próxima sexta, dia 13. Programação e formulário de inscrição disponíveis em www.festivalvaledocafe.com
Homenagem a Astor Piazzolla em Petrópolis
Na região serrana do Rio de Janeiro, o jazz é a grande estrela da 12ª edição do Festival de Inverno de Petrópolis, que mantém firme o costume de acolher expoentes das culturas brasileira e estrangeira. Com o título "Piazzolla plays Piazzolla", o show de jazz do sexteto argentino Escalandrum, liderado pelo baterista Daniel Piazzolla, neto de Astor Piazzolla, é uma comemoração ao mestre do "nuevo tango" (apelido que o avô recebeu de alguns críticos por introduzir inovações no ritmo, no timbre e na harmonia do estilo musical).
Com mais de dez anos de trabalho, o grupo também formado por Nicolás Guerschberg (piano), Gustavo Musso (sax alto e tenor), Martín Pantyrer (sax tenor, baixo e clarinete), Damián Fogiel (sax tenor) e Mariano Pablo Sívori (contrabaixo), apresenta-se pela primeira vez no estado fluminense, e não vão faltar releituras de preciosidades como "Adiós Nonino", "Libertango" e "Verano porteño". "O repertório foi escolhido minuciosamente, para que a música soe à altura das circunstâncias e que o Escalandrum não perca sua marca característica. A idéia é tocar alguns clássicos, assim como temas que não são muito conhecidos e de igual beleza. É um tributo a meu avô, que é uma fonte de inspiração permanente para todos os músicos do mundo", diz o líder do sexteto.
Palco de acontecimentos marcantes da história brasileira, como a cerimônia realizada em 1888, em que a Princesa Isabel concedeu a libertação aos últimos 103 escravos em Petrópolis, o Palácio de Cristal vai sediar nesta quarta, em única apresentação, a atração mais esperada do festival da cidade imperial. Fazendo uma homenagem às divas do jazz e blues, a cantora Taryn dá um toque pessoal a hits de estrelas e compositores como Billie Holiday, Muddy Waters, Ray Charles, entre outros. O CD "Negro blue", que dá nome ao espetáculo, é o terceiro da carreira da cantora e foi lançado no Rock in Rio 4 em 2011.
O grupo Quadro Antiquo vai levar para o Palácio Rio Negro a música barroca. Fechando com chave de ouro a extensa programação cultural, a Orquestra Sinfônica Mariuccia Iacovino, de Campos (RJ), faz concerto no Palácio de Cristal neste domingo. Formado por 92 jovens músicos, o grupo fez, em 2011, sua primeira turnê pelos Estados Unidos, incluindo o Carnegie Hall, em Nova York, um dos mais célebres teatros do mundo.
Até domingo, o festival de Petrópolis oferece outras atrações a turistas de toda parte. Sempre às 18h, na Sala da Batalha, no Museu Imperial, são realizados concertos à luz de velas, com presenças de artistas nacionais e internacionais, como o violinista e professor de violino do Konservatorium Wien Privatuniversität na Áustria, Nicolas Koeckert, a pianista russa Kristina Miller e o Wotan Trio, liderado pelo pianista John Blanch. Já a música popular tem como cenário as escadarias do Theatro D.Pedro. Entre as apresentações, está a da Orquestra Voadora, com sambas e marchinhas carnavalescas.
Até 15 de agosto, é possível aproveitar o clima frio para se entregar a delícias como creme de batata-baroa, fondue de salsicha aos pedaços cozidos no chope, acompanhado de queijo cheddar derretido ou fondue de chocolate branco com toque de cassis. São 18 restaurantes participantes do III Festival de Fondues, Racletes e Cremes. Programação completa em www.fipet.com.br

