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Experiência como arte

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A poesia está a um passo de acontecer. Ela é urgente. Mas para que, de fato, as obras que integram o recorte da 30ª Bienal de Arte reverberem em versos é, mais urgente ainda o olhar benevolente do espectador. A exposição exige mais que contemplação. "A iminência das poéticas" é, além de tema, a expectativa da grande exposição que movimentou os últimos meses de 2012 no imenso pavilhão localizado no Parque Ibirapuera, na capital paulista, e que desembarca hoje, às 20h, no Museu de Arte Murilo Mendes, trazendo uma reduzida seleção de obras. Os oito artistas estrangeiros e os dois brasileiros despertam para a urgência e a relevância da arte contemporânea no contexto cultural atual, apontando outras leituras do mundo e, principalmente, ressignificando o já feito. Partindo de complexos discursos e lançando mão de elevadas doses de subjetividade, os trabalhos também confirmam algumas teorias que indicam ser o contemporâneo voltado para espectadores exigentes, dispostos a não encerrar assimilações de forma tão rápida.

"A iminência é nosso destino, e nossas armas são as poéticas. Porque elas são a soma de recursos que nos permitem ser donos da expressão: ir além de nós, ser dois e ser, então, todos; ou ser somente nós mesmos, no silêncio, a sós, quando assim o desejamos", reflete o curador da 30ª edição da bienal, Luiz Pérez-Oramas, em material preparado para a mostra. Segundo ele, a imagem não prescinde das palavras, visto que é algo muito mais natural, fruto das experiências de cada um, o que, de alguma forma, justifica a seleção das obras, corroborando a ideia de que o espectador é extremamente relevante para a obra à medida que contribui com sua própria interpretação.

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Bastam alguns passos, e a primeira obra da mostra, do mexicano Fernando Ortega, quebra, de forma intencional, quaisquer expectativas. Uma formiga caminha por um alfinete que une duas folhas de um ramo. Entre a realidade e as possibilidades de criação de uma nova estrutura, Ortega derruba convenções nas sutilezas de detalhes quase invisíveis. Já nos trabalhos que se seguem, do venezuelano Alfredo Cortina, a personagem presente na série de mais de uma dezena de fotografias está visível, mas nem por isso destacada da cena. A esposa de Cortina foi, ao longo dos anos, alvo dos flashes do marido em inúmeras viagens. Do bucolismo à solidão, a mulher não está no cenário, ela integra cada espaço.

No mesmo espaço entre o que é real e o que é fantasia, o inglês Saul Fletcher parte de composições que conjugam pinturas, desenhos e colagens, utilizando a fotografia apenas como suporte, para a criação de ambientes angustiantes e arruinados. À maneira de Artur Barrio, que desfrutou de um grande espaço na 29ª Bienal, Fletcher recusa o belo, sugerindo outras perspectivas, que não o clássico da arte. Brasileira, Sofia Borges também anseia subverter o clássico, mas na área da imagem fotográfica. Ao mesmo tempo em que a única imagem exposta – o que dificulta a apreensão do amplo discurso da artista – poderia representar um cigarro aceso e quebrado, ou dois braços, ou um tronco, ela pode não significar nada e ser apenas um recorte de uma pintura impressionista.

Apesar de a imagem despertar curiosidades, definindo um lugar ficcional onde Barthes considera existir apenas a verdade, é a impressão em grande formato que chama atenção. Impressa em papel de algodão, em concordância com os grandes museus do mundo, a fotografia possui textura aveludada, ainda mais próxima à arte clássica.

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Espaços subjetivos

No centro da exposição, a obra de Sofia divide espaço com os trabalhos, igualmente complexos, dos artistas Andreas Eriksson e Hreinn Fridfinnsson. O primeiro, um sueco, dispõe lado a lado dois galhos constituídos de pequenas partes, representando o efêmero da vida e da natureza, numa preocupação e numa esquematização bastante próxima das questões modernistas. Cheia de dramaticidade, a iluminação, que projeta dois momentos dos galhos, amplia o trabalho, da mesma forma que a montagem das imagens de Fridfinnsson reforça a sugestão do artista.

Nas cenas de um personagem abrindo a cortina de uma janela, o islandês, radicado em Amsterdã, na Holanda, reúne as principais questões de sua carreira: o limite entre o interno e o externo, o pessoal e o público, o velado e o aparente. Impactante, a porta com dois grandes buracos – seria um arrombamento? -, pintados justamente na parte que poderia ser descartada, atualiza e desenvolve o "ready made". Já o vídeo do artista com livros ao vento numa paisagem campestre, revela o percurso de pesquisa de Fridfinnsson, apresentado desde o voyeur até o espaço livre, passando pela linha tênue de uma porta quebrada.

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Indiscutivelmente um dos destaques da seleção da Bienal, as obras de Frédéric Bruly Bouabré, da Costa do Marfim, discutem questões existenciais do artista e revisam o folclore e os costumes africanos. O painel que ocupa toda a parede apresenta pequenos desenhos, simples em suas formas e executados com materiais nada sofisticados, acompanhados de frases. Em uma das obras, paira no alto o que seria um título: sublime pintura. No centro, escrito em francês, figura a frase: "não sei porque estou tão cansado". O equilíbrio entre fina ironia e sensibilidade, produzido em linhas toscas e gestos simples, destoa das obras dos outros nove artistas justamente pela ausência de pretensões e pelo forte tom emocional.

Outro destaque, o trabalho de Alair Gomes, um dos maiores nomes da fotografia brasileira, não se apresenta em grandes dimensões, mas, no pequeno formato, salta aos olhos o movimento dos corpos retratados pelo artista, reconhecido pela sensualidade presente em seus homens dionisíacos. Em P&B, as imagens são tomadas como composições musicais, mantendo-se, de forma inegável, numa linguagem contemporânea que desfaz a leitura temporal do termo.

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Tanto o trabalho Han Eijkelboom quanto o de Ambroise Ngaimoko, um de frente para a outro, demonstram a importância da experiência para a arte. Delimitando o tempo, registrando a data e com uma câmera presa ao abdômen, o holandês Eijkelboom fotografou em diversas cidades do mundo as coincidências de vestuários, desde a estampa do Mickey até o pop Che Guevara. Nos retratos, o artista confronta as noções de identidade, sem estabelecer eloquentes recursos técnicos, o que aproxima o espectador, criando imediatas identificações. Já Ngaimoko, natural de Angola, reúne sua série de imagens capturadas no Studio 3Z, durante a década de 1970. Em poses e vestidos em suas melhores roupas, os personagens são apresentados entre a naturalidade e o comedimento.

A exposição itinerante, que já passou por Belo Horizonte, e ainda deve percorrer as cidades de São José dos Campos, Ribeirão Preto, Bauru, Campinas, Araraquara e São José do Rio Preto, inaugura o projeto educativo de aproximação do museu com as escolas da cidade. De acordo com o pró-reitor de Cultura Gerson Guedes, cerca de 300 escolas já foram contatadas, e a expectativa é que aproximadamente três mil pessoas, entre crianças e jovens, visitem a mostra com incentivo do projeto. "A Bienal abre esse momento de reflexão. Nosso objetivo principal é incentivar um olhar questionador", afirma Gerson. Para Nícea Nogueira, diretora do Mamm, os trabalhos expostos produzem alta identificação com o espectador. "A fotografia, predominante nesse recorte, democratiza ainda mais o acesso à bienal. Há inúmeras leituras de mundo que essa exposição fornece", aponta.

Retomando o poeta que dá nome ao museu, Guedes enfatiza: "Quem não encontrar poesia no infinitamente pequeno, jamais a encontrará no infinitamente grande". Além da 30ª Bienal de São Paulo, o espaço também inaugura hoje as mostras "Murilo Mendes: O passeante moderno dos museus", com reproduções de obras conhecidas pelo poeta, e "Homenagem a Kounellis", de Cesar Brandão, o único artista juiz-forano vivo a integrar uma bienal.

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