
Ator e diretor morreu aos 57 anos, vítima de infarto
O ator, professor e diretor teatral Robson Terra morreu ontem, aos 57 anos, no Hospital Monte Sinai, em Juiz de Fora, por volta de meio-dia. Segundo informações da assessoria da unidade, Terra deu entrada na emergência às 10h50. Por cerca de uma hora, a equipe médica tentou reanimá-lo, mas não obteve sucesso. O óbito indicou infarto agudo do miocárdio, e o corpo foi levado para Chácara, sua cidade natal, no final da tarde, para ser velado na Capela Mortuária. O sepultamento está marcado para hoje, às 10h, no cemitério da cidade.
De acordo com o sobrinho do artista, Marco Antônio Terra, na noite da última segunda, Robson Terra, que morava sozinho em Juiz de Fora, ligou para a irmã reclamando de dores nas costas. No início da manhã de ontem, portanto, ele continuou com a queixa. Mais tarde, já debilitado, ligou novamente para a irmã pedindo ajuda, que, em seguida, o levou para o hospital.
"Robson era um homem honesto e de caráter, que se tornou um grande incentivador do meu trabalho" – Gustavo Mendes (ator)
Em nota, a Funalfa lamentou a perda do ator. "Sua passagem por esta casa é lembrada com carinho pelos colegas. Juiz de Fora perde um cidadão de grande dedicação à arte de ensinar e fazer rir." A Universidade Salgado de Oliveira (Universo), onde ele ministrava aulas para diversos cursos, divulgou nota ressaltando o trabalho de Robson Terra como "professor que não se limitava à sala de aula".
Primeiro a manifestar sua tristeza no grupo "Teatro JF" do Facebook , o humorista Gustavo Mendes destacou o talento do diretor. "Conheci o Robson quando eu era criança, assistindo aos espetáculos dele no Cine-Theatro Central", postou.
O artista e suas maquiagens
Na trajetória profissional de Robson Terra, o jornalismo sempre perdeu espaço para as artes cênicas. Bancário do Banco do Brasil, ele retomou o contato com o curso de comunicação há alguns anos, quando passou a integrar o corpo docente da Universo. Mas, como atestam os amigos de palco José Luiz Ribeiro e José Eduardo Arcuri, Terra nunca pensou em se afastar dos aplausos.
"Robson terra esteve lado a lado com amplos setores artísticos na defesa do patrimônio, na reivindicação por novos espaços e na busca de melhores condições de trabalho na área da cultura" – Jorge Sanglard (jornalista)
O primeiro espetáculo ao lado de Ribeiro e o Grupo Divulgação aconteceu em 1971, um ano antes de a companhia, que serviu de escola para Terra, inaugurar o Forum da Cultura. "A peça foi ‘Cancioneiro de Lampião’ (em cima de um cordel de Nertan Macedo), apresentada na Casa d’Italia", lembra José Luiz Ribeiro. Em 1972, Robson Terra interpretou dois papéis em "A morta", de Oswald de Andrade, na estreia da nova sede do grupo. Por muitos anos saindo e retornando ao Divulgação, Terra atuou em mais de dez montagens com a trupe, considerada por ele um "local de resistência e protesto".
De "Calígula", de Albert Camus, a "Beijo no asfalto", de Nelson Rodrigues, até sua despedida do Divulgação em 1982, em "Como se faz um deputado", de França Jr., Robson Terra chamou a atenção da crítica, principalmente, "por ser reconhecido como um ator performático, especialista em pequenos papéis e amante da maquiagem", conforme Ribeiro. Por causa desta última faceta, ele foi convidado a dar aulas de caracterização espetacular no curso de especialização em comunicação e arte do ator, compartilhando truques para compor figuras cênicas.
"Ele era uma Madonna que se reinventava num caminho ético e de criatividade imensa" – José Luiz Ribeiro (dramaturgo)
"Conheci o Robson ainda menino, e antes de ele prestar vestibular esteve com a gente, me considerava quase como um pai", ressalta José Luiz Ribeiro. "Ele foi brilhante em ‘Beijo no asfalto’ no papel do jornalista Amado Ribeiro. Tinha uma cena, inclusive, em que eu o espancava, e a levamos do início ao fim, durante quase dois meses em cartaz", detalha o dramaturgo, que assina o prefácio de um livro quase pronto para ser lançado, sobre simbologias religiosas veiculadas na Rede Globo, um desdobramento da tese de mestrado defendida por Terra na Faculdade Presidente Antônio Carlos (Unipac).
Em entrevista à Tribuna, em novembro do ano passado, quando ele e o amigo José Eduardo Arcuri comemoraram 40 anos de carreira, Robson destacou o trabalho que vinha fazendo nos últimos anos, focado em escolas públicas. Houve época em que chegou a encenar, sem patrocínio, cerca de 150 produções ao ano.
"Perdemos um grande artista. Um ser provocador no melhor sentido do termo" – Marcos Marinho (ator e diretor)
Além de personagens ligados a datas comemorativas, como Natal, Páscoa e Dia das Crianças, outra caracterização marcante de Robson Terra, como consta nos anais da folia local, são as fantasias de carnaval improvisadas. "Ele saía na Banda Daki com seu amor por Chácara, de onde sempre trazia uma quantidade de coisas, tipo cipó, como fez em 1974 ou 1975, quando se vestiu de Eva Tropicalista. Foi um sucesso!", exemplifica José Carlos (Zé Kodak) Passos, saudando o amigo e folião com a lembrança da alegria com que Robson Terra, mesmo depois de as cortinas serem fechadas, interpretava a vida.

