Sarandira fica a cerca de 25km do Centro de Juiz de Fora. Por esse motivo, muitas vezes o distrito acaba ficando de fora das programações culturais da cidade – mas isso não significa que não tenha cultura ou que não queira ter acesso a ela. A Mostra de Sarandira vem para deixar isso bem claro. O evento é organizado pelo coletivo Papo Cultura, com apoio da Associação Carabina Cultural, e vai acontecer neste sábado (12), a partir de 10h, com uma programação totalmente feita por moradores locais. A ideia é incentivar o debate de temas importantes para a sociedade, propor reflexões e ainda incentivar a produção feita no local. Os eventos vão acontecer no Salão Comunitário de Sarandira e a entrada é livre.
A programação começa às 10h, com a exposição de produtos artesanais de Sarandira e a realização da pintura de mural artístico feito por Dorin Grafitti. Já às 10h30 ocorrerá uma gincana ecocultural feita para todos, mas especialmente para crianças. Na parte da tarde, às 15h, foram organizados bate-papos descontraídas sobre Movimento Negro, LGBTQIA+ e violência nas redes sociais, com a presença de moradores do distrito para debaterem suas experiências. Às 17h ocorre a apresentação Sarandira Musical e, logo em seguida, às 17h30, a apresentação do músico Thiago Croce. Para encerrar a programação, às 18h, a mostra também conta com a exibição de curtas-metragens sobre as temáticas apresentadas.
É a primeira vez que Sarandira tem uma mostra cultural desse porte. Leo Mathias, um dos organizadores e membro do Papo Cultura, explica que a importância disso é justamente dar mais acesso à cultura aos moradores e proporcionar uma vida social mais movimentada para a comunidade. Em sua visão, por Sarandira ser afastada do Centro, acaba sendo “um pouco esquecida”. “Ao levar a mostra para lá, vamos movimentar a cultura e todas as pessoas. Queremos agitar nosso distrito, que é um lugar lindo para se viver”.
Foi por isso que, ao participar do curso de produção cultural com Suzana Markus, surgiu a ideia de se inscrever no edital Cultura na/da Quebrada, da Fundação Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), que possibilitou o evento acontecer. Agora, as expectativas são as melhores possíveis. “Eu estou com medo, é também o primeiro projeto que nós organizamos. Mas já estamos com várias ideias e pensando em próximos eventos. Queremos fazer a diferença, receber todos muito bem. Estamos fazendo isso por Sarandira”, diz.
De Sarandira para Sarandira
Suzana Markus, que mora em Belo Horizonte e tem mais de 20 anos de experiência na área de produção de eventos, explica que trouxe essa formação em produção cultural para o distrito justamente por acreditar no potencial do local. Ela tem casa lá e nota que a falta de programações assim faz falta para os moradores. “Juntei minha experiência na área com a vontade dos meninos do coletivo, e a ideia é mesmo que a própria comunidade desenvolva seus projetos. Queremos deixar esse legado para Sarandira”, diz.
Também foi por isso que a mostra optou por chamar convidados que moram ou que já moraram lá para contarem suas histórias. Leo conta que é o exemplo do pastor José Ivo, que sofreu episódios de racismo que marcaram sua vida. É também o exemplo de Larissa Monthserrá, ex-moradora que já sofreu transfobia e que volta ao distrito para debater o assunto. O organizador explica que são temas pouco discutidos lá. “Mas entendemos que a diversidade é importante e queremos que a nossa comunidade tenha muito amor e união.”
Para Suzana, por isso também é tão importante o investimento na produção local. As degustações de alimentos e exposições de artesanatos também vão acontecer justamente para incentivar os moradores a desenvolverem essas áreas. Em sua perspectiva, investir em todas essas questões pode trazer vários benefícios para a comunidade, que vai poder atrair pessoas, aumentar a sua renda e a autoestima dos moradores. “Tem muita gente que não valoriza o local, mas é super tranquilo e gostoso. Quem é da cidade sente muita falta de um ambiente assim, em que as pessoas se cumprimentam todos os dias e acordam com o canto de passarinhos”, diz.
O que fazia falta no distrito
Para o coletivo, a ideia é fazer muito mais que um evento – mas proporcionar uma mudança no distrito. Essa transformação é algo de que os próprios organizadores sentiram falta em sua formação, e agora buscam para que as próximas gerações possam ter. Leo conta que, em sua vivência como um jovem negro, sentiu falta de escutar debates sobre o Movimento Negro, por exemplo. Esses temas só chegaram até ele pela internet – não pareciam estar tão presentes no seu dia a dia.
Mas não é só desses debates que ele sentiu falta, mas do acesso à cultura como um todo. “Na minha vida, queria muito ter tido isso próximo de mim. Nós brincávamos na rua, íamos ao campo, mas não tínhamos essas atrações. Não sabíamos a história da onde a gente morava, não tínhamos acesso a cultura. Senti falta disso na minha infância”, revela.
A mostra, então, busca levar um pouco de todas essas questões para Sarandira, sempre de uma forma leve, educativa e enriquecedora. No futuro, a Associação Carabina Cultural pretende intensificar as formações no local para que o turismo também seja incentivado.

