
A melodia de Cacáudio é o que vem guiando as palavras de Carlos Fernando Cunha. As realidades em comum, desde serem professores a estarem envolvidos em um mesmo grupo de amigos que é quase uma família, são a base inspiradora para que haja um encaixe entre uma coisa e outra. “O diálogo que a amizade com o Cacáudio me proporciona está espelhado neste trabalho.” O trabalho ao qual ele se refere é o EP “Bons navegantes”, lançado nesta sexta-feira (10) nas plataformas digitais: álbum que faz perdurar as tantas horas de trocas que, até então, estavam restritas às rodas informais e ao Encontro de Compositores.
“Bons navegantes” tem seis músicas. Todas são parcerias entre os músicos. Mesmo que relativamente curto, o EP passa por uma série de ritmos e referências que os dois trazem em comum. A primeira música, “Astronave”, de acordo com Carlos Fernando, pode ser considerada a que mais resume a história toda. “Tem tudo ali”, ele fala. Assim como a maioria das músicas feitas em parceria, Cacáudio manda uma melodia, muitas vezes sem uma referência sobre um tema específico, e uma palavra que vem à mente do compositor pode ser definitiva para guiar a música toda. A que abre o disco, por exemplo, fala sobre memória. Quando Carlos Fernando ouviu, foi o que sentiu e compôs com tons quase infantis. Ao conversar com seu parceiro, Cacáudio assumiu que tinha pensado exatamente nisso. “É muito louca essa relação de parceria”, diz Carlos Fernando.
“Bons navegantes”: no plural
O nome do disco surgiu da segunda música que, na faixa, vem no singular: “Bom navegante”. Ela foi feita na época do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e, para a dupla, assume sentimento de medo, sim, mas também de esperança. Adotar o plural no nome do EP foi uma escolha para fazer com que quem ouça sinta-se junto dos músicos, dentro de um barco mesmo, em uma só remada forte.
A única que foi feita na pandemia foi “Cata-vento”. Ela quase não entrou, não fosse a decisão de lançar “Lua formosa” como single. A vontade, nela, é ser uma pena e ter a calmaria ao cair até o chão. É quase impossível não associar as produções de agora com a pandemia. Mesmo que não tenha referência, é um retrato do que passa pela cabeça dos artistas no presente, e toda a reunião para gravar, neste momento, um disco. Nesse caso, envolvendo também João Cordeiro (bateria e vibrafone), Berval Moraes (baixo acústico), Humberto Araújo (sopros) e os próprios Cacáudio (teclados) e Carlos Fernando Cunha (percussões), com direção de Rodrigo Campello.
O disco termina com “Samba é missão”, como se, depois de passar pelo frevo, pela bossa nova e os tambores de Minas, o samba fosse onde tudo isso deságua. “Não tem como não beber dessa fonte”, diz Carlos Fernando. A letra foi feita para seu filho, Arthur, também através da melodia de Cacáudio. Mesmo que só com composições dos dois, “Bons navegantes” é um pouco também dos outros amigos. O que registra isso é a capa, feita pela também amiga e artista Margareth Guiga.

