Ícone do site Tribuna de Minas

O que foi feito da vida?

PUBLICIDADE

O que foi feito do amor? Ganhou nova forma. Em um lugar onde a língua é outra, as cores são diferentes e as pessoas, ainda mais, a esterilidade poderia servir como sobrevivência. Porém, em Vidas provisórias (Editora Intrínseca), novo livro de Edney Silvestre, em tempos de crise é necessário se reinventar. A vida no Brasil continua, Paulo, diz Ernesto, um dos amigos do homem, em agosto de 1975, quando ambos trabalhavam em um hotel de Estocolmo. Em resposta, ouve-se: Sem nós. Cada um reflete sobre o país que não veem e de que apenas sabem à distância, conta o narrador.

A tempestade que se faz da distância e a calmaria surgida da adaptação servem de pontapé para que o jornalista e escritor radicado no Rio de Janeiro desvende o que foi feito de dois personagens apresentados anteriormente. Paulo é um dos jovens protagonistas de Se eu fechar os olhos agora, primeiro romance de Silvestre, publicado em 2009 e vencedor dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura. Barbara é filha do motorista assassinado durante o sequestro sobre o qual se detém A felicidade é fácil, romance de 2011.

PUBLICIDADE

Passados pouco mais de uma década, os dois personagens são enfocados na juventude, quando saem de seus países para viver o que esperam ser uma vida temporária. Numa pequena cidade fluminense na antiga zona do café, Paulo descobriu, junto a um amigo, o corpo de uma mulher próximo a um lago, e foi escorraçado após atrever-se a investigar o crime, certamente, praticado por nomes de relevo do lugar. Eduardo e eu acreditávamos que aquele mundo e aquele Brasil caminhavam para um futuro melhor e mais justo. Eu não sabia que nosso futuro tinha dono, diz o garoto. E teve.

Após sair do interior, ele se vê às voltas com os anos de chumbo. Estudante de pedagogia, apreciador de Paulo Freire, ele é acusado pelo irmão, um capitão torturador, de envolvimento com a esquerda. Do sequestro do embaixador alemão, só tomara conhecimento pelo noticiário. Seus colegas do grupo de alfabetização de adultos são contrários à ditadura, sim, como tantos outros estudantes da Faculdade Nacional de Direito, mas nenhum deles está envolvido com os grupos de luta armada, relata o narrador, que ora observa os fatos, ora dá voz ao personagem.

Torturado e expulso de seu país de origem, Paulo é exilado em Estocolmo, na Suécia, onde conhece Anna, uma funcionária da Anistia. No país, convive com poucos conterrâneos, é obrigado a aprender uma nova língua e a projetar outro futuro. Estamos vivos por sorte, por descuido de nossos algozes, por suborno de um guarda corrupto, por relações de parentesco, por obra do acaso. Isso é estar vivo? Por quanto tempo seremos jovens e poderemos acreditar na volta? Não só na volta, Anna. Mas na volta e na reconstrução das vidas que deixamos para trás, desabafa o homem, já casado, pai de dois filhos e cheio de marcas.

PUBLICIDADE

Uma sobrevida em silêncio

Apesar de servir à construção literária de um episódio que marcou a história recente do Brasil, Paulo não guarda o mesmo vigor da personagem Barbara, que entre silêncios diz muito sobre os anos 1990 na política brasileira, quando decidiu seguir para os Estados Unidos, a fim de se livrar dos rastros dolorosos da morte do pai. Imigrante ilegal, a mulher é convencida pelo namorado e logo abandonada, sem compreender, ao menos, o que as pessoas lhe dizem nas ruas.

Faxineira de imigrantes brasileiros, a jovem se envolve com outros personagens de extremo requinte. Nadja é uma ex-atriz que se torna cafetina em Nova York, e Silvio é um gay doente, acometido pela Aids (quando a síndrome ainda não via luz no fim do túnel), que rememora sua vida intensa na maior cidade da América do Norte deitado em um leito de um minúsculo apartamento financiado por um hospital que o utiliza como cobaia. Não hoje. Não quer sentir pena de si mesma nem pensar que cometeu um erro, um engano irreversível quando decidiu vir para este país com Luís Claudio. As dívidas, os documentos falsos, a ilegalidade, tudo, tudo. Não quer pensar nisso, mas não consegue evitar, conta o narrador.

PUBLICIDADE

Em meio à reclusão e à solidão extrema, Barbara sofre calada. Olha aqui, menina, está na hora de você aprender que tem, sim, que ver com a vida de quem está perto de você. Somos estrangeiros aqui. Somos indesejados, comenta uma das prostitutas da casa que limpa. Os americanos só querem que a gente limpe a casa deles, que a gente abra as pernas para eles, que a gente gaste nosso dinheiro nos supermercados deles, que a gente se endivide no cartão de crédito deles, que a gente compre as casas vagabundas que eles constroem nos nossos bairros de imigrantes, mas eles estão se lixando para nós, completa, dando o tom ácido da obra.

Nada é definitivo

PUBLICIDADE

Utilizando-se de um recurso gráfico – o livro tem acabamento luxuoso – que segrega os discursos, intercalados, de Paulo e Barbara, Edney Silvestre mantém o fôlego dos trabalhos anteriores. Contudo, a agilidade narrativa, a profusão de imagens que saltam das palavras e a naturalidade dos diálogos ganham mais força na trajetória da jovem garota imigrante. Repórter de TV com carreira reconhecida fora do país, o autor mostra-se consciente e habilidoso ao encarar uma narrativa quase cinematográfica, como as de Se eu fechar os olhos agora e A felicidade é fácil.

Em Vidas provisórias, o escritor injeta mais doses de críticas, possibilitando uma comparação do Golpe de 1964 com a Era Collor e tecendo a epopeia própria dos que saem do Brasil, seja de forma forçada, seja por desejo íntimo em conhecer outras terras. Se as dores tomam grande parte da trama, não são elas que encaminham o discurso de Silvestre. Há um otimismo nas sublinhas. O que é temporário não é definitivo, mostra Barbara e Paulo – ambos não retornam às suas raízes, mas fincam outras, mais novas.

Sair da versão mobile