
14 atores/cantores celebram a obra de Milton Nascimento em 50 canções
A canção título de “Milton Nascimento – Nada será como antes” chega para o público, no encerramento do espetáculo, anunciando a crença em dias melhores. “Eu já estou com o pé nessa estrada/ Qualquer dia a gente se vê/ Sei que nada será como antes, amanhã./ Que notícias me dão dos amigos? Que notícias me dão de vocês?/ Alvoroço em meu coração/ Amanhã ou depois de amanhã/ resistindo na boca da noite um gosto de sol.” Dirigida por Cláudio Botelho e Charles Möeller, dupla responsável pelos maiores musicais vistos no país desde a década de 1990, a produção, que traz a travessia musical de Bituca cantada em 50 sucessos, passa pela cidade nesta sexta e sábado, às 20h, e domingo, às 19h, no Cine-Theatro Central, encerrando uma temporada por Minas Gerais.
“Tenho uma ligação enorme com a obra de Milton desde criança. Vou fazer 50 anos, e um dos primeiros discos bons e significativos que ouvi na vida foi o ‘Geraes’, quando eu tinha 13 anos. Sou mineiro. Na época, eu morava em Uberlândia. Descobri Milton e Chico Buarque ao mesmo tempo, o que muda o destino de qualquer pessoa artisticamente.” Botelho e Möeller celebraram o autor de “Construção” em ‘Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos’, de 2014. ” A vida foi muito generosa comigo. Pude trabalhar com meus ídolos, me aproximar deles, montar espetáculos, fazer sucesso e ganhar dinheiro. Isso é um presente”, comenta Botelho, por telefone, à Tribuna, enquanto seguia para a estreia VIP, no Rio de Janeiro, de “Os Saltimbancos Trapalhões”, com Dedé Santana e Renato Aragão no elenco.
O universo musical de Milton Nascimento é reconstruído por 14 atores e músicos, que se revezam no palco. Não existe uma história linear. Desde o início, Möeller e Botelho decidiram que não fariam uma biografia do artista – mesma atitude tomada com “Beatles num céu de diamantes”, de 2008, trabalho que revisita o quarteto de Liverpool. “Já fizemos Chiquinha Gonzaga no teatro e na televisão, fizemos ‘Dalva e Herivelto’ na TV, com o Dennis Carvalho, foi muito bonito, porém isso não é teatro, não tem dramaturgia. É um pouco mais do mesmo. A gente gosta da ficção, de contar uma história com uma canção. Nosso espetáculo não tem nada a ver com a vida do Milton, ninguém fala a palavra ‘Milton’ em cena, é a obra dele.”
As canções são teatralizadas em quatro blocos, divididos conforme as estações do ano. A primavera, representada por “A cigarra”, “Um girassol da cor do seu cabelo” e “Nuvem cigana”, é a primeira delas. “É a celebração da alegria, da arte de compor e de cantar o mundo”, diz o diretor. “Em seguida, vem o verão, o lado mais de raça do Milton, de negritude, dos tambores.” O outono é apresentado para o espectador fazendo referência aos duros anos da ditadura militar brasileira. “As coisas ficam mais escuras, as folhas começam a cair. Foi quando a obra do Milton sofreu muita censura. E finalmente chega o inverno, retratando um período em que muitas pessoas desapareceram, muitos colegas, muitos artistas foram mortos naquele momento. Mas, não se preocupe, o espetáculo termina com um final feliz. Nada realmente é como antes. Veio a abertura, e o mundo mudou. Não que não tenha deixado mágoas, mas já não sofremos aquelas atrocidade”, resume Botelho. “Cais”, “Caçador de mim”, “Encontros e despedidas”, “Faca amolada”, “Bola de meia, bola de gude” e “Aqui é o país do futebol” estão no setlist.
Sem imitações
Criado em 2012, na ocasião dos 50 anos de carreira e 70 anos de vida do artista e quatro décadas do Clube da Esquina, a produção tem o aval do homenageado. Ele não interferiu no processo, só deu alguns toques finais nos acordes, conforme Botelho. “Todos os atores tocam e cantam ao mesmo tempo. A coisa mais fofa e carinhosa que escutamos do Milton foi: ‘Olha, vocês conseguiram juntar no cenário, no figurino e nessas pessoas todas que estão aí, um Milton’. Não tem nada a ver com a voz dele, que é inimitável. Esse é o problema dos espetáculos biográficos. Eles são feitos com imitadores, e imitadores eu prefiro ver no Raul Gil. A arte da imitação é muito primária.”
Com assinatura de Möeller, os figurinos têm a intenção de remeter à década de 1970. Com botas, casacos, cachecóis, “roupa sobre roupa”, como diz Botelho, os intérpretes ocupam uma casa mineira. “O cenário é todo feito à mão e tem uma pegada barroca. Também representa os espaços que poderiam ser aquela esquina do Clube da Esquina. Ele vai ficando mais sufocante com a chegada do inverno”, conta o diretor, comemorando a passagem por Minas Gerais. “Não posso esconder minha alegria. A nossa empresa dificilmente viaja com as produções. Foi uma sacada muito inteligente da Rede, nossa patrocinadora, de levar a cultura ao lugar dela, levar Milton Nascimento a Minas. Esse trabalho poderia não ter ido ali na esquina. Viemos de uma sequência de sucesso. Começamos com Uberlândia, ao ar livre, passamos por Belo Horizonte, num Palácio das Artes lotado e aplausos de dez minutos seguidos, e Ouro Preto, onde estavam dez mil pessoas na praça. Não fui a nenhum espetáculo da turnê. Vou assistir aí.”
Orçado em R$ 1 milhão – quantia considerada modesta se comparada a outras montagens dos “magos dos musicais”, como “O mágico de Oz”, de 2012 (R$ 8,5 milhões e 150 profissionais envolvidos), e “Um violinista no telhado”, de 2011 (R$ 7,2 milhões e 43 atores em cena), “Milton Nascimento – Nada será como antes” surgiu sem a preocupação de ser gigante no que diz respeito a elenco e produção. “Fizemos ‘A noviça rebelde'(2008) e ‘Saltimbancos’, por exemplo, com 60 pessoas trabalhando. ‘Nada será como antes’ foi muito caseiro, feito na nossa casa, com amigos. Não tem qualquer efeito especial, tudo é executado na cara do público, sem maquiagem, com o coração. É uma produção pequena que a gente adora”, conta Botelho, cuja avaliação sobre a trajetória do gênero no país há tempos é das mais positivas. “Acho engraçado quando perguntam se o teatro musical vai dar certo no Brasil. Já está até velho, tanto que deu certo.”
MILTON NASCIMENTO – NADA SERÁ COMO ANTES
Sexta e sábado,
às 20h, domingo, às 19h
Cine-Theatro Central
(3215-1400)

