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Arte da devoção

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A terra oferece matéria-prima abundante. As cerâmicas de Hélio Siqueira já carregam a força do discurso e a delicadeza do processo escolhido pelo artista, que modela o barro retirado, majoritariamente, das margens do Rio Grande, na região do Triângulo Mineiro. Micro-organismos que há milênios escorrem das montanhas e são conduzidos pelas chuvas, se sedimentam às margens dos rios, amalgamados pela água, descreve Siqueira. Essa massa disforme pode gerar utensílios que colaboram com o homem na construção de abrigos num sentido estreito, mas, num sentido aberto, é a matéria que o ceramista abraça, prolongando nela o si mesmo. Moldada e seca pelo sol, a obra ainda não está pronta, precisa do ar que infla. Precisa do sol que seca. Precisa da alquimia do fogo que cozinha e cora. O artista assina a exposição Santos todos nós, em cartaz no Museu de Arte Murilo Mendes.

Mineiro de Ouro Fino, Siqueira cresceu cercado pelo esplendor do barroco e seu apelo à religiosidade, tanto na capela perto de casa, quanto na igreja matriz da cidade. Ex-seminarista, interessou-se desde o início de sua trajetória artística, na década de 1970, pela temática do sagrado. Santos assombram as retinas, movem a fé para a arte, religam a mão que faz ao espanto da criação. A terracota cifra o fascínio milenar que o artista contemporâneo traduz em inovação sedutora, avalia o intelectual mineiro Ângelo Oswaldo Santos, em texto de apresentação da mostra.

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Dono de uma vasta trajetória, Hélio Siqueira reúne importantes prêmios e participações em salões e bienais pelo país. Licenciado em letras pela Faculdade de Filosofia Santo Tomás de Aquino, em Uberaba, fez pós-graduação em ação cultural pela Escola de Comunicação e Artes da USP. Estudou com renomados artistas brasileiros, como Amilcar de Castro, Geraldo de Barros, Teixeira Coelho, Yara Tupynambá, entre outros.

A exposição apresenta ao público uma instalação com mais de cem peças dispostas em módulos distintos. Uma das principais obras,300 santos é um painel com 60 peças e faz referência aos oratórios mineiros, antigos oráculos de devoção particular. Neles estão em evidência alguns santos mais próximos da devoção popular, como São Sebastião, Santa Cecília, São Jorge, Santa Rita, São Domingos e São Francisco de Paula. As obras de grandes dimensões apresentam-se soltas pela exposição, enquanto as de pequenos formatos chegam ao público dentro de vitrines.

A série de imagens modeladas pelo autor se abrem ao diálogo entre erudito e popular, sacro e profano. O espinho da coroa de Jesus, que, segundo a biografia de Santa Rita de Cássia, desprendeu-se da imagem do crucifixo e espetou a testa da santa, foi substituído por um robusto prego na criação de Siqueira. As feições angelicais e delicadas da santa também surgem mais rudes, em uma aposta do artista por maior dramaticidade e naturalidade das formas.

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O barroco, a arte dos povos primitivos, a arte popular, revistos e revisitados, são, segundo Siqueira, os principais pontos de referência do conjunto apresentado. Insuflados pelo sopro divino, viemos do pó da terra. Do barro, homens inteligentes moldaram objetos amorfos e utilitários até alcançar o requinte da porcelana chinesa, lembra o escultor.

Para alcançar tons variados – em diferentes nuances de rosa, creme, vermelho, cinza, preto e branco -, o artista optou por diferentes formas de queima das peças. Forno a lenha, modelo garrafão; forno de buraco, uma queima extremamente primitiva usada pelos primeiros povos (dando destaque aos tons de preto e cinza e evidenciando, em alguns pontos, o vitrificado, quase um milagre obtido pela resina da lenha); forno de papel; e forno noborigama, de origem japonesa, explica o artista.

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A fragilidade na confecção das obras expostas reflete, ainda, segundo Siqueira, os riscos assumidos. O artista vive na corda bamba, dispara. O barro é adâmico, primordial. O objeto cerâmico, nascido da terra e do fogo, sangra e sagra o gesto e o signo, conclui Santos.

SANTOS

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TODOS NÓS

Exposição de Hélio Siqueira

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Terça a sexta, das 10h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h

Museu de Arte Murilo Mendes

(Rua Benjamin Constant 790 – Centro)

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