Quando Nelson Rodrigues recorreu ao teatro, procurando aumentar seu minguado salário de jornalista, pensava em fazer uma chanchada. O texto, entretanto, assumiu as rédeas e se escreveu. Pegou um atalho e, distante do humor, foi ao drama. Assim nasceu "A mulher sem pecado", história de um marido paralítico que sente ciúmes da esposa. No ano do centenário de um dos mais polêmicos escritores nacionais, a jovem companhia Teatro Obsessivo e Compulsivo (T.O.C.) se propôs a produzir uma homenagem debochada. "Nossa motivação principal foi a peça ‘Anti-Nelson Rodrigues’, um autodeboche máximo", explica Gustavo Burla, um dos integrantes da trupe. Mas a aura de tensão foi rondando os diálogos e transformando o projeto em um Nelson autêntico. Não houve maneiras de escapar do "maldito". O espetáculo "A vida como ela foi… (Homenagem calamitosa em 28 atos e 100 apoteoses)" estreia nesta sexta, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), e traz fragmentos de 16 criações do dramaturgo. Apenas "A serpente" ficou de fora.
Longas discussões noite adentro marcaram o processo de preparação do texto, arrematado por Burla. Nele, personagens de uma narrativa passeiam por outra, figuras diferentes se juntam em uma só, e episódios da vida de Nelson, especialmente nas redações, ganham ares ficcionais, atando as histórias. "A Glória de ‘Perdoa-me por me traíres’ é a mesma de ‘Álbum de família’, e o Leleco de ‘Anti-Nelson Rodrigues’ também equivale ao de ‘Boca de Ouro’", exemplifica Burla, que, dessa vez, assume a direção cênica.
Ao entrar na Sala de Encenação Flávio Márcio do CCBM, o espectador verá, em um dos cantos da sala, sua imagem refletida em um espelho. Segundo os especialistas, Nelson discutiu o Brasil de seu tempo, levando para a ribalta as angústias e as dores de qualquer mortal. "Queremos que as pessoas deem de cara consigo mesmas", ressalta Burla, seguindo os passos do "anjo pornográfico".
Mesmo sem conhecer a fundo as ideias de Sigmund Freud, o dramaturgo centenário soube desnudar recalques e complexos. As cenas, como sutis cutucadas na consciência, serão apresentadas bem perto do público, com as cadeiras dispostas em meia-arena. "De perto, ninguém é normal", justifica o diretor. De acordo com ele, o espaço cênico foi escolhido a fim de que o elenco (além de Burla, Ana Paula Dessupoio, Leandro Boscato, Paulo Moraes, Júlio Andrade, Marcos Araujo, Marisa Loures e Táscia Souza – os três últimos, repórteres da Tribuna) pudesse ser visto por quase todos os ângulos, inclusive, causando incômodos ao se posicionar de costas para uma parte da plateia.
Aos leões!
Desde 2010, certo grupo de amigos, todos ex-integrantes do Divulgação, vem se reunindo e dividindo o desejo de voltar ao palco. Depois de estrear com uma paródia do espetáculo "Girança", em 2011, durante o evento de 45 anos do Divulgação, a trupe, com oito atores, decidiu que precisava se lançar aos leões. O que fazer se Nelson Rodrigues estava prestes a comemorar seu centenário? A escolha, segundo Burla, foi uma ousadia. "Para encenar um drama rodriguiano, o artista deve estar maduro e consciente do seu fazer, já que muito fica para as entrelinhas."
De acordo com o diretor, a poucas horas da estreia, ainda havia muito para se discutir sobre as cenas, embora o elenco tenha varado madrugadas com as polêmicas do dramaturgo na ponta da língua. Por serem aprendizes de uma mesma escola, os componentes do T.O.C. procuraram aproveitar as experiências pessoais para construir a identidade da companhia: professores, jornalistas, comerciantes e até um policial estão no projeto.
A VIDA COMO ELA FOI…
Estreia nesta sexta. Sábados e domingos, às 20h30
Até 26 de agosto
CCBM
(Av. Getúlio Vargas 200)
