Apesar de se enveredar nas artes do desenho, pintura e música, Mário Tarcitano acredita que a charge tem suas próprias artimanhas. Com a tarefa de levar uma ideia a um público diversificado, ele avalia que esse trabalho consiste não só em buscar tiradas inspiradas, mas em uma comunicação direta e sincera com o leitor. O artista de 50 anos de idade e 32 de carreira enfatiza a diferença na própria assinatura. A partir de hoje, o sobrenome Tarcitano, que subscreve suas pinturas e desenhos, abre espaço para Mário simplesmente nas charges que a partir de hoje preenchem a página 2 da Tribuna. "Na pintura, não é necessário definir os traços, você insinua, e a mente de quem está vendo complementa. Já a charge tem que estar acessível a todo mundo, pois está passando uma ideia", comenta.
Como tantos outros cartunistas, Mário começou a desenhar ainda garoto, fazendo caricaturas de colegas de escola e professores. O que teve início como diversão tornou-se profissão aos 18 anos, quando apresentou seus trabalhos ao editor do "Jornal de Hoje", de Volta Redonda, sua terra natal. Contratado pelo periódico, o artista se deparou, pela primeira vez, com o desafio de produzir charges diariamente. "Eu só fazia o rosto das pessoas, portanto, só criticava a cara. Mas criticar a ideia é outra coisa", explica.
Uma dos primeiros trabalhos que marcaram a carreira do artista remonta aos últimos anos da ditadura militar, quando o presidente Figueiredo retirou a emenda constitucional do deputado federal Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições diretas no país. Em uma alusão ao futebol, Tarcitano retratou o general retirando a bola de campo, enquanto os presidenciáveis assistiam desapontados. O sucesso da charge fez com que os desenhos de Tarcitano passassem a ocupar a capa do jornal. "O Chico Caruso teve uma ideia muito parecida com a minha. Naquele momento, senti que estava em um bom caminho", relata. Tempos depois, o chargista começava a emplacar colaborações em periódicos de circulação nacional, como "O Pasquim" e o "Jornal do País".
O futebol, aliás, já serviu de metáfora para outros desenhos de Tarcitano. Recentemente, após o fiasco da Seleção Brasileira contra a Venezuela na Copa América, teve a ideia de homenagear o cão que invadiu o campo durante a partida. Diante da atuação apagada dos jogadores, o animal foi o único a chamar a atenção e foi colocado como o astro da entrevista coletiva em vez dos atletas. Torcedor do Flamengo, o chargista não dispensa a pelada semanal. "Todo sábado à tarde, pode chover canivete, eu estou lá."
Além de ser bom de bola, Tarcitano também atua na música, uma paixão que teve início na mesma época em que começou a desenhar profissionalmente. De início, incentivado por um amigo, assumiu a percussão de uma banda. Com o tempo, sentiu a necessidade de uma sonoridade mais melódica e adotou o saxofone, instrumento que toca até hoje, como integrante do Clube do Choro. "Sou mais um bom ouvinte, do que um bom músico", define com modéstia.
A propósito, a música é a inspiração de grande parte das telas e desenhos artísticos de Tarcitano. Essa vertente inclusive já rendeu exposições em Juiz de Fora (no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas) e também em Viçosa e Volta Redonda. "Sempre gostei de arte. Ao mesmo tempo em que acompanhava os cartunistas, não deixava de comprar as coleções com as obras dos mestres da pintura. Acho que uma coisa ajuda a entender a outra."
O cartunista também destaca o convívio com o pintor Dnar Rocha, que tinha um ateliê ao lado de seu apartamento. "Aprendi muito com o Dnar. Quando alguém é bom dessa maneira, basta ver trabalhando para aprender algo."
Convivência com a tecnologia
Depois de alguns anos no jornalismo diário, Tarcitano decidiu exercitar seu talento na área da publicidade. A passagem por esse ramo proporcionou os primeiros contatos com a cidade de Juiz de Fora, através de serviços prestados à juiz-forana Mendes Júnior. Em 1988, Tarcitano mudou-se para a cidade, passando a integrar a equipe de comunicação da empresa.
Foi também na publicidade que começou a lidar com programas de computação gráfica, prática que facilitou sua adesão aos meios tecnológicos também para a charge. Hoje, Tarcitano divide sua produção entre trabalhos desenhados diretamente em uma mesa digitalizadora e desenhos feitos a mão, em nanquim, e depois coloridos no computador.
Com temperamento tranquilo e observador, Tarcitano demonstra sutileza ao retratar assuntos delicados, como a morte do ex-presidente Itamar Franco. A imagem do político é insinuada em uma sombra ao ser recepcionada no céu por outros mineiros como Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves. Criando graça sem perder a elegância, o chargista acredita que não terá problemas ao criar humor a partir de personagens e situações políticas da cidade. "Vou ter mais amigo que inimigo nessa história toda."
