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Outras ideias com Flávia Rodrigues da Silva

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Com pouco mais de 20 anos, num dia comum de 1996, Flávia Rodrigues cedeu aos convites de uma amiga enfermeira para sair e foram, à tarde, num show de pagode no Bairro Mariano Procópio. Chegando lá, encontrou Adão da Silva, sozinho numa mesa. Vindo de Belo Horizonte há alguns anos, com poucos amigos, ele demorou até fazer da troca de olhares um chamado para irem, juntos, à Festa Alemã, na noite do mesmo dia. Na apresentação, ela disse que trabalhava no escritório de uma indústria, na área do faturamento. Ele, que trabalhava numa loja de DVDs. Na mesma semana, no horário do almoço, Flávia, já encantada, foi até a galeria que liga as ruas Marechal Deodoro e Fonseca Hermes. “Cheguei ao serviço e falei com as meninas: ‘Ele só pode trabalhar no sex shop. Lá só tinha loja de música e salão de cabeleireiro. A única onde vi DVD era o SexShop'”, conta ela. Adão confirmou.

“Quando o conheci, ele estava pensando em fechar a loja e ir embora. Ela era lá na frente da galeria e estava muito vazia. Ele ia como sacoleiro para comprar as coisas. Fui o incentivo para ele ficar”, diz a mulher, hoje com 41 anos, mãe de duas filhas, de 10 e 15 anos, motivos de sua dedicação ao projeto que Adão lhe legou, aos 46, no ano passado. “Ele teve uma forte dor de cabeça e quando foi ver, era um tumor. Foi operar e não resistiu. Foi para a mesa de cirurgia sem saber dos riscos, sem saber que era tão sério. Ele cumpriu a meta dele. Deus o livrou de um sofrimento”, emociona-se a viúva do homem que chegou a Juiz de Fora, aos 18, especificamente para abrir um sex shop.

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Preâmbulo

Entre lingeries, vibradores, géis, preservativos e muitos outros objetos, Flávia fala com orgulho de uma escolha que fez muito antes de conhecer Adão. “Sou evangélica, sempre fui. Ele foi para a igreja também. Temos um certo limite. Quando saio daqui, separo. Mantemos um respeito. Geralmente, em festa, um amigo mais íntimo nos apresenta para alguém, mas a gente não estica o assunto. A loja é como outra qualquer”, afirma a mulher de fala contida, de voz baixa e certa seriedade no trato. “Esse é nosso meio de vida”, pontua. É contraditório na sua vida? “Levo super bem. Até Deus me dar outro ramo…”, responde. Pensa em ter outro ramo? “Penso em ter outra coisa paralela, até mesmo para que minhas filhas possam frequentar e trabalhar”, diz. E elas? “A de 10 anos eu nunca trouxe. Depois ela vai saber. Não tem essa necessidade”, comenta. “Sou muito discreta. Saio para fazer serviço de banco e ninguém aponta, ninguém fala nada, nem eu falo onde trabalho. Sou muito tranquila para não escandalizar.”

Ato

Para uma tarde de quarta-feira, o movimento parece justificar a adoção de dois vendedores, além de Flávia. “Tive que assumir mesmo. Ele ficava na venda e na compra. Eu ficava mais no administrativo. Hoje faço tudo”, conta ela, responsável pela transformação e profissionalização do negócio que já dura 28 anos. “No início, eram poucas mercadorias. A parte de próteses, quando entrava na loja, já via. Eu é quem fui dando uns toques mais femininos, mais discretos”, conta. As novidades e tendência, segundo ela, surgem de pesquisas, feiras, programas de TV e revistas baratas. Tudo para satisfazer a clientela. “Quem procura é mais o casal heterossexual. Temos clientes de anos, fieis. Velhinhos e velhinhas”, aponta, para logo enumerar o que vende mais: “Um gelzinho comestível, que esquenta, lubrifica e dá sabor, as bolinhas com efeito, que você introduz e é surpresa para o homem, as próteses… O coelhinho, depois do filme (‘De pernas para o ar’) faz muito sucesso. Ele não vende muito, mas, uma vez no mês, sai.”

Descanso

Desde que encontrou Adão e sua loja – cuja logomarca é uma maçã mordida -, a empresária percebe uma mudança comportamental. A loja como experiência antropológica. “Antigamente as pessoas sentiam muita vergonha, agora já é mais natural. A mídia ajuda muito nesse contexto de quebrar o tabu”, avalia ela. Para ser vendedora, no entanto, também descobriu a faceta terapeuta. O balcão como experiência psicológica. “Tem que ser sério, para não dar liberdade. Aqui acontece de tudo. A pessoa vem, conta um caso amoroso, um problema no relacionamento, desabafa. As pessoas que vêm querem sair da rotina ou um presente de casamento. Agora está vindo muito quem está casando. Você acha que vai precisar quando está rotineiro? Não! Eles estão comprando já, e super kits”, analisa a administradora, pontuando a evolução de uma indústria que não para, ainda que a crise já esteja sendo sentida. O negócio como experiência tecnológica. “Antes trabalhávamos com látex, um material mais intenso, e hoje é silicone ou gel. Ou, ainda, o cyber, igual à pele humana”, aponta a mulher, a Eva de um pioneiro Adão.

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