Por tecnologia se entende as técnicas mais modernas e complexas, mas, também, apenas os simples processos de um ofício da atividade humana. Administrador de empresas por formação, Paulo Cáscio se envolveu desde cedo, aos 12 anos, com o universo do design gráfico. Atualmente – após encerrar as atividades de uma pequena indústria gráfica no Bairro Jardim Glória, e que, entre outros clientes, imprimia cartões para os artistas Dnar Rocha e Arlindo Daibert – ele se dedica à programação visual sem se render ao computador. Seu trabalho diário é inteiramente artesanal. Da mesma forma é sua arte (também um hobby), que prescinde apenas do papel e do estilete. Em exposição na Sociedade de Medicina e Cirurgia de Juiz de Fora até sexta-feira, dia 12, Kiri-ê em P&B exibe os minuciosos cortes de Cáscio, resgatando a milenar técnica oriental.
Originário da China, o trabalho consiste em formar desenhos em papel a partir do corte de estilete (Kiri significa cortar, e ê, formar desenho) e tornou-se conhecido como um dos principais passatempos das senhoras da corte da Dinastia Han. O kiri-ê exige muita concentração e, principalmente, muita paciência, comenta Cáscio, que chegou a levar dois meses até finalizar uma detalhada paisagem da muralha da China em traços característicos da pintura chinesa. Expostos entre lâminas de plástico, os papéis – em sua maioria no tamanho de 30cm x 40cm – reproduzem animais (leão, zebra e gato são alguns dos retratados), mulheres (em poses sensuais e roupas listradas), paisagens (entre elas Ouro Preto) e personalidades (os Beatles são os mais instigantes).
Quando Paulo Cáscio descobriu a técnica chinesa, em 2005, começou pelo origami arquitetônico (o kirigami), que após o recorte e a colagem do papel recria objetos em terceira dimensão. A partir de então, o artista dedicou-se às incisões precisas, estudando e pesquisando referências. Cada trabalho surge da observação de espaços de sombra e luz em determinadas imagens, que ou o artista conserva ou descarta. Às vezes erro, mas o único que reconhece sou eu, brinca, evidenciando a fartura de detalhes das obras.
Paulo Cáscio é um artista raro, daqueles laboriosos artistas renascentistas mesclado a um paciente artista medieval chinês, pontua o artista visual Jorge Arbach, em apresentação da mostra. Vivemos no olho do furacão, testemunhando a pulverização das artes manuais no confronto com as novas tecnologias digitais. Mas acredito que o surgimento dessa nova arte impessoal, anônima e desprovida de identidade em sua concepção, fará reaparecer a verdadeira arte, aquela que deixa o rastro do autor, sinalizando a presença de cada um de nós nesse mundo, completa Arbach, apontando para a precisão discursiva do exercício lúdico de Cáscio.
