Quando se tem vocação para gostar de ser humano, torna-se mais fácil criar 50 personagens diferentes ao longo de uma trajetória de 25 anos. Para a atriz Márcia Falabella, o melhor processo criativo é uma escapulida ao Calçadão da Halfeld. "Gosto de olhar as pessoas." Foi assim com seu papel em "A escada de Jacó", que lhe rendeu o primeiro prêmio. Na época, Marcinha tinha 30 anos. Para interpretar uma idosa, inspirou-se em uma senhora que viu em Caxambu (MG). Aos 45 – os mesmos que o Grupo Divulgação do diretor José Luiz Ribeiro completou nesta semana -, a artista sente falta dos muitos colegas que passaram pelo Fórum da Cultura e pelas 160 peças montadas. Às vezes, chega a pensar que viu um deles nas coxias. "A saudade dói."
Marcinha preferiu fincar raízes na cidade. Sabia que aquele era o seu teatro. Fez mestrado em literatura na UFJF, assumiu uma disciplina na Faculdade de Comunicação e pôde se manter em cena. "Agradeço sempre por isso." Permanecer em Juiz de Fora não significou limitar horizontes. Em 2008, a atriz partiu para a França a fim de estudar o Théâtre du Soleil de Ariane Mnouchkine. "Descobri que ele tinha a ver com o trabalho do Divulgação. Não o artístico, mas o de grupo." Uma das lições apreendidas nos dois territórios diz que papel não é o número de falas, mas sim o quanto de vida se dá para a cena. "Quando se está no palco, só resta o agora. O teatro ensina a viver no presente."
Tribuna – Você costuma dizer que a experiência do Grupo Divulgação é algo atípico no teatro brasileiro. Por quê?
Márcia Falabella – No Brasil, até existem grupos mais antigos. Mas acho que 45 anos de atividades ininterruptas é algo raro. Principalmente pela quantidade de produção. Temos nosso núcleo funcionando, além do núcleo de adolescentes e o da terceira idade. Nesse último caso, a metodologia criada pelo Zé (José Luiz Ribeiro, diretor) é pioneira e está publicada em um livro de cartografias teatrais. Outra coisa: não existe mais temporada de quarta a domingo. A gente está resistindo. É claro que algumas coisas precisam mudar. Estamos sempre atentos a isso.
– No teatro, tudo é efêmero. Como escrever uma história de 45 anos tendo esse desafio e ainda a curta memória da contemporaneidade?
– Só nos foi possível construir uma história pela persistência do Zé. Teatro é uma arte difícil, depende de espaço, estrutura, recursos financeiros, formação. Trabalhar em grupo em uma sociedade individualista é um desafio. O Divulgação me ensinou a respeitar o espaço do outro para ser respeitada. Sei que não posso chegar atrasada ao ensaio porque todos correram para estar ali. Antigamente, havia um rigor maior. Todo mundo era pontual. Hoje, muitos dizem apenas: "foi mal". Um problema pessoal não pode ser colocado à frente dos problemas do grupo. Conciliar as diferenças não é fácil, apesar de ter um lado positivo, porque o embate constrói diálogo e crescimento. Se a coisa vai para o campo do individualismo, porém, fica difícil.
– O acervo de material cênico do grupo é grande. Guardar significa valorizar a memória?
– Tudo é produzido por nós, pois o ator só cresce se tiver consciência da arte como um todo. Nos finais de semana, fazemos cenário, figurino, adereço. Então, passamos a ter mais cuidado com esse material. Guardamos tudo porque costumamos reaproveitar peças e também para escrever nossa história. Em 1990, quando o governo confiscou a poupança, fizemos "Era sempre primeiro de abril". Uma montagem toda reciclada, com sucesso tremendo. Nós somos pobres, fazemos um teatro de voluntariado no qual o ator não recebe nada além do aprendizado que leva para a vida. É muito triste ver as coisas amassadas, rasgadas, comidas pelo cupim. Não temos muito espaço, então, isso acontece às vezes.
– De que forma esse trabalho nos bastidores complementa a formação artística e humana dos jovens?
– No dia a dia do grupo, isso exercita uma humildade necessária. A gente limpa também o que é do outro. No núcleo dos adolescentes, fizemos uma tiara para a cabeça. Então, todos precisavam costurar, mas ninguém sabia. Aos poucos foram aprendendo. Mas existem pessoas que passam por aqui e não entendem o processo. Só vão se dar conta lá na frente. Mas isso faz parte do aprendizado de cada um.
– Em seu pós-doutorado, você estudou o trabalho do Théâtre du Soleil, da França. A situação brasileira na arte, se comparada à europeia, está aquém?
– Não acho. Na Europa há mais suporte, mas nós conseguimos criar na pobreza. Imagine se tivéssemos recursos. Eles têm muitos problemas também. A diferença é que há público. Fiquei fora três meses e assisti a 30 espetáculos. Só casa cheia. Vi uma única peça que considerei abaixo da crítica. E mesmo essa estava lotada.
– A frase de Federico García Lorca "mede-se a cultura de um povo pelo seu teatro" é o lema do Divulgação. A quantas anda nossa cultura?
– Na época de Shakespeare, havia uma rainha que tinha consciência da importância do teatro. Da mesma forma, o teatro grego foi essencial para aquela cultura como elemento de identificação. Acredito que esse tempo também chegará para nós. Por enquanto, estamos em um momento de barbárie. Não sou pessimista, pois enxergo que o ser humano não consegue viver na desordem. Antes, porém, tínhamos modelos, sabíamos aonde chegar. A sociedade de agora não nos dá isso. Sei que há muita produção, mas me pergunto: a plateia vai? Afinal, o teatro existe em função dela e resgata algo que está se perdendo, o ser humano diante de outro ser humano. Nem tudo pode ser mediado pela tecnologia.
– Segundo a professora da UFMG Bya Braga, por conta das relações virtuais, a definição de teatro pode perder um de seus principais pilares: o encontro ao vivo. Corre-se esse risco?
– Não sei. Essa pode ser uma forma possível. Mas a essência é o arrepio, o confronto. A gente lida aqui com plateia diversificada. Alguns adolescentes, por exemplo, falam a peça inteira, comentam sobre ela. E há troca nisso. Não gosto de ver as pessoas que estão no público, mas vejo a massa. Ela é viva e reage. O ator capta as respostas. A sociedade está perdendo esse contato humano, e aí o teatro entra como resgate.
– Em entrevista à Tribuna, o professor Ismair Zaghetto disse que, por muito tempo, a arte local foi despida de consciência crítica. Para ele, isso está começando a reaparecer, lentamente, pelo caminho do teatro. Concorda?
– Temos muita gente fazendo, mas carecemos de formação, de conhecimento. Sempre que posso, participo de oficinas, vou ao Rio e a São Paulo para conhecer as novidades. É uma angústia que não tem fim. Não sei até que ponto as pessoas estão nessa trilha. Quando se produz qualquer coisa, o público percebe. E não volta. O Zé fala que se o indivíduo vai ao cinema e não gosta do filme, a culpa é do filme. Se vai ao teatro e não gosta da peça, a culpa é do teatro. É uma responsabilidade grande.
– José Luiz Ribeiro costuma dizer que já não pode montar clássicos com a mesma facilidade de antes, pois faltam às gerações atuais repertório, conhecimento e paciência. De que forma você compara o tempo que começou e agora?
– Temos duas polaridades. Eu, Zé Luiz e Fátima Amorim de um lado, e os jovens de outro. Como encontrar peças com esse perfil? O Divulgação tem 45 anos, mas um núcleo que sempre se renova. Só que as pessoas cobram a qualidade de 45 anos. Por outro lado, temos que aproveitar os meninos que estão chegando, pois eles não têm paciência de esperar para ir ao palco. Eu esperei. Não participei como atriz do meu primeiro espetáculo, fiquei nos bastidores com prazer tremendo. Aprendi muito. Sempre que passei pela técnica, voltei melhor para o palco. Em contrapartida, é preciso pensar no que o público quer ver. Hoje, a plateia é múltipla. Como atender todos os gostos?
– É possível se renovar a cada papel?
– O que mexe comigo é a possibilidade de produzir coisas diferentes. Essa angústia de criar um personagem é muito bacana. Às vezes, você não acha exatamente o que procurava, acha mais. E o desafio aumenta quando se tem determinado peso, registro vocal e estatura, que impedem você de variar tanto. Como temos meninos cada vez mais jovens, sempre acabo sendo a mãe. Como criar centenas de mães diferentes? Procuro o caminho em cada personagem. Estudo, faço pesquisa. Não adianta se preocupar só com cabelo e maquiagem. Mas a dor vem mesmo quando a peça acaba, e é preciso se desfazer do papel. O teatro ensina a viver e a morrer.
