Uma pena. As 20 mil penas, que levaram um ano e meio até serem instaladas no Calçadão, entre as 22h de quarta e as 4h da madrugada de quinta, não duraram sequer um dia. A previsão de Francisco Brandão, o artista visual que planejou e executou a intervenção, era de que as pequeninas peças de gesso ficassem até sábado, quando ele mesmo recolheria o material. Segundo Brandão, a Secretaria de Atividades Urbanas (SAU) determinou a retirada dos materiais e a limpeza imediata do local, por voltas das 16h, o que foi feito por ele e amigos, pás e sacos de lixo, momentos antes da abertura de sua primeira exposição individual, “Crisálidas”, no Centro Cultural Pró-Música.
Afirmando não ter recebido a petição do artista em tempo hábil, a SAU identificou conspurcação no ato, isto é, sujeira na via, além de impedimento locomotivo, solicitando, então, que o Demlurb limpasse toda a área, retirando todas as penas que não haviam sido recolhidas por Francisco. “A SAU reconhece como legítima qualquer manifestação cultural, todavia o exercício deste direito assegurado na Constituição Federal não é absoluto, pois deve estar em sintonia com o direito de outrem, também assegurado pela carta política”, declarou a secretaria, em nota.
“Disseram que se eu precisasse de autorização para fazer este trabalho, não conseguiria. Então, fica essa questão: se eu nunca conseguisse essa autorização, não iria fazer e, como eu fiz, acontece uma repressão. O trabalho era uma doação minha para a cidade”, lamentou o jovem ubaense, que comoveu Juiz de Fora ao ocupar um espaço sagrado da cidade com sua arte, que, ao mesmo tempo sensível, retratando um símbolo de pureza na leveza do branco, mostrou-se desconcertante, por “bloquear” um caminho tão usual.
Dos olhares assustados aos entusiasmados que (assim como ele) ousaram tocar e realocar os objetos (escreveram “justiça” e “esperança” com as peças), o Calçadão viveu, em algumas horas, a real experiência da intervenção urbana, que encontra o acolhimento e também a resistência. Encontra um carro-forte a esmagar pena por pena, como flagrou a Tribuna na tarde de quinta. Encontra os encantados, que há muito não tinham a oportunidade de encarar, que fosse por uma faixa, a Halfeld em sua extensão tão plástica e arquitetonicamente harmônica.
“Ex-votos”, título escolhido pelo artista para o trabalho, remete não apenas ao sacrifício próprio do artista, em fabricar, de maneira seriada, pequenos objetos que ganhariam a imprevisível rua, mas à renúncia de alterar o percurso no espaço público, de ativar a percepção estética quando o urbano impõe a indiferença. “O público está tendo uma boa recepção, e acho que o objetivo está sendo cumprido. As pessoas estão curiosas, algumas pegam as penas, outras ajeitam. Para cada um, a iniciativa terá um significado”, disse Francisco durante a manhã, ainda surpreso com a repercussão.
Passando no local para resolver problemas particulares, Rita Luzie Gonçalves Ribeiro, 53 anos, aprovou a intervenção. “Fiquei impressionada, é muito bonito. Não sabia do que se tratava, e agora que sei só posso dar os parabéns ao artista. Vou aproveitar que estou indo em direção à Rio Branco para ver tudo”, disse ela, que levou uma das penas para casa como recordação. Assim como Rita, a cidade também carregará na lembrança, ainda que o material não tenha restado, a audaciosa iniciativa. Histórica pela complexidade e pulsão, que transformou, mesmo que fugaz, a paisagem de um cartão-postal antes intocável.
