"A respiração é a música que move o corpo", diz o ator, diretor, dramaturgo e pesquisador teatral ítalo-argentino Norberto Presta aos integrantes do projeto "Flutuando". Como num transe, o grupo, formado pelos atores Carú Rezende, Cintia Brugiolo, Felipe Moratori, Gabriela Machado, Licya Benatti e Renata Rodrigues, se movimenta pelo espaço, guiado por frases como "Vocês são o tempo". Financiado pela Lei Murilo Mendes, o projeto de pesquisa – que promove o primeiro encontro aberto amanhã, às 14h30, no Campus Verbum Divinum do CES/JF (Av. Rio Branco, 3.520) – investiga a dramaturgia do ator, compreendendo o corpo como palavra. Inicialmente complexos, os estudos não excluem o texto, mas o complementa com a percepção de que o resultado cênico exige, também, uma dinâmica física de quem fala.
Consciente de uma ainda grande resistência do público, Norberto Presta, autor do texto que guia o projeto e convidado para encaminhar os estudos, defende um teatro capaz de se comunicar e ser compreendido, mas não abre mão da artesania sofisticada que o palco permite. O que o fundador do Centro di Produzione Teatrale Via Rosse e reconhecido diretor contemporâneo deseja é que os espectadores também se empenhem em entender o poder do corpo, já apreendido pelas vias da medicina – cuja ciência, com frequência, aponta: o corpo fala. Prestes a estrear na literatura com o livro de conto "Cachorros dançantes", a ser lançado no fim do mês, com o forte sotaque espanhol e uma fala mansa e dócil, Presta conversou com a Tribuna na manhã de ontem.
Tribuna – Como surgiu o interesse pelo teatro e pela pesquisa?
Norberto Presta – O meu interesse pelo teatro começou aos 17 anos, hoje tenho 59. Meus interesses mudaram muitas vezes. Naquela época, minha orientação primeira foi Stanislavski, mas sempre tive uma curiosidade com a presença do corpo. Comecei a trabalhar intuitivamente e a desenvolver um teatro físico. Dirigi um espetáculo, e minha companhia foi convidada para ir à Europa, em 1981, para uma oficina com o teórico Eugênio Barba. Em 2001, apareceu o Grupo Lume. Foi um trabalho entre músicos, porque os músicos se juntam e não precisam nem falar. E, nós começamos a improvisar, a mover no espaço, num entendimento difícil ao teatro. Dirigi o espetáculo "O que seria de nos sem as coisas que não existem", e vinha cada vez mais para o Brasil, fui conhecendo outros grupos e pessoas.
– De quando você descobriu o teatro físico até hoje, houve um processo de popularização. Qual o lugar dessa expressão hoje no contemporâneo?
– Acho que é bastante preponderante, contamina muito as distintas expressões. Hoje se fala em pós-dramático como linguagem, que já vem de várias décadas, em que o teatro já não é tão inspirado na significação de um texto. São muitas as fontes desse trabalho, que se contamina com performance, com outras linguagens plásticas, com cinema e, fundamentalmente, com a presença do corpo em cena. Isso tem a ver com o impulso do teatro físico, teatro corporal, teatro-dança.
– Mas o texto foi superado?
– O texto não foi superado e não tem porque se superar. A palavra é muito importante. O teatro é o texto, mas eu sempre gostei que a literatura seja uma parte do teatro, não o todo. Não quero renunciar a isso. Gosto muito de escrever. Meu próximo projeto, "Cachorros dançantes", parte de um conto. Tem a forma de um livro, mas também tem a sua forma teatral, de dança e vídeo. Agora trabalho para que tenha música. Não tento superar, gosto de envolver as coisas sem abandoná-las em seus valores mais fortes. Não é um mistério. Não é um bailarino que fala, é um ator que dança. O problema é fazer isso direitinho. Isso não é fácil, é uma linguagem, uma pesquisa.
– Quando você fala do ator que dança, qual é o limiar entre o que é dança e o que é teatro?
– Não me preocupo em separar. Não há um limite. Há um espaço de encontro.
– É muito falado que esse teatro contemporâneo que envolve diversas linguagens artísticas repele os espectadores. Como funciona o público nesse contexto?
– A dificuldade é que talvez o público não acompanhe ou nós não acompanhemos o público. Existem as plateias. Se falamos de espectadores mais massivos, é mais difícil, porque esse público está concentrado em outras coisas. A minha intenção não é atender um público e esquecer o outro, é fazer-me forte de algum modo, gerando situações de encontro. Talvez falhamos quando não pensamos politicamente a nossa arte. É preciso pensar em comunicar o que eu faço, ampliar. Faço isso porque acredito, porque acho que é bom não somente para mim, mas para todas as pessoas. Tive a sorte de conhecer e estudar, e quero compartilhar.
– Você acredita que nos habituamos a ser tocados apenas pela palavra?
– Acho que é um costume, mas também tem a ver com a evolução humana de aceitar outras formas de expressão e de ser. Esquecer o corpo é um dos dramas de nossa sociedade contemporânea, que o está recuperando. O problema é ver como está recobrando, se está recuperando de um modo hedonista, de um modo exibicionista, de musculação e beleza televisiva, ou está recuperando esse corpo como um modo de comunicar com a natura, ser parte dela. Quando separamos o corpo da mente, a palavra do corpo, limitamos nosso potencial de seres humanos. Por isso que digo que quero somar. O ser humano pode ser consciente da totalidade, da complexidade do mundo. Podemos comunicar com as palavras, mas podemos comunicar e ser com o corpo. Então, o teatro nesse território é um modo de revolução humana, não é um adorno.
– Hoje o contemporâneo se atenta muito mais com a pesquisa. Você concorda?
– Minha pesquisa está sempre relacionada à produção. Gosto de pensar no que faço. A produção tenta ser um pensamento. O contemporâneo está dentro da pesquisa. Não sei se foi sempre assim, que a arte sempre teve um espaço de pesquisa para ser contemporânea e atualizar-se. Hoje podemos nos comportar mais informadamente que há 100 anos, e isso na arte reverbera muito. O único problema é que a palavra pesquisa tem se tornado uma categoria, que não deixa pensar muito.
– Você acredita que ainda há algo de novo a se fazer no teatro?
– Permanentemente. Um dos passos é que esse teatro saia do lugar onde está e ocupe um espaço mais amplo.
– Parece que esse teatro contemporâneo acontece de forma mais palatável apenas nas grandes capitais. Porque ainda há tanta resistência do interior?
– A resistência é também estrutural e política. Quantos espaços temos aqui para fazer isso? Quantos tem em São Paulo e no Rio de Janeiro? Quanta informação pode chegar e, mais ainda, quanta pode sair de Juiz de Fora? Assim, a coisa se concentra. É preciso pensar para que o interior produza, porque tem seus próprios mecanismos. Isso seria muito novo. Porque o interior tem que ser passivo? O problema é como capitalizar, como o interior pode gerar seus próprios mecanismos de produção. Quando chega, chega tarde, morta. E hoje é mais fácil inserir o interior nessa troca.
