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Projeto sem fim sobre o contemporâneo

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Obras de Leila Danziger

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Após sua estreia literária, em 1930, com o livro “Poemas”, editado em Juiz de Fora e reunindo criações dos quatro anos anteriores, Murilo Mendes publicou o que mais tarde viria a recusar. Editado em 1932, o livro de poemas-piadas “História do Brasil”, segundo ele, não representava de maneira profunda sua obra. Está ali um olhar de escárnio, mas também de singular lucidez, sobre o país e seus primórdios. Em sua série de trabalhos que apresentou na exposição “Algumas histórias do Brasil”, de 2008, a artista visual Leila Danziger faz leitura semelhante, porém atualizada, utilizando seus jornais “descascados”.

Retirando o texto das páginas dos periódicos, mantendo algumas imagens e inserindo um carimbo com um poema muriliano – “tenho duas rosas na face,/ nenhuma no coração./ No lado esquerdo da face/ costuma também dar alface/ no lado direito não.” – Leila retrata uma terra onde convivem (harmonicamente ou não) Carmen Miranda, uma criança simulando usar uma arma, um morador de rua, Caio Fernando Abreu, Lygia Clark e muito mais. A história do Brasil da artista continua amargamente cruel, como em 1932. Presente na mostra “Acervo em diálogo”, que reúne trabalhos incorporados nos últimos anos ao acervo do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), a série injeta frescor na coleção do poeta e na própria leitura de sua obra.

Expoente da ampla série “Diários públicos”, os jornais da carioca evocam a questão da memória e da perenidade de certos fatos e atos. “Extrair do jornal o ruído como quem arranca o entulho do mundo é o golpe que a artista lança sobre o dispositivo da informação diária. O jornal, livre de excessos, expõe seu ermo, deserto que agora estimula a errância e a demora. Silenciar a tagarelice da informação não pressupõe esquecer o excesso que insiste nas notícias. Ao contrário, apagar é transferir signos”, analisa o professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e crítico de arte Luiz Cláudio da Costa, no livro “Diários públicos”, de Leila.

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Visionário como o poeta

Ao colocar lado a lado produções de momentos diferentes e procedimentos igualmente diversos, “Acervo em diálogo” faz uma leitura do presente, preocupando-se em tecer um elo com Murilo Mendes, sua pinacoteca, sua obra e sua postura diante do mundo. “O museu é dinâmico e mantém o espírito do Murilo, de estar atento ao que se produz no tempo dele. A coleção dele foi toda formada em função do que se fazia na sua contemporaneidade. Para nós, um grupo de curadores, entendemos que o museu continua com esse viés. Abrigamos uma coleção com princípio, meio e fim, e que não nega o olhar para o que se produz hoje”, pontua o curador da instituição, Afonso Rodrigues, que assina a mostra ao lado de Aloísio Arnaldo, Raquel Barbosa, Thiago Berzoini e Valtencir Almeida, integrantes da equipe de museologia e preservação do Mamm.

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Expostos em espaços alternativos da casa em outros tempos, como a gigante roda de ferro de autoria de Valéria Faria, que ficava na escadaria, os trabalhos chegaram à instituição por formas distintas, oriundos de mostras pretéritas ou doadas por entidades parceiras. Hélio Siqueira e suas esculturas religiosas em barro ocuparam o espaço em 2012. Já “Desenho para Murilo Mendes”, de André Burian, e “Luva”, de Marcos Coelho Benjamin (uma luva cravejada de pérolas), integraram a mostra “Microlições de coisas”, em 2004. “Isso é uma aquisição, com um viés ancorado em argumentos para que não resvale em simples doação. Temos um critério para que uma obra entre e corresponda à expectativa da coleção. Tudo aqui foi criteriosamente introduzido”, comenta Rodrigues.

Para além de um registro do acervo e uma leitura do contemporâneo, a mostra também reverencia nomes que marcaram as artes no país e, principalmente, em Juiz de Fora, como Arlindo Daibert e Leonino Leão. Enquanto Daibert está representado por um quadro com ossos pintados sobre páginas de “Imitação de Cristo”, de Kempis, Leão está na tela marrom com esferas semelhantes a olhos afixadas. Completam a exposição Ricardo Cristofaro – com uma escultura que evoca sementes e dialoga perfeitamente com outra criação de sua autoria, um esqueleto de cimento inserido nos jardins do museu -, os escultores Maurício Bentes e Liliza Mendes, a gravurista Fayga Ostrower e Paulo Miranda, com sua arte povera. Para Afonso Rodrigues, Murilo, o poeta contemporâneo de si mesmo não pode nunca se desencontrar do hoje. Para quem viu o Cometa Halley, que mudou sua vida, o porvir é sempre imprescindível.

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ACERVO EM DIÁLOGO

Visitação de terça a sexta, das 9h às 18h, sábados, domingos e feriados, das 13h às 18h

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Museu de Arte Murilo Mendes

(Rua Benjamin Constant 790 – Centro)

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