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‘O último episódio’: final nunca exibido de Caverna do Dragão inspira coming of age com DNA mineiro

o último episódio
Exibição em Tiradentes reuniu equipe e público para acompanhar amadurecimento de Erik e seus amigos  (Foto: Universo Produção/ Divulgação)
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O filme “O último episódio”, de Maurílio Martins, parte de uma brincadeira: o que aconteceria se um garoto, na tentativa de conquistar uma menina, prometesse a ela a fita com o último episódio de Caverna do Dragão? A ideia do diretor partiu da própria curiosidade sobre o que aconteceria no final, que nunca foi exibido. Ele então lançou o argumento aos amigos, que juntos formam a produtora Filmes de Plástico, e em 2009 escreveu um curta com esse mote. A ideia permaneceu e foi amadurecendo junto com a produtora. Em 2025, a obra chegou aos cinemas como um “coming of age” legitimamente mineiro — “tal qual pão de queijo e doce de leite”, como define o diretor. Centrado no personagem Erik, ele precisa inventar uma saída, junto aos amigos, para a enrascada que criou, e vive nesse momento decisivo a descoberta do poder do audiovisual. Toda a narrativa é construída com a trilha sonora feita por membros da banda Pato Fu.

O filme voltou a ser um projeto em 2015, quando a Filmes de Plástico, produtora mineira, foi contemplada em um edital chamado “Mundos Criativos”. Foi então que Maurílio apresentou a ideia que já dava novos contornos e transformava o filme em um longa-metragem. Repleto de referências estrangeiras, desde a série de TV a que assistiam até o próprio gênero “coming of age” com que o filme parece dialogar, o diretor aposta na característica antropofágica do Brasil para também criar. “Acho que a grande característica da nossa cultura é como recebemos essa cultura estrangeira o tempo todo, sempre fomos e continuamos sendo. A nossa grande característica como artistas é como pegamos isso, regurgitamos e transformamos. Damos a ela novas identidades. ‘O último episódio’ é exatamente isso”, diz. Entre as referências, estava a série “Anos incríveis”(1988) e o filme “Conta comigo”(1986), ao qual o diretor cresceu assistindo.

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É percebendo a própria capacidade de criar, por exemplo, que o personagem principal encontra uma saída para o filme que se lançou — e que também vai descobrindo mais sobre a sua própria história familiar. “Esse processo de descoberta da própria feitura de um filme é inerente ao ser humano e a essa idade. Queremos comunicar e fazer as coisas. Ele une a capacidade de desenhar, com a de criar histórias e a câmera que tinha em casa, mas não sabia usar. Isso é muito bonito, porque nesse processo de descoberta ele também vai entendendo que o que mais importava era o processo em si, e que ele realmente gostava de contar histórias”, reflete. Esse mesmo processo também foi vivido pelo próprio diretor, ainda que não tivesse uma câmera em casa. Ele se lembra como essa idade foi decisiva: “O modo que eu descortinava o mundo e ficcionalizava as coisas é o que me levou a fazer filmes”.  

Mas nesse processo de incorporar o estrangeiro e trazer o DNA mineiro, “O último episódio” se fixa com um olhar íntimo para o cenário familiar. “É possível enxergar uma parcela da população nesse filme, com sotaque, prosódia, modo de se vestir. É condensador de uma série de características que são nossas, mesmo que parta de uma série de conceitos e estéticas que vêm dos EUA. É sobre como a gente transforma isso e bagunça isso”, conta o diretor. O próprio cenário brasileiro, localizado na periferia, já traz mudanças que são definitivas: “Ao colocar um território novo nas telas, colocamos novos corpos e novas formas de se ver no mundo”, diz.

Um olhar para Contagem

História se passa onde diretor cresceu, e busca íntimo para falar do universal (Foto: Divulgação)

Toda a história de “O último episódio” se passa na Contagem dos anos 1990, no Bairro Laguna, onde o diretor também foi criado. Para recriar esse cenário, ele aproveitou as histórias e os poucos registros que tinha, a maioria familiares. Assim, chegou a recriar a própria casa da infância no filme e também usou um dos únicos registros em movimento no longa, unindo uma função narrativa a uma outra que é também simbólica na trama. Mas o processo de olhar para o íntimo para falar do universal não é diferente do que muitos cineastas fazem: “Também estudamos muito, somos cinéfilos, estudamos linguagem e processos. Mas talvez o que nos diferencia é que partimos de um território que historicamente era marginalizado”, reflete. A Filmes de Plástico, responsável por obras como “Marte um” (2022) e “Temporada” (2018) e que também reúne diretores como Gabriel Martins e André Novais, usa esses estudos para trazer esse cinema “para a porta de casa, para o nosso quintal”, como conta o diretor.

Para Maurílio, esse olhar para as histórias que podem — e precisam — ser contadas na periferia também revela, nas imagens, a mudança que esses espaços sofrem. Exemplo disso, como explica, está na própria forma de construção desses espaços, fundados quando os egressos das cidades do interior compram terrenos e formam casas caracterizadas pela autoconstrução e por obras precárias. “Temos um processo ininterrupto nas periferias brasileiras de transformação: todo dia tem alguém mexendo na própria casa. Todo dia esses imóveis estão se alterando, porque, imagine, nenhuma delas foi feita com planejamento de um arquiteto ou anuência de um engenheiro”, reflete. Para ele, então, o cinema também pode ser um documento histórico dessas transformações. É o que percebe quando vê produções mais antigas das quais participou, por exemplo. “Eu brinco que as periferias existem e deixam de existir todos os dias”, diz.

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Filme em camadas 

Equipe acompanhou exibição do filme na cidade histórica (Foto: Universo Produção/ Divulgação)

Enquanto “O último episódio” termina com os personagens transformados, também é possível ver como a trajetória de Maurílio Martins e da produtora se alterou desde a concepção da ideia até a estreia do filme. “Em um filme sobre processo de amadurecimento, ele em si é também um filme fruto de um amadurecimento”, reflete. Para ele, isso aumenta a ideia de um filme também em camadas, que vai se construindo tanto para o público infantojuvenil se conectar quanto para o público adulto compreender e ir desenvolvendo novos olhares. É o que percebe que se potencializa com a trilha sonora criada por John Ulhoa e Richard Neves, da banda Pato Fu, que traz como destaque a interpretação de Fernanda Takai para o clássico “Qualquer jeito”

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