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O velho passou a existir

livia garcia roza escritora carioca lanca seu oitavo romance

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Livia Garcia-Roza, escritora carioca, lança seu oitavo romance
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Livia Garcia-Roza, escritora carioca, lança seu oitavo romance

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Há os que padecem, silenciam e, pouco a pouco, vão esmaecendo. Há os que saem às ruas, confrontam a vida e o tempo, sorvendo cada gota do vigor que lhes restam. Vivian, na casa dos 70, decidiu entregar-se novamente. Com uma urna com as cinzas do marido nas mãos, a protagonista de “Amor em dois tempos” (Companhia das Letras, 199 páginas) viaja de São Paulo a Salvador para realizar o último pedido do falecido, que gostaria de retornar à sua cidade natal. Na viagem, ela reencontra Laurinho, seu primeiro amor de infância, e os dois começam a provar os muitos beijos que a distância não permitiu que dessem. “Tudo que tínhamos naquela época era um ao outro. E nos tivemos por muitos anos, até quase nos perdermos para sempre, não fosse esse encontro totalmente inesperado. O acontecimento nos espera – sempre”, conta Vivian.

Acompanhando a personagem, a amiga igualmente idosa, Hilda, exibe todo o seu ciúme com a nova relação, além de uma boa dose de ranzinzice. No novo livro de Livia Garcia-Roza, escritora carioca, também na casa dos 70, o envelhecimento é apresentado sem a crueldade da decrepitude, mas também sem a fantasia da vitalidade integral. Os velhos de Livia têm família, o corpo frágil, mas um tanto de força para não ficarem estáticos. São retratos de um presente. “Além de tudo, era uma temeridade aonde aquilo poderia nos levar. As hipóteses são sinistras. Laurinho era (e ainda é) um cardíaco, e eu sofro de pressão alta. Eu não sabia o que poderia acontecer a um homem cardíaco no ápice de um intercurso sexual; e eu, mesmo medicada, poderia vir a ter um pico de pressão”, pensa uma Vivian incrivelmente lúcida.

Psicanalista durante décadas, Livia lança seu oitavo romance numa carreira que, em 2015, completa 20 anos. Autora de contos, como o memorável “Restou o cão e outros contos”, de 2005, ela também dedica-se à literatura infanto-juvenil, como em “Cine Odeon”, de 2002, e “Solo feminino”, de 2003, ambos finalistas no Jabuti. Dona de uma narrativa pautada pela realidade, Livia escreve como a conversar com um amigo. E conversa com a mesma simpatia. Em entrevista à Tribuna, por telefone, Livia, que é casada com um dos maiores ficcionistas de literatura policial no Brasil, Luiz Alfredo Garcia-Roza, fala do novo trabalho, de seu processo de criação e sobre o envelhecimento, quando a espontaneidade infantil dá lugar à formalidade. Segundo Vivian, é “o tempo em seu último e brutal movimento”.

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Tribuna – Mais uma vez, como já fez em “Milamor”, de 2008, você retorna à temática do amor na terceira idade. Esse tema lhe é muito caro?

Livia Garcia-Roza – O velho passou a existir atualmente. Até bem pouco tempo, o lugar dele era fora do social. Ele mesmo ia se abolindo ou as próprias pessoas deixando de se relacionar, alijando-o. Acho que o próprio velho se anula, acha que não vale mais nada. De uns tempos para cá, isso tem mudado significativamente. Houve uma verdadeira revolução da medicina, e a idade se prolongou. Isso, então, começou a ser tematizado, a ser sentido. E o que fazer com isso? Não dá para negar que estou bem de saúde, me sinto vivo, um ser desejante e interessado nas coisas, participando da vida social e cultural. Isso me toca muito, não sou uma jovem e me interessa saber como as pessoas encaram a questão.

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– E como é envelhecer para você?

– Acho que o que é muito difícil é o corpo começar a apresentar uma série de limitações. São as falências. Você fica com menos pique para fazer as coisas, a atividade se reduz. Sempre fui uma pessoa inquieta, fazendo sempre muitas coisas, e senti que a velhice começa a botar um freio. Brigo um pouco com isso, porque minha cabeça e meu corpo não se entendem.

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– A Vivian é assim, intelectualmente ativa, mas, ao cair, mostra-se já debilitada…

– Somos fortes e frágeis, mas, com mais idade, a fragilidade vai se superpondo, ganhando terreno na gente. O jeito como uma criança cai não é o mesmo como um velho. Já há uma porosidade óssea, menos encarnadura, e o corpo não responde da mesma maneira.

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– Isso mostra como a Vivian tem inspirações reais?

– Acho impossível para qualquer autor escrever algo que seja completamente distante dele. O vivido, o sonhado, o imaginado sempre transparece no texto, de alguma maneira, independentemente da intencionalidade do autor. Não quero me fazer presente nos meus livros, porque literatura é quando rompemos com um “eu” detestável que alcança outras pessoas. Mas alguma coisa é transmitida de nossa experiência pessoal, porque somos nós quem escrevemos e não outros.

– Em “Restou o cão e outros contos”, de 2005, no novo livro e na maioria dos seus textos há muito do palpável. O real te move?

– Quando vou escrever um livro não parto de um lugar determinado. Tem uns laivos, coisas que passam pela cabeça. Vou seguindo e não sei aonde vai dar. Isso é o que me interessa na literatura. Porque para mim, como autora, é, também, uma surpresa. E se não me surpreender, não tem interesse. O autor é o primeiro que deve ser tocado e ter prazer pelo texto. O livro deve estar prenhe do que há de mais forte no autor. Quando acabo um livro vou ler ele todo e, na medida em que posso me divertir ou, ao menos, achar interessante, é que penso que o livro pode servir aos outros. Tudo o que não quero é chatear o leitor. Tenho sempre a proposta de fazer e ganhar um leitor novo.

– Você disse levar um pouco de você para os livros. O que leva da psicanálise?

– Não sei dar conta disso. Fui psicanalista clínica durante 30 anos. Desse tempo, na metade dele já estava na literatura, com todo o compromisso que ela exige. A psicanálise fez um percurso em mim, tanto quanto fiz nela. Não sei o que da psicanálise resta em mim e aparece nos textos. Minha visão é emocional. Minha base é emoção, e, ao olhar para as pessoas, sinto elas. No consultório, quando as pessoas chegavam, eu sentia o que elas estavam sentindo. É uma ligação, um olhar para o outro. Sem dúvida nenhuma, ela deve fazer suas entradas em meus textos.

– Mas chega a levar casos para a literatura?

– Não, todos os casos foram encerrados inteiramente. Não esquecemos deles, porque não há possibilidade de um psicanalista esquecer um caso ou até mesmo os sonhos. Não carrego nada disso. Carrego a minha história, minha infância, minha vida, minha relação com a palavra, com o que me fez e com tudo o que fiz que fizeram a mim. Escapo a todo o momento, porque nunca estamos de posse da gente. Sendo assim, tudo pode aparecer nos meus livros.

– E a família é crucial em suas narrativas…

– A família é de uma riqueza narrativa inacreditável. Não há nada mais rico que ela, com suas tensões, conflitos, ódios. É pura intensidade, é o tema por excelência na vida. Veja só os consultórios como estão, onde todo mundo fala de família.

– E como é ter em sua família um escritor tão reconhecido?

– Ele tem um papel de marido, mas fazemos coisas muito diferentes, o que não exclui que conversemos sobre literatura, sobre autores, o que lemos e gostamos. Ele não me lê, nem eu leio o trabalho dele. Não há nenhuma interferência. Sobretudo, entramos na literatura por portas distintas. O Luiz Alfredo faz romances policiais, e eu faço outra coisa, em outro departamento. Não há conflitos.

– Em uma passagem de “Amor em dois tempos” você diz que “a análise não nos cura, mas mostra em nós o que é incurável”. Na sua literatura você também persegue isso, como quem diz: ‘Não quero passar nenhuma lição, mas mostrar a realidade’?

– Não tenho nenhuma mensagem a dar, nem “siga meu exemplo”, nem moral nenhuma. Apenas mostro uma mulher com seus 70 anos, que ela diz que não tem, e os pensamentos dela, seus embates e suas confusões. Não prego: “Faça como a Vivian e será feliz”.

– E ela anda, constantemente, com a morte em uma urna. Falar de velhice prescinde abordar a morte?

– É a proximidade, muito maior do que quando se é jovem. Só que isso pode acontecer a qualquer um, em qualquer idade, mas quando se é jovem, isso não é tão presente no pensamento. A morte é eventual, mobiliza, mas não a ponto de ficar persecutória. Na velhice, a morte é uma presença inegável, não dá para achar que, aos 70 anos, não vai morrer. Há formas e formas de lidar com isso. Tem pessoas que ficam adoecidas, outras partem para a vida, como é o caso da Vivian. Ela é uma pessoa ligada à vida. E isso não é mensagem, é algo que sinto, também sou ligada às coisas vitais. Não quer dizer aproveitar, mas viver, simplesmente. Há coisas que dão prazer, e namorar é uma delas, senão a mais importante delas. A Vivian faz isso, namorando Laurinho, com uma amiga esquisita…

– É uma mulher que poderíamos encontrar na rua?

– Atualmente sim.

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