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‘Há algo de podre no reino desta Dinamarca’

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Para o ensaísta e escritor Antonio Hohlfeldt, Maria Helena Kühner, talvez seja a segunda "senão a principal autora contemporânea de teatro infantil no Brasil", conforme publicado no jornal "Correio do Povo", de Porto Alegre, em março de 1976, fazendo referência ao texto "Anchieta". Com a peça, ela recebeu, em 1971, o Prêmio do Serviço Nacional de Teatro – SNT. Juiz-forana de nascimento, Maria Helena é hoje membro de júris de diferentes concursos de dramaturgia e do Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil, o que dá a ela notoriedade de sobra para opinar sobre o que é produzido, nos palcos, para os pequenos. "Para chegar a ser um adulto, é preciso crescer bem", constata. "Nesse ‘crescer bem’ e tornar-se um adulto útil à sociedade, são fundamentais as experiências infantis, o que exige de criadores e produtores de teatro infantil uma clara consciência do que pode significar o jogo teatral nesse processo de crescimento da criança."

Em entrevista à Tribuna por e-mail, a escritora falou dos temas trabalhados na dramaturgia com as crianças, as causas possíveis da perda do pequeno espectador e os caminhos para a encenação voltada para a meninada. Entre suas publicações, estão os recentes livros "Teatro para crianças e jovens (de todas as idades)" e "SobresSaltos", lançados em janeiro e julho de 2013, respectivamente, com selo da Vertentes Cultural, além dos mais antigos "Teatro em tempo de síntese" (Paz e Terra), prefaciado por Sábato Magaldi, e "O teatro dito infantil 1" (Cultura em Movimento). Com um olhar singular para a dramaturgia popular, comandou o Teatro Operário de São Cristóvão, na capital fluminense. Sua história de um professor universitário torturado e seus conflitos, contada em "Represa", chegou a ser censurada pela ditadura militar, em duas tentativas de publicação: em 1965 e 1979.

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Tribuna – O teatro contemporâneo está tão performático, tão experimental, que o bom texto, em muitos casos, tem ficado em segundo plano. No teatro infantil isso também acontece?

Maria Helena Kühner – É evidente a falta de dramaturgia no caso daqueles que na ausência de respostas quanto a "o que dizer" contentam-se em dirigir seus esforços no sentido de "como dizer", concentrando-se no apuro e na variação de recursos técnicos de todo tipo, de efeitos visuais, sonoros, no uso de formas animadas, figurinos, adereços etc. Resultam daí espetáculos em que se veem atores com toda uma gama de recursos lúdicos/teatrais, em termos de corpo, voz, movimento, gestual, mímica, capacidade de imitar, de caricaturar, de tornar presente um personagem com uma bem-humorada visão crítica, de introduzir uma situação curiosa e interessante, de jogar com o improviso, mas cujo trabalho se perde ou se dilui porque não conseguem se equilibrar no fio condutor de um roteiro pobre, em que a estrutura cênica é primária, esquemática e repetitiva, em que a situação dramática não evolui, em que a fabulação é débil e insuficiente, os conflitos inexistem, a ação dramática, pouco ou nada desenvolvida, é substituída pela ênfase em diálogos bobos, cheios de gags, piadas, brincadeiras supostamente engraçadas, ou por falas em que o lugar-comum é a tônica, e os clichês se repetem, assim como se repete na cena o uso de recursos fáceis, macaquices e gracinhas, ou provocando e instigando a plateia infantil a uma gritaria de macacos de auditório de TV, ou de animação de festinhas de aniversário, para tentar prender o público, que muitas vezes responde com dispersão e desinteresse crescentes.

 

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– Essas poderiam ser causas da perda do pequeno espectador do teatro?

– Isso vem diminuindo a faixa etária do público infantil, que abandona o teatro como "tolo e sem graça" ao chegar aos 6 ou 7 anos de idade. Os produtores caça-níqueis, com suas montagens exclusivamente comerciais, veem nas crianças apenas uma clientela mercadologicamente compensadora, na qual acham que vale a pena "investirem" – até com uma produção às vezes dispendiosa ou visualmente rica. Porém, felizmente, existe também a busca de uma nova dramaturgia, textual e cênica, cujas tentativas mais relevantes se iniciam em termos de renovação/inovação temática, de um humanizador resgate de elementos esquecidos ou desqualificados por esta racionalista "civilização ocidental cristã:" o imaginário, a fantasia, a afetividade, o lirismo e um humor lúdico e crítico, muito próximo, por vezes, da visão crítico-cômica da cultura popular.

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– As crianças conseguem assimilar bem uma informação contada de forma não linear. A internet tem muita responsabilidade sobre isso.

– Estamos em uma fase de experimentação, em que a fusão de linguagens, quando ou se bem articulada, pode contribuir para uma escrita cênica dinâmica e rica, ou um espetáculo multimídia atraente e vivo. Mas pode também gerar uma con-fusão que torna a ação dramática um mero fiapo condutor, incoerente, cheio de cortes, nós, inserções e desvios dispensáveis e indesejáveis. A influência da linguagem de TV e da internet existe, e não apenas em termos de linearidade, mas também na impostação, na linha de diálogos, na tipificação de personagens, nas músicas e suas letras, características dos inúmeros seriados americanos de TV voltados para a faixa adolescente e jovem. Pena que, com isso, mantenham igualmente sua superficialidade, "borboleteando" de um tema a outro, sem nada desenvolver ou aprofundar.

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– As crianças estão se dando conta dessa superficialidade?

– O adolescente já é crítico e está se dando conta de que "há algo de podre no reino desta Dinamarca", que é o planeta Terra atual. Há pouco tempo, a pedido de um grupo de adolescentes, entre 12 e 15 anos, traduzi para eles as letras de algumas músicas do Sepultura, do Rage Against the Machine, do Motorhead e outros, cujos temas falam das próprias estruturas da sociedade atual, da família. Muitas dizem "nunca vi a cor dos olhos de meu pai", ou que "vivem num inferno"; da escola em que "o professor se sente um bobo diante de alunos sentados, ouvindo, indiferentes, a merda que ele é obrigado a ensinar", sem que nada do que é aí dito "vá mais dentro e mais fundo"; de um sistema em que "o deus é o Dinheiro", em que "o lucro e o roubo decidem nossos destinos" e "nos conduzem à morte"; sistema que se pretende "dono da verdade e das vidas", mas, "imperador das mentiras", põe toda uma "rede" (TV, imprensa) em ação para manter as pessoas "tranquilas". Dá para entender porque, diante desse quadro, afirmam: "Por isso não venham me dizer que isto ou aquilo não deve ser feito". Traduzindo e comentando com eles, vendo aqueles rostos adolescentes e atentos diante de mim, eu pensava: há uma rejeição a isso, ainda que intuitiva ou sem bússola, há perguntas – mesmo que ainda sem resposta, há uma busca, que é válida e sadia – e se expressa no próprio ato de querer saber o significado daquelas letras.

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– Hoje não há muita diferença entre os temas trabalhados com crianças e adultos. Isso é uma tendência?

– As mais diferentes questões estão sendo contempladas: o amor, a morte, a sexualidade, o meio ambiente, o trabalho, a preservação do planeta, a vida no circo, a situação escolar, a brincadeira, o jogo, o mistério, os preconceitos, as relações familiares e sociais etc. Também tem ocorrido a ligação com a cultura popular ou o apelo ao folclórico. Um concurso recente do Centro Brasileiro de Teatro para a Infância e Juventude, que faz parte de uma rede de 73 países, teve como proposta os "temas-tabus" no teatro infantil. E houve mais de 120 textos inscritos, ganhando um, lírico e comovente, tendo como figura central um menino tentando entender a morte do irmão. Se entre as mudanças que ocorrem estamos passando de uma sociedade da diversão e consumo a uma sociedade da comunicação, em que a internet é um dos instrumentos básicos, entendemos melhor que a própria diversão é uma versão outra das coisas, é mais que simples entretenimento.

 

– Quais seriam os caminhos do teatro infantil?

– A avaliação de um texto ou espetáculo destinado à criança teria de partir de uma indagação específica e exigente, que seria: o que podem fazer as crianças com o que lhes está sendo oferecido para organizar, interpretar, ampliar e enriquecer suas experiências? Numa sociedade e país em que 42% da população têm menos de 15 anos – o que a indústria cultural ligada à literatura, ao cinema, à música e ao vídeo já percebeu -, falta ainda ao teatro e seus criadores progredir no sentido desejado e possível com trabalhos que sejam um presente para o espectador de todas as idades.

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