Foi movida pela curiosidade de entender o que aquele artista queria dizer com aquela obra, que estava fora de um território de uma experiência possível para uma pessoa que tinha pouco contato com a arte, e pelo interesse de reconhecer aquilo que me causava estranhamento, que eu me aproximei do trabalho do Arlindo Daibert, reflete Janaína Melo. A historiadora, com atuação em crítica de arte, curadoria, pesquisa e ensino de história da arte e uma das organizadoras do livro Arlindo Daibert – depoimentos, da série Circuito Atelier, esteve em Juiz de Fora, na sede administrativa do Museu Mariano Procópio, no último dia 28 de setembro, para ministrar a palestra Ações educativas como práticas inclusivas em museus. Precisamos pensar nas próprias noções da ideia de acesso, encontro, e do museu como uma plataforma de ativação de experiências.
Durante seis anos, Janaína foi curadora de arte e educação do Instituto Cultural Inhotim, em Brumadinho (MG), assistente curatorial do programa Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural por um ano, e, atualmente, é gerente de educação do Museu de Arte do Rio (MAR). Inhotim foi uma experiência definitiva, porque pude vivenciar a percepção do que existe de possibilidade de relação de arte e sociedade, arte e cidadania, arte e desenvolvimento cultural, arte e proposição educativa. O Itaú Cultural me proporcionou ter acesso a ativações que são locais e que ampliam muito nossa perspectiva do que é Brasil, cultura e do que se produz neste país.
Tribuna – Como a Escola do Olhar, coordenada por você, vai trabalhar para alcançar os objetivos propostos pelo Museu de Arte do Rio (MAR)?
Janaína Melo – O MAR é um nome muito propício, pois é uma sigla que nasce como uma palavra muito importante dentro do contexto da relação do homem com o espaço. É um local de deslocamento, da experiência de vida, do território público por excelência, porque na praia todos somos iguais. Nesse sentido, um programa que vem a ser instalado nesse espaço tem que dar conta desta cidade: na diferença, nos atravessamentos, nos embates, nos encontros e nas possibilidades de relação com esse município. A ação da Escola do Olhar vai implantar plataformas de encontro, pensando mesmo em estação de embarques entre pessoas, lugares e situações. O objetivo é, com a arte e a experiência de arte, instaurar relações com o Rio de Janeiro, que é mutante, poroso, diverso, conflituoso e extraordinário.
– Há quem diga que o crítico de arte já não existe mais, que ele foi substituído pelo curador. Como você conceituaria a crítica de arte?
– Acredito que a curadoria é um exercício ampliado da experiência crítica, uma vez que ela introduz, por meio da exposição, da pesquisa e da relação com o artista no desenvolvimento mesmo do trabalho, uma investigação analítica. O acompanhamento crítico se lança a partir de outras perspectivas e não mais ancorado única e exclusivamente sobre as noções de gosto. Ele tem uma ressignificação do seu lugar, mas não desaparece, se reinventa.
– O que mudou na maneira de se avaliar uma obra de arte?
– A crítica tem que tecer um juízo de valor sobre um objeto. Contudo, a maneira como esse juízo se instala já não é mais por certo ou errado, bom ou ruim, bonito ou feio, ou se está dentro ou fora de uma dada linguagem artística e, sim, por um processo de percepção de que ambiência é essa, construída pelo trabalho. É preciso pensar que tipo de relações essa obra opera, tanto em conformação com as pesquisas no âmbito da produção artística atual, quanto também com a história da arte ou com a própria política, a sociedade e a cultura como um todo. O Frederico Morais reúne em seu livro uma série de significados para o que é arte, com várias citações de artistas, curadores e filósofos sobre esse conceito. Uma das citações diz que arte é o que eu e você entendemos por arte. Essa definição é muito interessante, porque não se trata de um livre fazer. Ela me passa que o entendimento ao conceito de arte é um diálogo. Nessa conversa, algo que, inicialmente, pode ser estranho para mim, de repente, pela nossa discussão, pode passar a ser interessante.
– É possível falar em tendências para a arte contemporânea?
– Não conseguiria usar a palavra tendência para pensar a produção contemporânea. É possível falar em tendência quando você entra na internet? No ambiente virtual, você vê ‘n’ possibilidades de algo. O que difere é a sua escolha, o que você quer assistir ou como você se relaciona com esse objeto. Assim como a vida contemporânea, a produção atual não segue uma determinada orientação e, sim, possibilidades.
-Por que as produções contemporâneas causam tanta inquietação?
– No momento em que você se dedica e suspende este nosso tempo cotidiano e instala um novo tempo – que é o da maneira de ativação da experiência, seja diferença de cor, de forma, de espaço, mas também do tipo de articulação que um trabalho pode se dar no processo de deslocamento, de alteração de percepção, ou de discussão política -, a produção artística produz inquietações, não só a contemporânea. É uma característica da arte, e acho que é isso que faz a arte ser arte – ser um espaço de suspensão da nossa relação cotidiana com o mundo e com as pessoas.
– Como você avalia o cenário da arte contemporânea brasileira no contexto mundial?
– O Brasil é uma grande referência na arte contemporânea. Os artistas brasileiros, principalmente, a partir da virada dos anos 1990 para os anos 2000, começaram a ter uma presença forte no cenário da produção atual por meio da participação em exposições, da realização de residências e no desenvolvimento de mostras internacionais. Começou também a haver um interesse por parte da crítica, da produção teórica e curatorial internacional sobre aquilo que é produzido no Brasil, não só atualmente, como historicamente. Artistas como Lygia Clark e Hélio Oiticica, que já foram identificados como nomes importantes no cenário da produção artística contemporânea do século XX, vêm atrelar-se a outras referências, como Ernesto Neto, Tunga, Lygia Pape e Paulo Nazareth.
– De que forma Arlindo Daibert foi determinante para sua atuação no campo das artes?
– Quando estava na graduação, não entendia, não reconhecia a obra do Arlindo. Era um trabalho da série Babel, feito no início dos anos 1990, em que ele discute o caos na comunicação no período pré-internet. Foi por meio dessa série, que eu comecei a querer estudar arte. No momento em que passei a entender essas significações é que compreendi que existia algo no contexto da arte que era para além da visualidade e que despertava um campo de conhecimento e de reflexão sobre a sociedade e o mundo no qual vivia.
