Certo conto indígena define o homem como a morada de dois cães díspares: um feroz e outro gentil. Da infância à velhice, qual deles normalmente sobrevive? Aquele alimentado pelo dono. A narrativa – mencionada pela diretora de Educação e Cultura do Instituto Ecofuturo, Christine Fontelles – evidencia o poder da escolha quando se trata da formação do indivíduo. Nas paragens culturais, são comuns as veredas bifurcadas. Com dúvidas sobre que direção seguir, muitos pais não conseguem orientar a vivência artística dos filhos. Se alguns exageram na dose, outros não proporcionam experimentos variados. De acordo com Christine, o melhor atalho é perceber as preferências da criança. "O adulto precisa ‘ler’ o filho e respeitar seus limites, identificando receios e afinidades."
O segundo passo, como acrescenta a diretora, é mostrar possibilidades. A psicóloga e psicopedagoga Vivian Werneck concorda e não exclui nem mesmo televisão e internet. "Claro que é sempre necessário saber dosar", pondera, destacando que a web amplia o interesse infantil por assuntos diversos, apresentando-se como facilitadora do aprendizado. A bacharel em história e artista plástica Doroti Nogueira Mira conta que procura oferecer à filha Vitória, de 7 anos, a chance de ouvir bons trabalhos musicais voltados às crianças. Apesar de apreciar nomes como Tim Maia, Chico Buarque e Michael Jackson, Vitória também é fã de Luan Santana. "Eu não censuro nada, mas tento indicar o que não está na mídia, como Ponto de Partida e Palavra Cantada. Também valorizo atrações com qualidade estética."
Encantamento e fruição
Como observa Christine Fontelles, educar é insistir com paciência. Por isso, ela sugere que os pais não proíbam qualquer contato, mas encontrem novas formas de encantamento, possibilitando aos pequenos a aceitação de vários mundos. "Eles não são bobos. Aos poucos, vão aprendendo a escolher por si mesmos." Segundo Vivian Werneck, boa estratégia é fazer de um passeio cultural um passeio completo, com brincadeiras, lanche e presença de amigos. "É essencial direcionar o programa conforme o interesse do filho. Não adianta querer levá-lo a um sebo, sem ventilação e cheio de livros entulhados." E quando a criança se recusa a ir a um museu, por exemplo, alegando preferir o futebol? Vivian aconselha bom senso. "Se ela sempre assiste ao futebol e nunca vai ao museu, está na hora de equilibrar."
Para a arte-educadora Gabriela Machado, o comportamento dos pais deve partir de desejos verdadeiros. De acordo com ela, não adianta forçar a barra e mandar os meninos ao teatro apenas para aliviar a consciência. Como complementa a professora da Faculdade de Educação da UFJF Hilda Micarello, os adultos precisam investir seu próprio tempo em situações autênticas e compartilhadas.
Por acreditar no ritual artístico como impulso transformador do ser humano, Gabriela busca ser espectadora de muitos eventos, levando com ela a filha Mariah, de 3 anos. Nessas ocasiões, evita dar muitas explicações. "A arte está no campo da percepção, não no da pedagogia. O que faço é escolher e escutar, mas a experiência é da Mariah." Christine Fontelles atesta que as vivências culturais não necessitam mesmo se assemelhar a visitas monitoradas. "Mediar, aqui, significa observar e compreender as reações da criança. O resto é fruição."
De geração em geração
Ainda que os adultos promovam diálogos em casa, o espaço comunitário é valioso para a educação dos pequenos, conforme menciona Gabriela. A arte-educadora – que prefere tardar o contato de Mariah com a TV – compreende a cultura como uma oportunidade de acesso às próprias raízes e referências históricas. Por isso, afirma que ela precisa ser transferida para o cotidiano em todas as idades. Desde a infância, a jornalista Gilze Bara acompanha a vida artística da cidade, influenciada pela irmã Ellen Bara, 13 anos mais velha. "Ia ao cinema e ao teatro. Meu primeiro show foi o de Gilberto Gil no Sport", lembra Gilze. De acordo com Ellen, o estímulo foi algo natural, já que ela também se interessava pela questão.
Instigada por suas experimentações infantis, Gilze procura, hoje, rechear o repertório das duas filhas, Nina, 15 anos, e Elisa, 7 anos. "A arte burila o caráter e a sensibilidade", justifica. Com a passar do tempo, a situação se inverteu. Nina começou a fazer teatro e encorajou a mãe a realizar um sonho antigo. "Decidi que era a hora e também me tornei atriz. E o melhor, a Elisa foi junto." Hoje, as três integram a Companhia de Atores Academia.
Busca pela satisfação infantil
Nunca é tarde para ocupar uma poltrona na plateia. Se os adultos não são espectadores, podem ser incentivados pelos filhos. "Importante é descobrir os prazeres de viver aquele momento", avalia Christine Fontelles, informando que o Instituto Ecofuturo disponibilizou para download a publicação "Passaporte da leitura e da escrita para qualquer lugar do mundo" (www.ecofuturo.org.br/diadaleitura), com dicas sobre como inserir a leitura na vida de crianças e jovens. A iniciativa é uma campanha para o Dia Nacional da Leitura, que coincide com o Dia das Crianças, 12 de outubro.
Na opinião da psicopedagoga Vivian Werneck, diversos pais ainda não se preocupam com a formação cultural dos pequenos. Muitas vezes, como acrescenta a professora Hilda Micarello, o problema é a rotina corrida. "As pessoas confundem o ato de oferecer variadas experiências com o de comprar muitas coisas: livros, jogos, DVDs. Tudo isso só se transforma em experiência se existir alguém junto à criança para dar sentido." Christine assevera ainda que a arte é a responsável pela alfabetização estética do ser. E finaliza: "as satisfações que se tem na infância são sempre buscadas, mais adiante, pelos novos adultos, prováveis espectadores".
