Da cama em que nos deitamos à roupa que vestimos. Da água que bebemos – filtrada, tratada, em copo de vidro ou plástico – ao ar que respiramos – condicionado ou refrigerado. Vivemos em um meio ambiente artificial. Tudo que nos cerca foi projetado, assevera o designer e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Gilberto Strunck. O design está presente diuturnamente em nossas vidas, afirma. Desvinculando-se de sua essência primordial, servir à indústria e à tecnologia, figura como reconhecido segmento da cultura e dialoga, em momentos específicos, com as artes. Em eventos e intervenções urbanas – a exemplo da Design Week, de São Paulo, posterior às edições de Nova York, Paris e Milão -, o setor segue por duas vertentes, a do mercado e a da manifestação cultural. Neste mês, é a vez de Belo Horizonte sediar a Bienal Brasileira de Design, que promete reunir a vanguarda do setor no país.
A renovação estética ganhou as galerias e abriu portas às discussões. Afinal, design também é arte? O que faz com que ele esteja hoje em galerias é o fato de que os objetos de design se tornaram objetos de desejo. Esse diálogo entre bem de consumo e valor estético acontece há mais tempo. O movimento pop art comprova isso, avalia a coordenadora e professora do curso de Design Gráfico da Faculdade Estácio de Sá, Joana Franco. O aprimoramento do segmento, desde os primórdios, flertava com as chamadas belas artes, incorporando movimentos como art nouveau, futurismo e cubismo. O pintor e desenhista Toulouse-Lautrec é tido por alguns como um dos pioneiros do setor, com seus traços impressionistas nos cartazes do célebre Moulin Rouge, em Paris, que seguem como referência na contemporaneidade.
Reconhecido como segmento do Ministério da Cultura em 2009, o design ganhou direito a representante no Conselho Nacional de Cultura. O secretário de Articulação Regional do MinC, João Roberto Peixe, justificou a inclusão por seu papel de decodificação da cultura, importante por sua capacidade de refletir a cultura de seu tempo e permear a produção cultural. Essa mudança de enquadramento do design faz parte hoje de um amplo redirecionamento estratégico do governo para o crescimento do país, pois o design já é visto como um grande aliado da economia criativa. Ele está no MinC, acredito eu, porque qualquer político esclarecido entende que a cultura se torna pilar da inovação, justifica Joana, que vê o design como a ferramenta de construção desse pilar, por ser um dos meios de promover o desenvolvimento local.
Toda informação – o que inclui a possibilidade de se projetar algo – tem a ver com a cultura, defende Strunck. Mesmo o que é industrializado, produzido em série, expressa a cultura da sua região, ou, até mesmo, do seu país, argumenta. A economia criativa, chancelada pelo MinC como espaço do design, é uma expressão já usada pelo primeiro mundo, de acordo com o presidente da ONG LADesign, Rogério Batista. É a importância a ser dada ao que tem valor de estima, ao que faz um lugar ser lembrado ou associado pelo que produz. Essa nova proposta simboliza o desafio do ministério de liderar a formulação, a implementação e o monitoramento de políticas públicas para um novo desenvolvimento fundado na inclusão social, na sustentabilidade, na inovação e, especialmente, na diversidade cultural brasileira, conclui.
É forma, mas também função
Contudo, os designers são categóricos ao afirmar que design não é arte. Acredito que a essência do design, o que o diferencia da arte, ainda se mantém vivo. Design não é só forma, é forma e função. A estética pura, sem a funcionalidade, não é design, ressalta Joana. O design agrada tanto hoje exatamente por ser completo. A estética não é só superficial, mas intrínseca, pois nossa percepção não vem só do olhar, mas também do uso, da satisfação da função, especula.
Contudo, no âmbito do mercado, o design vai além da funcionalidade. As pessoas compram celulares não só pela sua função. A beleza dos aparelhos atrai muito. A exposição na vitrine da loja e a embalagem também são fundamentais no ato da escolha, sugere Batista. O design hoje faz escola no Brasil, porque é o lugar da estratégia e não só do logotipo bonitinho. É a mais importante ferramenta da competitividade para quem a usa e para quem a compra.
As intenções da criação também são levadas em conta na hora de excluir o setor do universo das artes. O artista se compromete apenas com ele mesmo e com a sua criação. Está em um momento só seu. Se ele vai vender ou ficar conhecido por milhões é outra história. Já o designer deve estar sempre tentando solucionar problemas, ou seja, ele pensa nos outros, em muitos outros que vão comprar e usar o que projetou, levanta Strunck.
Criatividade e sociedade
A criatividade propulsiona tudo, e é através do olhar que a alimentamos, lembra Rogério. Em verdade, os movimentos sociais deveriam propor uma educação desse olhar, função que, segundo ele, permitiria que fossem feitas as escolhas certas em meio a tanto consumo. Neste sentido, existem várias ações referentes ao desenvolvimento local, voltadas às questões sociais e ao incentivo de pequenos e médios empreendedores. Indo um pouco além, a Ong LADesign pretende criar uma imagem – no sentido mais amplo da palavra – do lugar onde estão seus empreendedores e do que é produzido por eles. Sempre usando a ferramenta que melhor pode corresponder à altura: o design, esclarece Rogério.
O fato de as artes sempre estarem na vanguarda dos acontecimentos faz com que pareça que outros campos a adentrem, segundo Joana. No fundo, as artes chegam e experimentam, depois os outros campos se apropriam dessa experimentação e agregam outros valores. Mas não que esses outros campos sejam acoplados ao campo das artes, e sim o contrário, propõe. Dessa forma, cada vez mais as artes se infiltrariam nos diversos campos: do design, da engenharia, da comunicação, da informática, entre outros. Ela se dilui em um sentido de campo com limites e cercas e se amplifica em termos de força, pela inserção e colaboração com as demais áreas, finaliza.
