
Murilo Mendes transcendia para conseguir conviver com a angústia. Deslocou-se até a poesia para olhar a dramática Segunda Guerra. Deslocou-se, literalmente, até a Europa, para observar a humanidade na reconstrução durante a Guerra Fria. Em pânico, termo usual em sua escrita, o poeta se reinventava nos anos 1940 e 1950. Deixava de lado a faceta cristã para abarcar um tom universalista em suas criações. No próximo dia 14, um dia após sua morte completar 40 anos, chegam às livrarias três de suas obras que definem um escritor arrojado ao se atormentar com o mundo em que vive. “As metamorfoses” (com poemas de 1938 e 1941), “Siciliana” (escrito em 1954 e 1955) e “Tempo espanhol” (projetado entre 1955 e 1958) – os dois últimos lançados num mesmo livro – compõem a nova safra de reedições da obra completa, coordenada pelos pesquisadores Júlio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura e pelo editor da Cosac Naify (nova casa de Murilo) Milton Ohata.
Publicados em 1959, os três títulos apontam para o juiz-forano em consonância com seu tempo. No mesmo período em que “As metamorfoses” era redigido, Manuel Bandeira se renovava com “Lira dos cinquent’anos” (1940) e Carlos Drummond de Andrade com “Sentimento do mundo” (1940). Ao chagarem às prateleiras, “Siciliana” e “Tempo espanhol” dividiam espaço com um novo João Cabral de Melo Neto em seu “Quaderna” (1960). “Não sou meu sobrevivente e sim meu contemporâneo”, dizia Murilo, dando ainda mais sentido ao que sua trajetória artística indica.
Em meio aos músicos
Logo na abertura de “As metamorfoses”, o poeta surpreendeu pela dedicatória: “Ao meu amigo Wolfgang Amadeus Mozart”. Reunindo imagens distintas, como nuvens e pedras, amantes e subterrâneos, peixes e morte, Murilo oscila entre o pessimismo e o encantamento. “O poeta futuro apontará o inferno/ Aos geradores de guerra,/ Aos que asfixiam órfãos e operários”, escreve. De acordo com o estudioso Murilo Marcondes de Moura, no livro, a música funciona em contraponto à devastação da luta armada. “As artes se comunicam: a música, pela mediação da dança, se associa ao plástico. A dimensão lírica e a atmosfera de devaneio predominam, criando novo contraponto tanto discreto quanto poderoso à injustiça social e à guerra”, analisa em posfácio.
Em meio às viagens
Em 1952, 42 anos depois da passagem do Cometa Halley, seu grande despertar, Murilo alça voo rumo à Europa, onde permaneceu até a morte. Primeiro, percorre a Espanha e depois ganha a Itália. Os poemas que mapeiam seus deslocamentos também lhe apresentam deslocado de um universo no qual nunca se sentiu extremamente confortável. “Não são apontamentos de um viajante descompromissado, mas, sim, informes de um mundo ainda em reconstrução e já de novo em perigo”, pontua o poeta e crítico literário Eduardo Sterzi em posfácio da nova edição. “O mundo explodiu – e Murilo parece querer oferecer, aos seus leitores, mapas que possam servir de orientação poética e política para quem se disponha a percorrer também, somente através dos textos ou in loco, aquelas paisagens”, completa. Sobre Madrid, o poeta cartografa: “És o posto cotidiano/ Com dimensão definida,/ Onde se aprende bem cedo/ O rude ofício da vida”.

