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Os tempos sempre são de guerra

lancado ontem site do grupo divulgacao grupodivulgacaocombr traz repertorio composto por mais de 180 espetaculos marcelo ribeiro

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Lançado ontem, site do Grupo Divulgação (grupodivulgacao.com.br) traz repertório composto por mais de 180 espetáculos  (Marcelo Ribeiro)
Lançado ontem, site do Grupo Divulgação (grupodivulgacao.com.br) traz repertório composto por mais de 180 espetáculos (Marcelo Ribeiro)
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Alfinetes são comuns no Divulgação. O grupo teatral que prepara seu próprio figurino sempre alfinetou o próprio tempo. “Cancioneiro de Lampião”, a primeira montagem da companhia, em 1966, com música idealizada e executada por Sueli Costa, não se bastou na história de Maria Bonita e Virgulino Ferreira da Silva. Morria com eles, na encenação, as crendices populares, mas, como a força do cangaço, ressurgiam como símbolo de resistência e esperança. “Romeu e Julieta”, última das criações do grupo, lança mão da tragédia de Shakespeare para falar de uma sociedade partida ao meio, dividida em seus anseios e certezas. Para cada aflição, um alfinete.

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“Temos um plano de visão. A gente luta porquê? Sou jornalista, então luto pela verdade”, diz o diretor, ator e dramaturgo José Luiz Ribeiro, professor dentro e fora do palco. “O Zé Luiz não consegue se desvincular de um inconformismo. Mas nem tudo é exatamente político. E nada é gratuito. Como o teatro, que não é gratuito e tem sempre algo em que vai se esbarrar e incomodar”, confirma a atriz Márcia Falabella.

Autor de “Cancioneiro de Lampião”, o dramaturgo cearense Nertan Macêdo encantou-se com a interpretação da trupe juiz-forana e tentou ajudá-los na estrada. Elogiou o grupo com um general, que se compadeceu com a falta de sede dos atores e ofereceu o casarão secular do Círculo Militar, na Avenida Rio Branco. Mas era 1968. Como usar alfinetes?

Era tempo de despedida de um bravio Martin Luther King, assassinado pelo conservadorismo que crescia a passos largos mundo afora. Era tempo de uma Primavera de Praga, de uma França em protestos, de uma evolução da ditadura militar brasileira, culminando com a instituição do Ato Institucional nº 5, com todos os seus cerceamentos. Era o ano que não terminou, e o Círculo Militar era o único espaço que restava.

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“Levamos uma paulada da esquerda: Como eles vão fazer García Lorca no Círculo Militar?”, recorda-se José Luiz, que sacou seu alfinete, forçadamente e estrategicamente mais sutil, e colocou frases do dramaturgo espanhol, reconhecido socialista, logo na entrada do lugar. “Montamos um palco em cima do tablado do exército, colocamos cortina, o pessoal trocava de roupa no vestiário da piscina. Foi um sucesso”, lembra o diretor, que conseguiu “gritar” até mesmo na casa do inimigo.

“A gente não faz partidarismo. Nosso trabalho é o teatro, que é político por natureza”, atesta Márcia. “A gente precisa ter uma visão holística do tempo, o que é político, mas não partidário. Precisamos saber a importância de ver os erros”, concorda José Luiz, para logo indignar-se com a política atual, seja ela federal, estadual, municipal ou acadêmica, todas alvos de suas recentes peças.

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“Fiquei oito meses estudando a vida do Fernando Henrique Cardoso para fazer ‘O príncipe Rufião’ (1998), até descobrir que a família dele era ligada ao Duque de Caxias, que, por sua vez, era ligado a Joaquim Silvério dos Reis”, conta o dramaturgo, que ao mesmo tempo que se volta indignado para a esfera do poder, alfineta a sociedade contemporânea em suas mais cruéis facetas.

 

Iluminar com resistência

Se “Diário de um louco”, de 1969, mostrava-se atual ao criticar uma “sociedade desumana, que não permite a realização dos indivíduos”, segundo as palavras do folheto da época, “Cuidados de amor”, de 2014, revolta-se contra a mesma desumana sociedade que recusa seus velhos. Para cada dia, um alfinete com o desejo de fazer acordar.

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Qual Brasil o Divulgação retratou? “Todo. Nós pusemos mordaça nos anos de chumbo, em ‘Electra’, em dezembro de 1968, AI-5”, responde o diretor. O que mudou? “Naquele tempo as pessoas entendiam”, diz o homem que se fez autor sem dizer adeus ao jornalismo. “Os textos dele são muito críticos e muito conectados com a realidade que vivemos”, aponta Márcia Falabella.

Para o cronista do teatro, aos 50 anos de Divulgação, iluminar o palco exige um tanto de resistência não apenas do fazer, mas do discurso. “É o que o Humberto Eco fala: o Facebook deu voz à ignorância, não há filtro. Há um sofrimento enorme, as pessoas estão perdendo o humor, estão partindo para o tapa em dez minutos. Estou cada vez mais calado, tento não reproduzir nada no Facebook. Isso é uma censura, para quem faz arte é o que há de pior no mundo. O coração fica amarrado”, contesta José Luiz.

“Vejo um momento de intolerância. É uma loucura, não podemos falar nada. Não podemos falar da cabeleira do Zezé, nada mais. Tem que acabar com a música popular brasileira, então, porque existe um espaço em nossa cultura que se faz através do riso, e o riso é que segura a sociedade”, defende o dramaturgo, homem de regras, que vão da bilheteria à boca de cena, certo de que cada gesto representa um passo em busca de um modus operandi social ideal.

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“Ética é uma palavra que uso. Ética como um conjunto de regras que permite um funcionamento. Aqui chegamos na hora, porque se temos que morrer às 21h, vamos morrer às 21h. O público sabe disso. Hoje a sociedade foi abrindo mão dessas coisas, e isso que aprendemos aqui levamos para todos os lugares”, emociona-se Márcia Falabella, conhecedora de que todos os alfinetes espalhados pelo Divulgação sonham com um tempo onde as guerras serão passado, apenas.

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