A verdade é que, diante da morte, a gente nunca está realmente conformada. É por isso que penso que o que me leva a escrever é uma vontade de ultrapassar-me, ir além da mesquinha condição de finitude, disse Hilda Hilst ao repórter Delmiro Gonçalves em entrevista publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 1975. Apesar de algumas tentativas em elucidar seu processo de criação e suas mais íntimas emoções, a escritora conheceu a morte, em 2004, sendo considerada uma das mais obscuras e incompreendidas intelectuais do país. Com organização do pesquisador Cristiano Diniz, Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst(Editora Globo, 239 páginas) chega às prateleiras para preencher uma imensa lacuna sobre a personalidade e a obra da autora de mais de 30 títulos, entre poesia, prosa e teatro.
Com um acabamento luxuoso, baseado nas cores preta e vermelha, capa dura e diversos desenhos inéditos feitos por Hilda ao longo da vida, o livro agrupa 20 entrevistas feitas cara a cara com a escritora. Entre os entrevistados, nomes como o do escritor Caio Fernando Abreu e do crítico José Castello. Uma torrente de informações sobre suas ‘excentricidades’ se cristalizou de tal forma que o que vemos se destacar hoje são os mesmos aspectos construídos nos anos 1990: dona de uma inteligência incomum, sem papas na língua, ousada, desconcertante, provocativa e… ‘louca’, comenta o organizador em apresentação da coletânea.
Segundo Diniz, há uma cicatriz deixada pela ausência de atenção maior à obra e às ideias de Hilda. Nascida em Jaú, cidadezinha no Estado de São Paulo, em 1930, a escritora morou por uns tempos na capital paulista e radicou-se em Campinas, em sua Casa do Sol, espaço projetado para seu encontro íntimo com a fauna e a flora (ela convivia com centenas de animais, entre cachorros, gatos, cabras e aves). Na reclusão, iniciou uma rica produção em versos, com ainda poucos leitores e limitado espaço na mídia. Das entrevistas dadas na época é possível encontrar uma Hilda verborrágica, plena de considerações e carente por leitores. Não me sinto atraída pela fama, mas é lógico que, como escritora, quero ser consumida, contou ao jornalista Nello Pedra, em 1978.
Ela não era tábua etrusca
De sua passagem pela experiência da transcomunicação – na qual realizava gravações, e, ao ouvir em dada frequência, dizia deparar-se com vozes de conhecidos já mortos – até os primeiros e experimentais textos para teatro, Hilda surgiu nos jornais e revistas tratada como fruto do inusitado. Com a passagem do tempo e o surgimento de sua tetralogia obscena (O caderno rosa de Lori Lamby, Contos d’escárnio, Cartas de um sedutor e Bufólicas), na década de 1990, a imprensa sentiu compreender o trabalho da escritora e a procurou de forma mais constante. Na mesma proporção, os leitores se ampliaram, ponderando sobre uma possível obra mais palatável e curiosa. Em seu lugar de sempre, onde se mantinha rodeada de amigos, árvores e bichos, ela já não mostrava o mesmo fôlego para se comunicar.
Surpreendemos uma Hilda irritada, irônica e propositalmente distraída, analisa Diniz, sobre o período em que a escritora iniciava sua caminhada rumo à mitificação e já não se importava muito em verbalizar suas ideias. Morta em 2004, ela desnudou suas crenças com o próprio percurso. Até o começo dos anos 1990 diziam que eu era uma tábua etrusca, totalmente incompreensível. Eu ficava besta com esse tipo de comentário porque afinal eu sempre escrevi em português. Depois, não sei o que aconteceu, mas as pessoas começaram a entender, disse ela à jornalista Leila Gouvêa meses antes de sua morte. O poeta sempre foi um exilado, bradou no mesmo encontro, demonstrando os muitos calos que lhe foram impostos.
Na cama com o pai
Ironias do destino, em Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst, são as obras que lhe concederam intensa fama, com forte tom sexual, que ganham novas significações. Polêmico na época e ainda hoje, O caderno rosa de Lori Lamby, no qual uma menina de 8 anos relata sua iniciação ao sexo promovida pelos próprios pais, pode ser compreendida em novos contornos a partir da entrevista que a escritora concedeu às jornalistas Clelia Pisa e Maryvonne Petorelli, em 1977, para uma revista francesa. Uma beleza como aquela em um homem me deixava desconcertada. E também havia seus papéis, suas cartas, as anotações que eu tinha dele. Sua imagem continuou em mim, alimentando um desejo que nunca mais parou: encontrar um homem parecido com ele. A cada vez que amei, procurei em todos os homens os traços de meu pai, confessou uma Hilda um tanto liberta. Estou convencida de que o que sempre queremos é ir para a cama com o nosso pai. Isso não é uma invenção. É uma coisa ao mesmo tempo mítica e verdadeira. E meu pai, eu só o conheci louco, completou.
Diante de tão pequena (ou talvez nenhuma) censura, Hilda Hilst revela uma escrita com tons biográficos, sentimentalismos que transbordavam no papel e se encontravam em lucidez na forma de livro. O pai, um jornalista com esquizofrenia, só podia ser encontrado diante das palavras, que serviam como elo. Da mesma forma, a escritora se ligou a questões e pessoas as quais considerava. Em suas entrevistas, ela se revela extremamente humana, palpável e compreensível. Certamente, ficaria besta ao se ver nua na coletânea de respostas.
