Ícone do site Tribuna de Minas

Arte de cicatrizes expostas

francisco brandao buscou referencias na familia e religiao para os trabalhos

francisco-brandao-buscou-referencias-na-familia-e-religiao-para-os-trabalhos

Francisco Brandão buscou referências na família e religião para os trabalhos
PUBLICIDADE

Francisco Brandão buscou referências na família e religião para os trabalhos

PUBLICIDADE

O artista possui um vasto mundo para servir de inspiração. Pode rir do absurdo da vida, da política que se faz em nosso país, contar uma história (real ou imaginária), expor sua visão sobre o mundo e as coisas da vida, brincar com signos, subverter o próprio conceito de “arte” etc. Ou simplesmente olhar para dentro de si e mostrar ao público suas próprias emoções, memórias, dores, alegrias e tristezas. Contradições. E é a partir desse olhar interior que Francisco Brandão abre nesta quinta-feira, no Centro Cultural Pró-Música, sua primeira exposição. “Crisálidas” reúne obras criadas pelo artista a partir de 2015, propondo uma reflexão sobre o processo de cicatrização das dores humanas. A abertura será precedida, também na quinta-feira, por uma intervenção urbana no calçadão da Rua Halfeld, onde serão colocadas 20 mil penas de gesso.

A mostra no Pró-Música até o dia 26 tem como referência os trabalhos feitos por nomes do peso de Helio Oiticica, Lygia Clark, Lucio Fontana e Cildo Meireles, propositores da introdução do espectador na própria obra. Uma das telas é sensorial, transparente, com o público podendo colocar algumas – ou todas – das 84 penas separadas para o trabalho, considerado uma continuidade da intervenção planejada para a Halfeld e que Francisco define como “um processo contínuo”.

Outro trabalho apresenta uma tela e um sofá como elementos complementares da proposta do artista. A tela foi o elemento de partida para a composição, a partir de um momento de frustração em 2014: ao destruir o suporte por não se sentir capaz de realizar um trabalho tradicional, tratou de recuperar a tela costurando-a com linha branca, como num processo de cicatrização, acrescento ao conjunto as pérolas plásticas. “O sofá pertencia à minha família e veio para ficar na minha moradia. Ele foi comprado pelos meus pais quando se casaram e teve sua estampa original coberta quando se separaram. A ideia do complemento veio porque ele ficava perto da tela, então o sofá foi rasgado da mesma forma que a tela e se tornou uma espécie de prolongamento da obra. As pessoas são convidadas a se sentar no sofá para sentir o desconforto do processo de cicatrização”, explica Francisco. “Teremos também algumas máscaras, duas delas são como estampas dessas telas, cobertas com pérolas e costura.” A exposição terá, ainda, anotações sobre o processo de criação e um vídeo com imagens do “tapete de penas” colocado na Rua Halfeld, que serão feitas por um drone.

20 mil penas para doar

A intervenção na Halfeld, que deve ir da esquina com a Avenida Rio Branco até a esquina com a Rua Batista de Oliveira, tem o nome de “Ex-votos”, termo em latim que significa “o voto realizado”. A prática, ligada à Igreja Católica e a diversas culturas, consiste num presente dado pelo fiel a seu santo de devoção, podendo ser uma consagração, pagamento ou renovação de promessa. Ela, assim como as obras da exposição, mostra outro traço marcante na vida do artista além da família: a religião. “Essas obras trazem muito dessa ligação com a família, que é muito religiosa. As pérolas fazem parte de um processo de sacrifício, como se a gente estivesse purgando nossas dores, trabalhando como se fosse um processo punitivo-religioso”, diz. “Isso deixou resquícios para o processo de criação das penas, como se fosse uma penitência, de ter que criar 20 mil penas e doá-las. Já o sofá vai contar um pouco da história da separação dos meus pais, como originalmente possuía uma estampa diferente será como ter uma história oculta por baixo.”

PUBLICIDADE

Francisco Brandão acredita que essa exposição de sentimentos serve como elemento de aproximação com o espectador. “Quando a gente consegue ser sincero com alguém, mostrando nossa fragilidade, abrimos espaço para que ele não se sinta intimidado, e sim mais próximo. É mostrar que minha vivência remete à dele e promove essas conexões.”

Para essa conexão, Francisco vê a intervenção na Rua Halfeld – que deve permanecer por três dias no local, segundo ele – como elemento que ajudará o público a conhecer e se aproximar da exposição no Pró-Música. “A rua é um centro vital da cidade, parte considerável da população passa por ali. Quero ver a reação das pessoas com isso (o ‘tapete’). Quero poder mostrar ao público meu primeiro trabalho, um pouco também por gratidão.” Segundo ele, o público poderá tocar e manipular as penas de gesso, até mesmo pegá-las e levá-las para casa se assim desejar. “O importante é experimentar as reações do público”, afirma o artista, que torce para a chuva não estragar seu planos no dia da intervenção.

PUBLICIDADE

CRISÁLIDAS

Abertura da exposição de Francisco Brandão nesta quinta-feira, às 19h. Visitação de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, até 26 de junho

Centro Cultural Pró-Música

PUBLICIDADE

(Avenida Barão do Rio Branco 2.329)

Sair da versão mobile