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Traços do Brasil

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Capa do poema de João Cabral de Melo Neto
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Capa do poema de João Cabral de Melo Neto

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O acaso – ou algo que o negue – levou o dramaturgo Antônio Cava à residência de Norma Estellita Pessôa. Pouco antes, ele desejava emoldurar algumas das 33 obras de Glauco Rodrigues que colecionava, quando fez uma descoberta. O senhor atrás do balcão da loja de molduras havia trabalhado para o homem que Cava não conhecia, mas sempre admirou. Foram juntos à casa de Norma, segunda esposa do artista gráfico e pintor, falecido em 2004, aos 75 anos. "Logo enxergamos a possibilidade de unir as paixões pela obra e pela figura", relembra Cava, curador da exposição "O universo gráfico de Glauco Rodrigues", em cartaz a partir de hoje na galeria Convergência do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm).

Desse encontro inesperado até o lançamento da mostra no Rio, foram 12 meses de seleções, planejamentos e afinidades. "Cava se revelou profundo entendedor do trabalho de Glauco, embora não sejam da mesma geração", comenta Norma, que assina a curadoria adjunta. De acordo com ela, o projeto discute a arte gráfica do marido, reconhecido, principalmente, na pintura. "Esse recorte nunca foi exibido completamente", explica. Aliás, trata-se da primeira retrospectiva desde a morte do artista gaúcho, nascido em Bagé e radicado no Rio.

A mostra chega ao Mamm depois de passar por Rio, São Paulo e Curitiba (PR). Segundo Antônio Cava, a configuração do museu local permitiu a inclusão de mais dez obras, em um total de 89 quadros (entre litografias, serigrafias e linoleogravuras) e 40 itens exibidos em vitrines (como ilustrações para revistas e capas de discos e livros). Fortaleza (CE) e Recife (PE) são as próximas cidades a receber a produção, que narra uma trajetória de mais de 50 anos. "O artista utilizou e defendeu o recurso da reprodução gráfica para democratizar sua arte, de grande significação cultural para a identidade brasileira", afirma Cava.

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Em algumas fases de seu percurso, Glauco Rodrigues topou com Murilo Mendes. "Murilo estava em Roma quando Glauco foi para lá. Generoso, o poeta fez à mão um mapa da cidade para o amigo", conta Norma, que, na época, ainda não era casada com o artista. "A primeira esposa também se chamava Norma. Ele ficou viúvo e encontrou a Norma 2", brinca, adiantando que pretende doar ao Mamm o roteiro desenhado por Murilo. O escritor juiz-forano também foi o responsável pela presença de Glauco na 32ª Bienal de Veneza, em 1964. A convite do Ministério das Relações Exteriores, ele participou da seleção dos nomes que integraram o pavilhão do país. Entre outros, foram convidados Tarsila do Amaral e Alfredo Volpi.

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A análise crítica de Murilo Mendes sobre os trabalhos de Glauco completará o catálogo da exposição do Mamm. Outro que assina um texto na publicação é o escritor Luis Fernando Veríssimo. "(…) E acima de tudo, a técnica do Glauco. O seu admirável saber fazer, em qualquer superfície. Ninguém como ele combinou sensualidade e rigor artesanal e fez um retrato tão preciso deste carnaval."

Na opinião de Antonio Cava, os traços do artista estão no imaginário brasileiro, principalmente as serigrafias relacionadas ao Rio. "O público vem reconhecendo Glauco, apesar de não ter noção da sua intensa produção." Em Curitiba, como salienta o curador, a mostra foi considerada uma das três melhores da cidade em 2011. Entre os itens, chamam a atenção as três capas de discos feitas para João Bosco e a capa para o livro "Morte e vida Severina", de João Cabral de Melo Neto. 

Para Norma, não houve ainda no país proposta que superasse a da inovadora revista "Senhor", na qual Glauco atuou quando se deslocou para o Rio, em 1959. Oito anos antes, o artista criou, ao lado de Glênio Bianchetti e Danúbio Gonçalves, o Clube de Gravura de Bagé. Logo depois, integrou o Clube da Gravura de Porto Alegre, com Vasco Prado e Carlos Scliar. Estabelecido no circuito artístico, o gaúcho, presente hoje em importantes coleções, passeou pelo abstrato e o figurativo, com escalas na pop art e no tropicalismo. Entre suas obras, está o painel em mosaico instalado na entrada da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio, construído em pastilhas e encomendado para celebrar o centenário da entidade, em 2000. 

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O UNIVERSO GRÁFICO DE GLAUCO RODRIGUES

 

Abertura hoje, às 20h. Visitação de terça a sexta, das 10h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h

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Até 24 de junho

 

Mamm

(Rua Benjamin Constant 790 – Centro)

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