Na voz de Fagner ou de Simone, muitos brasileiros já entoaram as palavras: “Só uma coisa me entristece/ O beijo de amor que eu não roubei/ A jura secreta que eu não fiz/ A briga de amor que eu não causei”. Mas o que a maior parte dos juiz-foranos não sabe é que a composição musical de “Jura secreta” é de Sueli Costa, uma das filhas da cidade — que fez a canção ao lado do letrista Abel Silva. Essa é uma das músicas mais famosas da artista que já foi gravada por ídolos da música brasileira, como Maria Bethânia, Nana Caymmi e Elis Regina, e faz parte de um repertório grande e cheio de outras preciosidades. É justamente esse legado que o show dirigido por Márcio Hallack vai homenagear, marcando o retorno das Quintas Musicais às 20h no Mercado Cultural AICE. Além do artista, que também vai estar no piano e nos arranjos, outros músicos de diferentes gerações vão prestar homenagem à compositora, que morreu em 2023.
A concepção da apresentação começou a partir de um convite da Funalfa. Márcio conta que tem uma ligação antiga com a família de Sueli Costa, inclusive com a mãe dela, que dava aula de música em conservatório, e com a sua irmã, a também artista Telma Costa. E foi por acompanhar toda essa trajetória que sabia a importância de fazer um tributo à altura. “A gente podia fazer um projeto mais intimista, com um ou dois cantores. Mas acho que é legal dar uma visão para quem não teve contato com a obra dela e quem está hoje na música de Juiz de Fora poder contribuir”, contou. O show conta com a presença das cantoras Juliana Stanzani, Anna Terra, Tamara Lessa e Daniela Aragão. Também terá Amanda Martins (flauta), Márcio Itaborahy, Márcio Guelber (acordeon), João Cordeiro (bateria) e Eneas Xavier (baixo).
Dentro de uma obra tão grande, ele conta que os artistas tiveram liberdade de escolher as canções que mais se identificavam e que gostariam de apresentar ao público na ocasião. O mais interessante, na sua perspectiva, é deixar que o público se surpreenda sobre o quanto já conhecia das composições da artista. Aqueles já mais preparados, no entanto, também poderão descobrir novas camadas e faces do repertório conhecido. “O Márcio Itaboray foi amigo dela e vai apresentar ‘Violão’, que eu não conhecia. É uma obra tão grande, que sempre dá pra encontrar uma novidade, e dessa vez foi ele que encontrou”, diz. A expectativa é que a noite sirva como uma pequena amostra da artista e da pessoa. “Espero que seja um momento leve, como ela era, e denso, como ela também era”, define.
À frente do tempo
Logo que veio de Leopoldina para Juiz de Fora, entre 2010 e 2011, Juliana Stanzani participou de um show em homenagem a Sueli Costa. A apresentação foi produzida por Roger Resende, Ricardo Itaborahy e Fred Fonseca, teve direção artística de Toninho Dutra e ela estava na plateia. “Foi algo muito marcante, muito emocionante para mim. Desde então, a obra dela me acompanha”, relembra Juliana, que vai participar do novo tributo. Uma grande referência que ela trouxe desse momento é o disco da Daniela Aragão, que foi produzido e arranjado pelo Márcio Hallack, e que só tem músicas da Sueli Costa.
Conhecendo a obra da artista e sendo ela mesma uma compositora, foi entendendo cada vez mais a importância de Sueli — inclusive para gerações futuras. “É fundamental dar mais visibilidade a uma compositora, mulher, de Juiz de Fora, que teve um contato muito profundo com a cultura daqui. Mas que poucas pessoas conhecem, e quem conhece a música acha que é de outra pessoa. A autoria se perde”, reflete. Para ela, no entanto, recuperar isso é fundamental.
A artista inclusive destaca a importância de perceber o trabalho de Sueli Costa com seus parceiros letristas (vale citar Tite de Lemos, Abel Silva e Paulo César Pinheiro), mas também as músicas cujas letras ela mesma escreveu e que traziam a perspectiva feminina à tona. Ela inclusive destaca que esse pode ter sido um diferencial para tantas mulheres importantes da MPB terem gravado os ‘hits’ da cantora. “As canções dela da década de 1970, de uma mulher do interior, representam os dilemas mais humanos da mulher e a sexualidade feminina com muita liberdade. É algo muito à frente do tempo. (…) Ela representava muito essa mulher e acho que continua representando. As músicas continuam muito atuais”, diz.
