
Gigante: Obra da série “Meeting point”, do português Bruno Pacheco (foto) Leonardo Costa
Eles andam para um mesmo lugar, todos juntos, carregando mochilas, hasteando bandeiras, vestindo camisas cheias de estampas, trajando bonés e com braços estendidos. Seriam jovens? Aonde vão e onde estão? Estariam a lutar? Na série “Meeting point” (Ponto de encontro), o artista visual português Bruno Pacheco não revela tudo, apenas dá pistas e oferece ao que olha a oportunidade das respostas. As pinturas com mais de dois metros de altura e cerca de quatro metros de largura (uma delas, a exceção, mede 1,05m por 1,60m), feitas com uma tinta a óleo dissolvida, dando aparência de aquarela, poderiam, muito bem, retratar manifestações recentes no Brasil. Ou nos Estados Unidos, Grécia, Portugal e qualquer outro canto. Podem não ser real, mas são verossímeis, assim como os trabalhos dos outros cinco artistas reunidos no projeto itinerante da Bienal de São Paulo, cuja 31ª edição desembarca nessa quinta em Juiz de Fora, no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm).
Impactantes, as telas de Pacheco, que quase não passaram pela porta da galeria (que precisou ser retirada para a entrada das obras), demonstram uma leitura da arte contemporânea relacionada com o presente. O que é feito hoje e reflete o exato momento da fala é o norte da exposição paulista, intitulada “Como (…) coisas que não existem”, sob curadoria do escocês Charles Esche, ao lado dos espanhóis Pablo Lafuente e Nuria Enguita Mayo e dos israelenses Galit Eilat e Oren Sagiv. Internacional já em sua configuração de criação, a exposição traz, pela primeira vez, um recorte global, sem brasileiros entre os selecionados. Além do português, estão a polonesa Agnieszka Piksa, a colombiana Johanna Calle, a espanhola Teresa Lanceta e as turcas Gülsün Karamustafa e Nilbar Gures.
Subvertendo o que é comum
No lugar das reticências contidas no título da exposição, podem entrar construções como “falar de”, “viver de”, “aprender” ou “desfazer”, esta a opção acolhida para o título da seleção presente em Juiz de Fora: “Como desfazer coisas que não existem”. “Optou-se por obras que se adequavam ao espaço. Privilegiaram-se assuntos relacionados à contemporaneidade com viés social e político muito grande, o que foi o cerne da Bienal”, comenta o curador do Mamm, Afonso Rodrigues. “O recorte se preocupa em discutir como os artistas usam recursos por meio da arte para subverter esse sistema comum, que usurpa direitos e a condição igualitária entre camadas sociais. É a arte burlando o status quo que legitima uma classe em detrimento de outra, um estado de gênero como verdade absoluta para todos, enfim, a arte diante desse absolutismo”, completa Elaine Fontana, educadora da Bienal.
Segundo Elaine, até então, a Bienal trabalhou por um aspecto estético muito potente, mas a nova mostra “rompe com um sistema de visualidade, daquilo que é palatável, entrando em contato com questões intrínsecas”.
Aparentemente mais agradável que a última edição que chegou à cidade, a 30ª Bienal, e mais complexa que a 29ª – primeira vez que aportou por aqui -, essa exposição seduz pelo forte apelo discursivo, pela atualidade, pela imediata identificação. “Talvez não agrade no aspecto visual, mas cria uma relação próxima com o objeto. Há menos a pergunta ‘por que isso é a arte?’, e mais o debate direto sobre o assunto retratado. Para as pessoas da arte, houve bastante discussão sobre a rua”, aponta a educadora. “A recepção foi mais fácil, porque o que está na rua está no espaço de exposição. As críticas dizem que a mostra entra mais em contato com a vida do que com a linguagem, e isso faz parte da arte contemporânea”, acrescenta.
Da tapeçaria à pintura, passando por desenhos emoldurados, publicações e uma impressionante colagem de tecidos, a seleção contempla suportes tradicionais e, uma vez mais, suscita no espectador o debate sobre os processos canônicos da arte. Em formato de um caftan, os retalhos da turca Gülsün Karamustafa unem imagens de opulência a tramas de fios de baixa qualidade. É uma veste que aparenta ser mais do que é. Isso te diz alguma coisa, não?! Diante das obras da 31ª Bienal no Mamm, o espectador não passa ileso.
“Aqui o recorte não confunde. Há recursos de uma linguagem da arte, com matrizes reconhecíveis, e a abordagem é discursiva. Se a pessoa não souber sobre a obra, fará uma apreciação estética e assim já estará inserida no debate: ‘Viu?! Não precisa ser arte feita aqui, contemporânea e conterrânea do sistema, mas também pode ser feita pelas mulheres de uma comunidade ignorada!'”, diz Elaine, citando os tapetes da espanhola Teresa.
“É interessante refletir: porque só valorizamos a linearidade histórica da arte contemporânea e não debatemos a realidade estética dos objetos que nos aparecem?”, indaga, apontando para o que parece ser o grande trunfo da exposição. A arte, na verdade, vai além do que a própria arte consegue alcançar. Chega ao que não existe, ou existe e é sumariamente ignorado.
31ª BIENAL
DE SP
Abertura nesta quinta, às 19h. Visitação de terça a sexta, das 9h às 18h, sábados, domingos e feriados, das 13h às 18h. Até 31 de maio
Mamm
(Rua Benjamin Constant 790 – Centro)

