Em tempos em que os sentimentos estão cada vez mais efêmeros e radicais, o amor parece ter caído em desuso. A vida cada vez mais corrida nos impede de dedicar momentos a quem amamos ou simplesmente refletir sobre o amor. Numa tentativa de pausar a correria do dia a dia, a atriz e produtora cultural Nadja Dulci apresenta hoje, no Parque Halfeld, a intervenção urbana Nós Marílias, com leitura de cartas de amor para pessoas que estiverem passando pelo local. A proposta é criar um hiato na vida deste transeunte, trazendo-o para uma realidade completamente diferente daquela que está inserido, despertando o interesse e proporcionando uma pausa para o amor, para a literatura de anônimos, ressalta.
Natural de Santos Dumont, Nadja estudou artes cênicas na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), onde recebeu o convite para produzir a abertura do festival Para Gostar de Teatro, em maio de 2012. Como o evento seria realizado na casa do poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, autor do livro de poemas Marília de Dirceu, em homenagem à sua amada Maria Doroteia, a atriz se propôs a homenagear a história do casal. Quis elaborar um trabalho que conseguisse dialogar com aquele espaço. Após a Inconfidência Mineira, o poeta foi exilado em Moçambique, e Marília ficou no Brasil, à espera de cartas dele, que nunca chegaram. Por isso, propus ler cartas de amor à Marília, como se fossem mensagens enviadas por Dirceu, explica.
A partir desta apresentação, Nadja decidiu dar novos rumos ao projeto, que passou a ser realizado em ruas e espaços públicos. O conteúdo lido para os estranhos são obtidos por meio de cartas confidenciadas a ela pela internet (nosmarilias@gmail.com). Segundo a atriz, são histórias reais contadas por pessoas de todos os cantos do Brasil e até de países como Argentina, Espanha e Itália. Durante a performance, nos tornamos Marílias e Dirceus, escritores de nossas histórias e do nosso amor.
Ao receber os relatos, Nadja tem o cuidado de transcrever à mão todas as cartas, mantendo em sigilo a identidade dos autores. Depois elas são colocadas em envelopes, lacradas e seladas, para que cada pessoa escolha a carta que deseja ser lida e compartilhada. São histórias de estranhos lidas para outros estranhos, que de alguma forma se identificam com os relatos, se emocionam e ficam felizes.
Para aproximar as pessoas desta intervenção, Nadja utiliza um figurino inspirado no século XVIII, bem romântico, com saia de seda e blusa de renda que, de acordo com ela, chama a atenção de quem passa. Digo que, além de escolher as pessoas, algumas me escolhem. É uma experiência muito interessante. O amor precisa deste tempo. A atriz hoje mora em Brasília. Na última segunda-feira, ela se apresentou em sua cidade natal – Santos Dumont – e, na semana que vem, deve passar por São João del-Rei e Tiradentes.
Nós Marílias
Hoje, às 17h
Parque Halfeld
