Recém-chegado ao setor, o juiz-forano Daniel Valentim, do selo Barteblee, participou da Feira de Frankfurt de 2012, acompanhando o Fórum de Impressão Digital, voltado a práticas e tecnologias mais recentes sobre formas de reproduzir um livro, dentre elas a considerada revolucionária técnica de impressão sob demanda, que consiste em rodar uma menor quantidade, destinada imediatamente ao consumo, excluindo do processo os desgastes da estocagem. De acordo com Valentim, o encontro de imensa proporção é muito mais focado em fatores quantitativos de mercado e não destina muita atenção ao caráter artístico da literatura.
Voz consonante entre editores, Daniel Valentim acredita no fortalecimento do mercado interno brasileiro durante 2013. O Brasil é considerado um mercado em expansão. Todos estão interessados no que acontece por aqui, afirma. Cuidadoso, o jovem editor também pondera quanto a uma possível ampliação na entrada da literatura estrangeira, ponto crítico segundo o escritor Luiz Ruffato, que terá o primeiro título da série Inferno provisório, o livro Mamma son tanto felice, publicado na Alemanha em outubro, simultaneamente à feira.
Somando quase uma dezena de traduções de seu mais elogiado livro, Eles eram muitos cavalos, que esse ano ganhará versão em croata e inglês (EUA), Luiz Ruffato é contido ao comentar as expectativas acerca do encontro alemão. Segundo ele, a literatura brasileira não alterou sua qualidade, mas o país sofreu grandes alterações em sua imagem em relação ao exterior. O interesse pela literatura brasileira continua o mesmo: nenhum. A nossa literatura está em voga por outras questões, enfatiza, citando a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Com a experiência como curador editorial da Babel, grupo português que desembarcou no Brasil em 2011, Ruffato afirma que a literatura portuguesa contemporânea é muito mais divulgada e traduzida que a brasileira. Para ele, todo o alvoroço que se formou acerca da homenagem em Frankfurt não condiz com a realidade nacional. A situação do mercado editorial brasileiro é a mesma do Brasil. Melhorou, mas ainda está muito longe do ideal, comenta, reivindicando o pouco investimento governamental em traduções. Lançada há dois anos pelo Ministério da Cultura, a bolsa de tradução ainda não corresponde às demandas do país, segundo o escritor.
Evitando um tom pessimista, Luiz Ruffato acredita que a literatura nacional ainda carece de leitores no país, o que indica que qualquer busca por leitores estrangeiros não contribui para modificar o panorama da escrita e da leitura no Brasil. Para o escritor, é perigoso projetar para Frankfurt uma tão aguardada revolução na literatura. Como o personagem de Guimarães Rosa no conto A hora e a vez de Augusto Matraga, presente no livro Sagarana, o protagonista – no caso, a arte literária – pode morrer no fim. E o vilão nessa história será o velho e conhecido mercado.
