Antes do telefone, acordo. Levo água ao rosto, chia a torneira. O olho, insiro pela vidraça quebrada, apostando num tempo melhor. O botão quer resistir à camisa, o barbeador à pele. Procuro, entre uma e outra operação, suster a pasta ardente na boca. Desconjunto, largando espuma e pelos bicolores na pia. É um mundo sério e acompanho sua gravidade. Escolho a gravata vermelha em vez do sono, mas o pão entala, pede café, e o pescoço percebe ter reivindicado um nó demasiado complexo e firme.
Apertado no ônibus, durante os intensos freios, vou com custo evitando o velho a quem dei assento. Tento me equilibrar num ponto menos cinza do lado de fora.
E de lá me acena, sorrindo, um pequeno jardim. Entro a recordar os dias de sol que eu menino preenchia. Os dias em que o relógio não cortava ainda o pulso, e não insistiam no bolso as chaves que nos confinarão de uma vez por todas em caixas vazias.
Naquele tempo, eu desprezava os avisos ríspidos das cercas e as trespassava para topar com árvores de onde despencam frutos imaturos da imaginação.
Era um tempo fabuloso em que água e rosto ainda se tocavam, que as torneiras chiantes eram senão um substituto enfermo dos banhos de rio e o rosto não se cortava.
A menina que mirava o vazio se levanta. Sento-me, apesar de possíveis velhos que me espreitem.
Torna o pensamento a partir e o ônibus. Não era eu que em canoas invisíveis remava, singrando os mares de gente? Prescindia então de mapa e bússola que me guiasse. Os caminhos davam sempre no portal imponente a partir do qual principiava o museu.
De longe já atraía o canto da ferrugem, já espessas camadas de limo contavam outrora. Eu atracava, aguardando entreouvir da mata adentro o velho conselho de que, mais adiante, era preciso aceitar umas pedrinhas irregulares, das que desenham cicatrizes nos pés de quem queira se aventurar.
Como soubesse levitar, porém, deixava-me levar até o topo do monte em que o palácio fincava, ileso.
Naquele tempo, todo o tempo era poético.
Exceto, talvez, o do silêncio.
Depois de muito explorar a vastidão daquele reino é que o cansaço e as pernas curtas me punham num lugar inevitável à direita do caramanchão, pequenino entre estátuas de deuses; ali, e somente ali, o frio, solene, tomava as rédeas.
A porta. Solitária e árida, impedindo a entrada, arreganhava dentes de ferro para mim, trancava-se.
Um resto de luz abafada vinha de baixo, sem força para atravessar grossas grades de uma prisão.
Aproximava-me, o coração espremido, prenunciando o vulto confuso que lá no fundo habitava. Algumas vezes entendi o balbucio. Pedia um pouco de luz.
Era aquilo o homem enforcado pela barba, pendurado na parede, o do corpo feito em pedaços que se distribuíram pelo cadafalso da triste pintura.
Podia assegurar que me via, um homem esgotado, febril, encerrado.
A gravata me aperta, sufoca. Livro-me dela a um só golpe.
A porta do ônibus está aberta. Não mais! Confiante saio a procurar o menino que deixei no museu.
Samir Hauaji
Ator, premiado em 2002 com o filme "Deus me livre ou o dia em que o diabo decidiu devolver o inferno", exibido no Festival Guarnicê, do Maranhão. Assina a direção da esquete "Jogando stop com a morte", vencedora do Cenas Curtas de 2013. É um dos protagonistas de "O cego e o louco", que cumpriu temporada recente na Alemanha. Professor de literatura durante 15 anos
